Quem nunca cantou aquarela quando era criança? Ouvi alguém dizer. Sim, eu havia cantado, pensei. Algo sobre colorir, desenhar um sol amarelo... Mas.. Que mais? Eu não me lembrava. Sim, eu cantava e podia descrever algumas lembranças. Eu desenhando e cantando. Meus colegas de classe ensaiando a música pra fazer uma apresentação.. Mas eu não me lembrava. Era um túnel de lembranças vazias. Não me lembrava do ritmo da música, já não conhecia a letra da música. E talvez.. Talvez houvesse restado pouco dela em mim. Sim. Talvez não fosse só a letra que eu havia esquecido. Talvez a essência de colorir houvesse se perdido em algum lugar da minha vida. E me senti vazia. Me senti sem cor. Eu precisava. Precisava da aquarela. Precisava cantar que eu podia desenhar um sol amarelo que talvez iluminasse meus dias de chuva -e como chovia!-. Mas faltava. Onde encontrar a cor da vida? Aquela alegria de pintar folhas em branco? De imaginar sem a preocupação constante de um amanhã sem cor? A verdade é que eu não sabia. E todo o preto e branco da vida me deixava um gosto amargo de pôr do sol. Sim. Eram momentos nos quais o sol se punha e a vida ficava escura. Escura como se não houvesse cor. Como se eu houvesse perdido em algum lugar tão distante a infância. Como se tivesse perdido minha aquarela contente. E agora a vida sombria. Cheia de indagações quanto ao futuro. Cheia de medo de desamores. Fui me encolhendo. Encolhendo e me fechando. Dava medo. Dava medo viver. Como se a vida fosse um abismo sem cor. Mas sempre havia algo, natural ou sobrenatural, uma manifestação fora do comum que em meio a sensação de caos me trazia.. Esperança. Era isso. Esperança. Uma menina correndo me abraçou sinceramente. Uma criança sozinha me agradeceu um gesto simples. Uma menina pequena de covinhas miúdas me sorriu. E aos poucos fui lembrando. E elas colorindo a minha vida.. Se um pinguinho de tinta cai num pedacinho azul do papel num instante imagino uma linda gaivota a voar no céu.. Sim. Eu lembrava. Lembrava de lápis coloridos que pintavam papeis vazios. Lembrava da aquarela contente. E aos poucos -sim, bem aos poucos porque é aos poucos que se pinta uma vida-, eu fui sorrindo. E talvez, pensei. Colorir fosse bem mais simples do que diziam. Era preciso me abrir com a inocência de uma criança. Era preciso amar. Amar como quem se doa completamente a algo talvez pouco recíproco. Amar com amor que vinha de Deus. Era preciso sonhar, com bolinhos de chuva e amarelinha no quintal. Era preciso imaginar e fazer de um pingo azul uma gaivota. De um sorriso a alegria. De um abraço o conforto. De uma cor a aquarela. Pra que aos poucos, bem aos poucos aquele papel vazio se tornasse uma vida colorida. Como aquelas crianças um dia me lembraram e trouxeram do fundo, lá do fundo de um baú velho que era o passado, as cores de ser criança. E lembrei do que li outra vez. A Terra está cheia do amor de Deus. E estava. Deus me deu uma criança pra me lembrar que a vida era amável. E eu não estava sozinha. E ainda que os desamores me cercassem o consolo de saber que eu havia amado traria de volta a cor da vida. E tiraria o preto e branco e colocaria a cor da esperança. E eu cantava. Cantava que podia desenhar um sol amarelo e fazer de um pingo uma gaivota. Ah, a vida era feliz. Ah, a Terra estava cheia do amor de Deus. Havia a alegria da esperança. E ia voando, contornando uma imensa curva norte-sul...
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sexta-feira, 13 de junho de 2014
domingo, 2 de março de 2014
A vida nas mãos e o calor da descoberta no olhar
Eu tinha a vida nas mãos e o calor da descoberta no olhar. Não confie. Não ame demais. Não se entregue. Tome cuidado. Ame aos poucos. Cuide de você. Meus olhos contemplavam arregalados frases soltas. Tão arregalados quanto no dia em que viram pela primeira vez uma lágrima de tristeza. Procurei algo. O amor. Em qualquer momento. Em qualquer lugar. Eu precisava, suspirava, ansiava. Era tempo de ver o amor. Qualquer coisa. Qualquer ato. Qualquer sorriso. Era preciso amar em tempos de perigo. Era preciso se doar em tempos de solidão. E eu era assim. Sensível ao palpitar das vibrações. Fortes vibrações me consumiam. Eu procurei. Qualquer coisa. Qualquer coisa. Que me lembrasse amor. Não vi. Procurei mais. Estava distante. Era preciso amar com a vida nas mãos e o calor da descoberta no olhar. Mas não havia amor. Um homem gritando com uma mulher. A arrogância. O medo. Uma criança chorando sozinha. Indiferença. Não havia amor. Foi quando li. A terra está cheia do amor de Deus. E vi. Uma mulher perdoando um homem que gritava. Um arrogante pedindo desculpas. Um abraço de amigo. Uma mãe que voltou pra acalentar um choro infantil. Era amor. Digitais de Deus. Palpitando na sensibilidade das vibrações. Me fazendo sorrir. Complexo. Não, nada disso. Amável. Pedi a Deus que me fizesse amar. E Deus me deu a vida nas mãos e o calor da descoberta no olhar. E eu amei.
quarta-feira, 20 de novembro de 2013
Amor
Tinha algo a ver com o sol que se punha diante de mim e me evocava aquela remota sensação de fim. A essas horas do dia o medo, o ciúme e a angústia mesclavam-se em tons de vermelhidão e coloriam o céu. Sim, eu tive medo. Medo das frestas, dos vazios, dos ocos da vida. Aquilo ainda não resolvido, o controle que não me foi dado. As lágrimas se difundiam pelas brechas. Incertezas. A vida apresentava-se assim. Dúbia, incerta, avermelhada. Meus olhos a essas alturas da vida, nem sempre escolhem voltar-se para a frente. Normalmente focam o chão, o vermelho, o nada. Mas nesse pôr do sol olhei. E vi. Um casal de idosos andando pelo parque de mãos dadas. Uma miragem distante. Quem eram? E por qual motivo amavam a essa altura da vida? Cabelos brancos, mãos dadas, sorrisos estampados, disposição. Pareciam amar. E amavam em meio a um pôr do sol! E se a vida não fosse apenas dúbia, incerta e avermelhada? E se houvesse algo de mais brilhante, belo e vivo a frente dos ocos? O amor! Julguei ter visto uma vertente do amor. E me senti amada. Não havia braços a me envolver. Não havia mãos a encontrarem minhas mãos. Não havia palavras audíveis ou visíveis para me fazer acreditar que era amada. Mas havia algo de divino ali, naqueles velhinhos companheiros, naquela visão que pude ter. Senti Deus. E Ele não estava tão distante, remoto e vermelho. Ele estava comigo e me amava tanto que me fez enxergar o amor em meio ao pôr do sol!
Tinha algo a ver com o sol que se punha diante de mim e me evocava uma nova sensação. Amor. A essas horas do dia, o fim era a certeza do recomeço. Certo como um dia após o outro, Deus iria me envolver de amor. Sim, eu sorri. E vi o sol fugir. Ficou a noite que me fez dormir e amanhecer com a certeza de que a vida não era dúbia, incerta ou avermelhada. Era amável!
Tinha algo a ver com o sol que se punha diante de mim e me evocava uma nova sensação. Amor. A essas horas do dia, o fim era a certeza do recomeço. Certo como um dia após o outro, Deus iria me envolver de amor. Sim, eu sorri. E vi o sol fugir. Ficou a noite que me fez dormir e amanhecer com a certeza de que a vida não era dúbia, incerta ou avermelhada. Era amável!
domingo, 11 de agosto de 2013
Flor dos sonhos
Hoje acordei sentindo-me frágil. Algo a ver com as flores dos sonhos que permearam de expectativas minha infância. Aquelas que me diziam ter o poder mágico de realizar meus sonhos caso eu espalhasse suas pétalas brancas com o sopro de minha boca. E eu as soprava, e o menor esforço espalhava pequenas pétalas sem rumo, que poderiam ir a qualquer lugar carregadas de sonhos infantis. Hoje acordei sentindo-me uma flor dos sonhos. Aquelas pétalas brancas com cor de algodão pareciam ser eu-inteira até que o menor vento soprasse em mim-. Tive medo. De onde viria o vento que sopraria e me espalharia sem rumo a qualquer lugar? De onde viria o vento que esfacelaria meus sonhos – infantis ou maduros-? De repente me vi impotente. De repente eu era frágil.
Foi quando minha frágil condição tornou-se alvo de milagres. São momentos nos quais a solidão e a incerteza permitem a atuação dAquele que traz em si a vida que me sustém. Ele tomou em Suas mãos minha flor dos sonhos, a protegeu de ventos alheios que lhe tirariam o rumo e soprou nela seu vento. Milagre. Eu já não estava assim tão solta. O vento que Ele soprou em mim me levaria ao rumo certo. Aos poucos meus medos se dissipam. Não como uma transformação mágica e repentina, mas a medida que compreendo que o sopro dEle habita em mim e que a vida que pulsa em mim é dirigida por Ele. Minha pequena flor dos sonhos descansou segura em mãos dEle. Hoje aprendi que posso ser forte.
quarta-feira, 9 de janeiro de 2013
Vida
terça-feira, 25 de dezembro de 2012
Espasmos
Sinto medo.. Do sonho que se desfaz no palpitar do coração. Da vida que se esvai ao som do entardecer. Da angústia que se acolhe nos entremeios do fim.
Sinto medo... Da nostalgia obsoleta que massacra o tempo vivenciado. Do pretérito que oculta as artimanhas do futuro. Da felicidade barata oprimida pela rotina. Do pavor que se abriga nas lacunas do sentir.
Sinto medo... De uma coragem imperfeita mesclada à covardia. Das lágrimas que se perdem no soar das vibrações. Da vida ruminada que se desmancha nos compassos dos ecos.
Sinto medo... De temer o improvável, de querer vazios, de amar desvarios, da solidão. De lágrimas acalentadas, da mesmice destrutiva, de sorrisos e sofismas, da indiferença.
Sinto medo de me perder na multidão, de me familiarizar com a solidão, de querer me esconder. De passos em falso, de amores distantes, de amantes semotos, da nostalgia do existir.
Sinto medo.
Sinto medo... Da nostalgia obsoleta que massacra o tempo vivenciado. Do pretérito que oculta as artimanhas do futuro. Da felicidade barata oprimida pela rotina. Do pavor que se abriga nas lacunas do sentir.
Sinto medo... De uma coragem imperfeita mesclada à covardia. Das lágrimas que se perdem no soar das vibrações. Da vida ruminada que se desmancha nos compassos dos ecos.
Sinto medo... De temer o improvável, de querer vazios, de amar desvarios, da solidão. De lágrimas acalentadas, da mesmice destrutiva, de sorrisos e sofismas, da indiferença.
Sinto medo de me perder na multidão, de me familiarizar com a solidão, de querer me esconder. De passos em falso, de amores distantes, de amantes semotos, da nostalgia do existir.
Sinto medo.
quarta-feira, 19 de dezembro de 2012
Passos e fastos
Se os passos voltarem.
O mundo parou. O sonho findou. A lua caiu.
A vida calou. O soluço surgiu. O amor gelou. O fôlego esvaiu.
O homem girou, girou e parou. A vida retrógrada oscilou e partiu.
Se os passos avançarem.
A visão turvou. A cegueira matou. O dia nublou.
A anestesia curou a dor que chegou.
O olho secou. A lágrima calou.
O sorriso mudou. A expressão marcou.
O homem olhou, olhou e não viu.
A vida prosseguiu, prosseguiu e caiu.
Os passos avançaram, regrediram e desviaram-se. A vida seguiu e o homem sorriu.
O mundo parou. O sonho findou. A lua caiu.
A vida calou. O soluço surgiu. O amor gelou. O fôlego esvaiu.
O homem girou, girou e parou. A vida retrógrada oscilou e partiu.
Se os passos avançarem.
A visão turvou. A cegueira matou. O dia nublou.
A anestesia curou a dor que chegou.
O olho secou. A lágrima calou.
O sorriso mudou. A expressão marcou.
O homem olhou, olhou e não viu.
A vida prosseguiu, prosseguiu e caiu.
Os passos avançaram, regrediram e desviaram-se. A vida seguiu e o homem sorriu.
quarta-feira, 12 de dezembro de 2012
Projeção
O sol se punha diante de meus olhos cansados, a vida é cíclica Dé. O sol se pondo, o fim do dia, a vida que dispara sem o meu consentimento e eu mera espectadora de suas manifestações. O ritmo monótono do palpitar do coração e os sonhos que se desfazem pela monotonia. Ah Dé, tanto tempo passou. Todavia o meu retorno aos locais de nossos encontros provam-me que abandonei um mundo independente de mim, os locais intocáveis quase me fazem crer que o tempo é o mesmo. Exceto a pele que cai sobre minha face, exceto as expressões marcadas sob meus olhos, exceto as forças que se esvaem de mim, exceto os sonhos que há muito andam distante. Não fora isso e aquele restaurante antigo, aquela rodoviária suja e aquele parque farto de transeuntes me fariam crer que o tempo era o mesmo.
Lembra Dé, dos planos que fazíamos? Dos sonhos que tínhamos? E você sempre a acalmar as tensões da minha alma. Ao seu lado não senti medo, meu próprio fôlego fortalecia-se ao ver-lhe. Seus olhos vagos me traduziam os desertos existenciais, sentia-me sugada por eles, entrando pelos olhos e atingindo os píncaros de seu ser encontrei o ápice de minha viagem ao descansar no tom esverdeado do mar de suas íris.
Eu lhe contei sobre meus medos e você me disse que estaria sempre ao meu lado. Disse-me que envelheceríamos juntos e sob as asas do tempo, enxergaríamos mutuamente a vida arrancando de nós partes de nossos corpos, sem contudo poder levar-nos a alma, que há muito nos pertencia em coletividade mútua. E eu cri Dé, cri em você porque me encontrei nos traços de sua face.
Aceitei viver ao seu lado. Durante os dias em que compartilhamos nossas vidas, juro Dé, senti-me viva. Você foi arrancando-me os espaços entre os abraços, sugou a areia de meus desertos, povoou de ilusão os meus ermos.
Eu sonhava com os desvarios de nossos planos, sonhava com o futuro, com a velhice... A vida fortalecia-se diante de mim. E o tempo passou. Até que um dia Dé, acordei e não o vi ao lado. A casa vazia, suas roupas sumidas. O procurei para lhe chamar a mesa para o desjejum. Não o encontrei. Percorri o vazio daqueles quartos, encontrando neles as lacunas deixadas em mim. Meus ermos se reconstituíam a cada grito por você. Não encontrei nada que me sugerisse a sua face, a menos aquele bilhete deixado sobre a mesa, dizendo que cansara de mim e fora aproveitar a vida.
Vivo sozinha, Dé. Meus ermos tomaram forma e meus desertos abafam-me os sonhos. A solidão me é por memória constante do passado. Aprisionada na masmorra de suas formas, fujo para o pretérito e nele me refaço. Choro apenas durante a noite, a luz do sol evapora minhas lágrimas. O sol se põe diante de meus olhos cansados e liberta minhas lágrimas amargas. Fui aos locais de nossos primeiros encontros novamente, prendo-me ao passado. Quase me senti viva outra vez, não fora o espelho e o tato me denunciando as marcas do tempo. Envelheço solitária. Os sonhos da vida todos pelo chão, constroem uma estrada pela qual devo caminhar, pisoteando-lhes e maltratando-lhes, ando e respiro. E assim, aproveito também o que sobra-me dessa vida que você me ensinou a viver.
Ainda aguardo o seu regresso. Quem sabe em algum momento a vida lhe seja tão ingrata quanto foi comigo, e assim, você queira voltar para viver a vida que deixou em mim? Dé, estou no mesmo local, quase nunca saio de casa de forma que caso queira regressar, há de me encontrar esperando sentada naquele sofá estampado escrevendo cartas para você.
Lembra Dé, dos planos que fazíamos? Dos sonhos que tínhamos? E você sempre a acalmar as tensões da minha alma. Ao seu lado não senti medo, meu próprio fôlego fortalecia-se ao ver-lhe. Seus olhos vagos me traduziam os desertos existenciais, sentia-me sugada por eles, entrando pelos olhos e atingindo os píncaros de seu ser encontrei o ápice de minha viagem ao descansar no tom esverdeado do mar de suas íris.
Eu lhe contei sobre meus medos e você me disse que estaria sempre ao meu lado. Disse-me que envelheceríamos juntos e sob as asas do tempo, enxergaríamos mutuamente a vida arrancando de nós partes de nossos corpos, sem contudo poder levar-nos a alma, que há muito nos pertencia em coletividade mútua. E eu cri Dé, cri em você porque me encontrei nos traços de sua face.
Aceitei viver ao seu lado. Durante os dias em que compartilhamos nossas vidas, juro Dé, senti-me viva. Você foi arrancando-me os espaços entre os abraços, sugou a areia de meus desertos, povoou de ilusão os meus ermos.
Eu sonhava com os desvarios de nossos planos, sonhava com o futuro, com a velhice... A vida fortalecia-se diante de mim. E o tempo passou. Até que um dia Dé, acordei e não o vi ao lado. A casa vazia, suas roupas sumidas. O procurei para lhe chamar a mesa para o desjejum. Não o encontrei. Percorri o vazio daqueles quartos, encontrando neles as lacunas deixadas em mim. Meus ermos se reconstituíam a cada grito por você. Não encontrei nada que me sugerisse a sua face, a menos aquele bilhete deixado sobre a mesa, dizendo que cansara de mim e fora aproveitar a vida.
Vivo sozinha, Dé. Meus ermos tomaram forma e meus desertos abafam-me os sonhos. A solidão me é por memória constante do passado. Aprisionada na masmorra de suas formas, fujo para o pretérito e nele me refaço. Choro apenas durante a noite, a luz do sol evapora minhas lágrimas. O sol se põe diante de meus olhos cansados e liberta minhas lágrimas amargas. Fui aos locais de nossos primeiros encontros novamente, prendo-me ao passado. Quase me senti viva outra vez, não fora o espelho e o tato me denunciando as marcas do tempo. Envelheço solitária. Os sonhos da vida todos pelo chão, constroem uma estrada pela qual devo caminhar, pisoteando-lhes e maltratando-lhes, ando e respiro. E assim, aproveito também o que sobra-me dessa vida que você me ensinou a viver.
Ainda aguardo o seu regresso. Quem sabe em algum momento a vida lhe seja tão ingrata quanto foi comigo, e assim, você queira voltar para viver a vida que deixou em mim? Dé, estou no mesmo local, quase nunca saio de casa de forma que caso queira regressar, há de me encontrar esperando sentada naquele sofá estampado escrevendo cartas para você.
domingo, 28 de outubro de 2012
Holocausto Russo -um caso dentre sete milhões-
Era um dia de importância para aquela fábrica, afinal eles
receberiam o grande líder Stalin, o pai do operários, o líder da nação, a
esperança da classe proletária. Os diretores da fábrica se preparavam,
espalharam avisos por todas as partes estabelecendo um horário fixo para que os
trabalhadores aguardassem o discurso de Stalin com antecedência, horas antes de
sua chegada. Finalmente chegara a hora. Pulsava no olhar daquele trabalhador a
ansiedade por conhecer seu líder, por ouvir suas palavras. E ele o viu. Sua
roupa bem alinhada, seu cabelo ordenadamente penteado, seu olhar resoluto. Tudo
inspirava confiança, tudo alimentava sua esperança. E ele observava Stalin
enquanto o diretor da fábrica abria o discurso e fazia as devidas homenagens ao
líder da nação. O discurso do diretor findou e o operário ouviu finalmente a
frase “Passo agora a palavra ao magnânimo, estupendo e majestoso líder de nosso
país”. Stalin ergue-se e surge um aplauso estrondoso, de uma unanimidade
singular. O trabalhador une-se aos aplausos em uma empolgação resoluta, um amor
sincero, uma admiração incauta. Passou-se o tempo, foram-se 15 minutos e os
aplausos não cessaram, 30 minutos e os aplausos não haviam diminuído sua
intensidade. O operário cansado olha ao seu redor sem entender o que ocorre.
Estava exausto, seus braços fraquejavam, estava envergonhado de si, como não
conseguia demonstrar uma hora de devoção ao pai de sua nação, ao homem que dera
sua vida ao povo? O rapaz começa a olhar ao seu redor com olhos mais ávidos,
procurando alguém que ousasse parar de aplaudir para que ele pudesse descansar
também. Todavia ninguém ousara, todos temiam a polícia que estava a espreita.
Passaram-se outros trinta minutos e inteirava uma hora e meia de aplausos
contínuos. Ele decidira-se. Sim, pararia de aplaudir, o cansaço o vencera. O
que demais poderia ocorrer? Afinal, Stalin o compreenderia, sendo o pai de sua
nação, o amante da classe operária jamais se desgostaria dele, entenderia seu
cansaço e o perdoaria. Ele parou e um após outro os aplausos foram cessando até
que todos silenciaram para ouvir o discurso de Stalin.
Findado o discurso o
operário se recolheu a seu posto de trabalho, ainda podia ouvir a voz de seu
comandante e emocionava-se com suas palavras de encorajamento. Enquanto remoia
as palavras de seu discurso, ouviu um chamado para que comparecesse na sala de
seu superior. Durante o percurso lembrava-se de Krutóvisch, um antigo camarada,
companheiro de serviço no mesmo setor e que um dia foi chamado a sala do
superior e nunca mais foi encontrado. O operário assustado ainda lembrava-se
dos olhos marejados de sua esposa ao procurar notícias do marido, ele ainda podia ver o olhar assustados
dos filhos daquela mulher que sabiam terem perdido um pai. Foi quando aquele
trabalhador temeroso se lembrou de seus filhos em casa e de sua mulher que o
aguardava. Por que o procuravam? Seria um engano?
Chegando a sala, encontrou não apenas seu superior, mas
alguns policiais armados que também o aguardavam. -Estamos aqui para assinar o
seu mandato de prisão- foi o que lhe disseram. Seu coração batia forte, o medo
saltava de seus olhos. –Por que querem me prender? O que eu fiz?- Perguntou o
operário. –Você foi o primeiro a parar de aplaudir Stalin!-. – Mas como fazemos
então? Como encerramos os aplausos?-. –Isso não importa-, disse o superior, -O
importante é que você não seja o primeiro. É dessa forma que funciona a seleção
natural de Darwin, é assim que reduzimos os fracos a seus fracassos-. Mal
terminada a frase, os policiais amarraram suas mãos e o levaram para longe
dali. O trabalhador amedrontado sem saber para onde ia não parava de pensar em
seus filhos, aquelas crianças de cabelos despenteados que o aguardariam na
porta ao fim do dia. Não houve tempo de despedida, não houve a oportunidade do
último adeus a sua mulher. Ele foi para longe, foi trabalhar em um campo de
concentração, foi sustentar a nação com seu trabalho e seus ombros suportaram o
peso de todos os seus conterrâneos. Onde estaria Stalin agora para o ajudar e o
acalentar em seus braços de pai? O líder que amava a nação agora o levava para
longe de sua família. Como seria possível? E agora ali estava ele a entrar no
campo de concentração. Rostos cadavéricos o saudavam e ele teve a impressão de
que não sairia dali jamais. Os dias se passaram e a cada dia o trabalho aumentava. Levaram-no para construir uma linha férrea e ele trabalhava todos os dias mais de 20 horas. Um dia o trabalhador patriota caiu exausto sem conseguir se levantar mais. Os policiais o levaram até um local isolado, seus olhos se fecharam de forma que ele não sentiu a dor das balas a infiltrar sua pele. E seus olhos cerrados jamais se abriram e ele já não sentia medo. Há um momento em que a dor parece insignificante, há um momento em que morrer é sublime e já não é possível sentir, pois a sensibilidade resultou inútil e o homem espezinhado encontra na morte seu prêmio final. Foi assim que o operário encontrou ao fim sua condecoração. A derradeira respiração e o descanso almejado. Do outro lado do país, crianças de olhos marejados e cabelos despenteados ainda aguardavam o pai na porta de casa a todo fim de dia.
sábado, 6 de outubro de 2012
Felicidade barata
E a felicidade, tão simples quanto a vida, se construía ali, diante de mim. O ônibus correndo pelas ruas vazias, os espaços ficando para trás e as freadas bruscas interrompendo a sensação de simples liberdade. Sim, a felicidade se construía ali, um banho de terra precedido de um imergir numa piscina fria, milhares de flashs e fotos inúteis, sorrisos ao acaso e a frivolidade do tempo, um perder de uma pasta seguido de seu encontrar, a curiosidade de saber e imaginar o que sequer existe. Era a felicidade barata, acompanhada daquela sensação monótona do palpitar do coração, era a vida que brotava de futilidades fugazes e me fazia sorrir.
domingo, 9 de setembro de 2012
Face perdida
Comecei a pedalar. O suor escorria por minha testa. Minha
respiração tornava-se intensa. Minha freqüência cardíaca aumentava. Eu não
sabia para onde ia. Eu apenas movimentava os pedais daquela bicicleta antiga,
fazendo com que ela me levasse a lugar nenhum, me fazendo percorrer avenidas
vazias, encontrando por todas as partes homens sem face, gente sem rosto.
Era apenas mais um daqueles dias vazios. Dias nos quais o ar
se empurrava forçosamente por minhas vias respiratórias me fazendo ruminar as
horas, os meses, os anos e enfim a vida. Enquanto minhas pernas moviam aqueles
pedais entendi que vivera uma vida vazia, repleta de dias vazios. Aquele dia,
no entanto, era diferente. Estava carregado de um vazio reflexivo, de uma nostalgia
obsoleta que me enlouquecia. Em minha casa, sentada defronte a um computador,
escrevendo um artigo científico, senti minha mente em súbitos lampejos se
desviar e meu subconsciente trouxe a tona aquela pergunta que eu há anos vinha
fazendo. Havia amado? Sim, será que eu amara? Meus cabelos agora brancos,
minhas mãos já enrugadas e a solidão invadindo meu ser... Onde estaria o amor?
Aliás, o que era o amor? Ouvi por todas as partes propostas de amores
românticos e amantes semotos. No entanto ali estava eu agora, meus amantes se
foram com suas propostas. E o que restara de tudo? Nada. Cartas veladas a um
tempo passado. Felicidade esquecida ou jamais lembrada. E o amor soando como
uma vaga lembrança de algo ingênuo, restrito ao vazio. Nostalgia reflexiva,
vazia e obsoleta que me aproximava do desvario. Saí. Buscando minhas respostas,
fugi. E agora me encontrava ali, sem medo, percorrendo avenidas vazias e vendo naquela gente que pra mim se apresentavam sem face, extensões de meus vácuos internos aliados aos bastidores de minha face convicta. Por todas as partes, gente sem rosto. Gente que vivia alienada. E a vida se esvaindo. Porque a vida, essa vida mal vivida, era vida periclitante. Vida na qual os riscos se mesclavam a nossa insensatez, nos fazendo viver o imprevisível, ainda que buscando prevê-lo. Vida de ilusões, me fazendo amar e deixar de amar, no entanto, sem nunca sentir o amor. Era a vida fugaz de gente sem rosto. Era a vida ruminada por pessoas sem face.
Continuei pedalando, e o amor insistindo, gritando e pedindo respostas. Continuei pedalando enquanto sentia em minha boca o sabor adstringente da vida. Continuei pedalando enquanto deixava para trás, estertores longínquos de recordações nostálgicas de lacunas existenciais. Continuei pedalando... Pedalei até chegar ao fim daquela avenida tão curta. E ao chegar ao seu final, entendi que talvez eu amasse. Amasse a vida tal qual se apresentara diante de mim, com suas intempéries e decorrentes vazios. Eu a amara por ter sido esta a vida escolhida por mim. E me refugiava nela para não encontrar a mulher que havia me tornado. Me escondia debaixo de sua alienação, buscando não encontrar do outro lado da vida, o vazio que ela me deixara. Eu a amava porque ela me ocultava sob suas asas protetoras e ia aos poucos apagando minha história, levando consigo minha mediocridade. Sim, eu havia amado, havia amado a vida, havia amado o vazio.
Desci da bicicleta e enxuguei o suor. As mesmas mãos que haviam pilotado o guidão daquela bicicleta buscaram agora minha face. E qual não foi a surpresa ao perceber que meu tato encontrou uma face lisa, livre de curvas, livre de irregularidades. Percebi que eu há muito perdera também meu rosto. Minhas mãos sentem o vazio, meu ser sente seus vácuos. Vida ruminada, vida vazia, vida periclitante, vida fugaz de gente sem face, vida triste de uma mulher sem rosto.
domingo, 12 de agosto de 2012
Pai,
Hoje de manhã você veio até mim de um modo costumeiro e me desejou bom dia com um abraço. Enquanto me escondi no seu abraço e reclinei minha cabeça em seus ombros, estive ausente de mim e lhe enxerguei em um passado distante que me revela a importância que você tem na minha vida, na minha história..
Lhe vi pai, me segurando nos braços há anos atrás. Eu estava doente e sentia dor... Chorava ingenuamente sem entender a congruência daquele mundo que se construía diante de mim. Tive medo. Foi então que lhe vi chorar. Você chorava por mim... Não sei quantas vezes você chorou pai, mas sei daquele dia que em sua espontaneidade marcou toda a minha existência. E suas lágrimas mesclaram-se às minhas, e minha dor mesclou-se à sua.
Súbitos lampejos retornaram a minha mente nostálgica e de repente me lembrei também da música que você compôs quando eu nasci. Das notas que soavam melodicamente e das palavras que as acompanhavam dizendo: "Seu nome é Amanda, seu nome fala de amor..."
Outro dia pai, me senti angustiada. Outro dia, os caminhos da vida me colocaram defronte a uma situação com a qual não sabia lidar. Subitamente, senti uma força sobrenatural que me deu ânimo e sabedoria para continuar. Me lembrei então de suas orações. Durante todos esses anos, dia após dia, sem falhar nenhum dia sequer. Talvez seja por isso pai, que a força me vêm de onde eu menos imagino. Talvez seja por isso, que Deus vêm ao meu encontro quando já não vejo saída.
Fui crescendo pai, as coisas mudaram... Mas você, de maneira animosamente irremissível, continuou presente em minha vida. Sua voz continuou ecoando, suas lágrimas permaneceram lavando a minha alma e suas orações permaneceram acompanhando-me em meio a caminhos tortuosos.
Me desfiz do seu abraço e olhei para você naquele momento. Enxerguei seus olhos que de uma profundidade imensa, me pareciam distantes e carregados de mistério. Confesso que não os entendi pai. Confesso que não compreendo as dores e angústias que se escondem detrás daquele olhar. Mas seus hábitos reclusos e sua maneira calada mesclada àquele olhar profundo me ensinam sem palavras. Seu modo de falar e de emudecer revelam-me sabedoria. A sua história de superação me traz força. E quando penso em grandes homens de grandes épocas, confesso que não encontro nenhum como você. Muitos me provocam admiração, mas nunca nenhum deles esteve tão perto de mim quanto você está. Nunca nenhum deles me ensinou a amar como você me ensinou, nunca nenhum deles construiu minha história como você construiu. E é por isso pai, que a despeito de meus desentendimentos, minha visão infantil permanece inalterada, você ainda é o mais sublime dos homens, o mais admirável dentre eles.
Olhei novamente aqueles olhos profundos de um mistério absoluto que já não me eram assim tão distantes. Ouvi ecoar ao longe as notas de sua canção que me diziam " seu nome fala de amor..." Entendi ali pai, que meu nome não falava de amores românticos tampouco de amantes semotos. Meu nome falava do seu amor. Aquele mesmo amor que segurou-me em seus braços e derramou lágrimas sobre a face de uma criança assustada. O mesmo amor que ora por mim todos os dias, dia após dia sem falhar nenhum dia sequer. E talvez seja por isso pai, que choro sabendo que não estou sozinha. E talvez seja por isso que minhas lágrimas não soam vazias. Talvez seja por isso pai, que quando meu nome soa indiferente em bocas estranhas e alheias a mim, consigo sentir amor. O seu amor. E todas as vezes quando me sinto angustiada em meio aos ermos existenciais e periclitâncias inerentes a um viver inóspito em uma terra alheia a mim, ouço sua voz que ecoa em meio aos vácuos do tempo e penetra profundamente nas lacunas de uma alma incompleta me fazendo ouvir " seu nome fala de amor". Me lembro então não do meu nome, mas do seu amor... Fico em paz, sei que não estou só. E se um dia a vida me levar pra longe de você, vou sentir o seu abraço e me molhar com aquelas lágrimas que ficaram guardadas em mim e me fortalecer com suas orações e ouvir a sua voz cantar, sabendo que a distância debalde tentará me separar de você. Lhe levo dentro de mim pai, o pilar que sustenta minha história é você.
Lhe vi pai, me segurando nos braços há anos atrás. Eu estava doente e sentia dor... Chorava ingenuamente sem entender a congruência daquele mundo que se construía diante de mim. Tive medo. Foi então que lhe vi chorar. Você chorava por mim... Não sei quantas vezes você chorou pai, mas sei daquele dia que em sua espontaneidade marcou toda a minha existência. E suas lágrimas mesclaram-se às minhas, e minha dor mesclou-se à sua.
Súbitos lampejos retornaram a minha mente nostálgica e de repente me lembrei também da música que você compôs quando eu nasci. Das notas que soavam melodicamente e das palavras que as acompanhavam dizendo: "Seu nome é Amanda, seu nome fala de amor..."
Outro dia pai, me senti angustiada. Outro dia, os caminhos da vida me colocaram defronte a uma situação com a qual não sabia lidar. Subitamente, senti uma força sobrenatural que me deu ânimo e sabedoria para continuar. Me lembrei então de suas orações. Durante todos esses anos, dia após dia, sem falhar nenhum dia sequer. Talvez seja por isso pai, que a força me vêm de onde eu menos imagino. Talvez seja por isso, que Deus vêm ao meu encontro quando já não vejo saída.
Fui crescendo pai, as coisas mudaram... Mas você, de maneira animosamente irremissível, continuou presente em minha vida. Sua voz continuou ecoando, suas lágrimas permaneceram lavando a minha alma e suas orações permaneceram acompanhando-me em meio a caminhos tortuosos.
Me desfiz do seu abraço e olhei para você naquele momento. Enxerguei seus olhos que de uma profundidade imensa, me pareciam distantes e carregados de mistério. Confesso que não os entendi pai. Confesso que não compreendo as dores e angústias que se escondem detrás daquele olhar. Mas seus hábitos reclusos e sua maneira calada mesclada àquele olhar profundo me ensinam sem palavras. Seu modo de falar e de emudecer revelam-me sabedoria. A sua história de superação me traz força. E quando penso em grandes homens de grandes épocas, confesso que não encontro nenhum como você. Muitos me provocam admiração, mas nunca nenhum deles esteve tão perto de mim quanto você está. Nunca nenhum deles me ensinou a amar como você me ensinou, nunca nenhum deles construiu minha história como você construiu. E é por isso pai, que a despeito de meus desentendimentos, minha visão infantil permanece inalterada, você ainda é o mais sublime dos homens, o mais admirável dentre eles.
Olhei novamente aqueles olhos profundos de um mistério absoluto que já não me eram assim tão distantes. Ouvi ecoar ao longe as notas de sua canção que me diziam " seu nome fala de amor..." Entendi ali pai, que meu nome não falava de amores românticos tampouco de amantes semotos. Meu nome falava do seu amor. Aquele mesmo amor que segurou-me em seus braços e derramou lágrimas sobre a face de uma criança assustada. O mesmo amor que ora por mim todos os dias, dia após dia sem falhar nenhum dia sequer. E talvez seja por isso pai, que choro sabendo que não estou sozinha. E talvez seja por isso que minhas lágrimas não soam vazias. Talvez seja por isso pai, que quando meu nome soa indiferente em bocas estranhas e alheias a mim, consigo sentir amor. O seu amor. E todas as vezes quando me sinto angustiada em meio aos ermos existenciais e periclitâncias inerentes a um viver inóspito em uma terra alheia a mim, ouço sua voz que ecoa em meio aos vácuos do tempo e penetra profundamente nas lacunas de uma alma incompleta me fazendo ouvir " seu nome fala de amor". Me lembro então não do meu nome, mas do seu amor... Fico em paz, sei que não estou só. E se um dia a vida me levar pra longe de você, vou sentir o seu abraço e me molhar com aquelas lágrimas que ficaram guardadas em mim e me fortalecer com suas orações e ouvir a sua voz cantar, sabendo que a distância debalde tentará me separar de você. Lhe levo dentro de mim pai, o pilar que sustenta minha história é você.
terça-feira, 24 de julho de 2012
Desabafo do cepticismo sentimental
Não me conte histórias de amor, já não quero ouvi-las. Não me peça para amar, já não atendo a pedidos vagos. Não me diga palavras bonitas, elas já não me convencem. Não insista para que eu fique, as insistências me perturbam.
Não ouvirei outra história senão a da vida. Não amarei o que me for pedido. Não acreditarei em palavras que não forem as que cantam a realidade ainda que feia, nua e crua. Não ficarei, não reprimirei meu espírito itinerante.
A realidade é tão vasta, não nos afastemos. A razão é tão forte, não a deixemos. Venha até mim, sente-se ao meu lado e me conte a verdade, me diga sem engambelanças o que quer. Sou o hoje, apenas o hoje. Vivo o que se prova e nada além disso. Não me convença, me mostre. Sou céptica, sentimentalmente céptica, vivo o paradoxo realista. Não me venha com histórias de amor.
Não ouvirei outra história senão a da vida. Não amarei o que me for pedido. Não acreditarei em palavras que não forem as que cantam a realidade ainda que feia, nua e crua. Não ficarei, não reprimirei meu espírito itinerante.
A realidade é tão vasta, não nos afastemos. A razão é tão forte, não a deixemos. Venha até mim, sente-se ao meu lado e me conte a verdade, me diga sem engambelanças o que quer. Sou o hoje, apenas o hoje. Vivo o que se prova e nada além disso. Não me convença, me mostre. Sou céptica, sentimentalmente céptica, vivo o paradoxo realista. Não me venha com histórias de amor.
quarta-feira, 18 de julho de 2012
Dialética da vida
O vento gelado matratando meu rosto. Um calor interno explodindo meu ser. A visão de um monte defronte a um vale. A saudade vazia. O medo covarde.
Paradoxos e antíteses brigando dentro de mim e constituindo a paisagem sinestésica encontrada por meus olhos vazios e associada por meus neurônios ativos. Uma tentativa gritante de reconstruir um vazio e nesse vazio a completude do que se perdeu no ar... Nas pulsalinimidades ocultas encontro o que fui. Talvez por jamais ter sido, talvez por jamais ter perdido. E por fim, em meio a encontros e desencontros entendo a verdade gritante e conclusiva de que a vida talvez seja o próprio paradoxo mascarado pela antítese do viver. Meus olhos enxergam a vida, meu ser sente o vazio. Estou completa.
Paradoxos e antíteses brigando dentro de mim e constituindo a paisagem sinestésica encontrada por meus olhos vazios e associada por meus neurônios ativos. Uma tentativa gritante de reconstruir um vazio e nesse vazio a completude do que se perdeu no ar... Nas pulsalinimidades ocultas encontro o que fui. Talvez por jamais ter sido, talvez por jamais ter perdido. E por fim, em meio a encontros e desencontros entendo a verdade gritante e conclusiva de que a vida talvez seja o próprio paradoxo mascarado pela antítese do viver. Meus olhos enxergam a vida, meu ser sente o vazio. Estou completa.
sexta-feira, 15 de junho de 2012
O ser maria
Olhos vivos, cabelos longos, boca calada, mulher convicta. Quem de longe a contemplava não sabia o que se passava nas proximidades de seu eu. Em sua face alheia, as máscaras criadas ocultavam seus medos. Dentro de si, uma dor latejante e temores cortantes. Ao longo do tempo, seu exterior construiu esteriótipos, seguiu padrões. Mas seu interior despadronizado insistia em uma dor causticante, causada pelos aguilhões da pulsilanimidade os quais provocavam sem cessar um arco reflexo espontâneo, que a fazia involuntariamente esconder-se. Esconder-se de si, do mundo e de todos sob as sombras de um personagem caricaturado de sua existência: A vida.
Seu nome? Maria. Uma Maria dentre 13 milhões de Marias. Nome fruto da incoerência de normas sociais exigentes de substantivos próprios como modo de classificação que a remetiam por fim ao comum. Nome comum fazendo jus à uma existência que não ia além disso. Maria. Que Maria? Maria das Dores, Maria das Máscaras, Maria dos Medos, Maria Vazia.
Maria das Dores despertava cedo diariamente e, sendo parte do capitalismo por Marx denunciado, trabalhava como boa cidadã em prol da sobrevivência. Vendia sua força de trabalho. Era parte da classe proletária detentora do poder revolucionário, tão poderosa quanto muda. Se era mãe, amava. Se era casada, tinha ora com quem contar, ora de quem se esconder. Se era divorciada, tinha tempo passado para se lamentar. Se era sozinha, e talvez fosse, tinha porquê se angustiar. Se era humana, chorava, se era Maria - e realmente era- sofria como Maria das Máscaras nos bastidores de uma face convicta que a tornava mulher tão madura quanto insegura. Andava todos os dias dentre multidões e em meio a amores desfeitos, a solidão dilacerava sua existência e imputava temores. A periclitância de uma vida medíocre mesclava-se ao cenário de um viver inóspito em terra alheia. A solitude lhe era por causa e consequência. Os padrões sociais lhe imputaram um modelo de beleza a ser seguido e lhe fizeram crer que seriam por cura da solidão. Maria embora tentasse corresponder aos padrões, jamais se viu livre do viver só. Talvez porque Maria seja defeito genético e seu genótipo carregue em seus alelos genes dominantes da solidão, fazendo com que em seu sangue roxo corra o veneno da solitude. Talvez porque seu nome seja uma sentença a um exílio perpétuo de uma vida eternamente distante. E sua sentença injusta a torne por fim Maria dos Medos, escondendo suas lutas sob as sombras da vida. Criando máscaras que encubram seu eu. Todavia permitindo que nas pulsilanimidades ocultas, corram o pûs de feridas ainda não cicatrizadas, medos concretos e abstratos de um existir tão racional quanto paradoxal. Paradoxo cortante que a torna Maria Vazia, transbordante de lutas e vazia de sentido. Transbordante de lágrimas e vazia de consolo. Transbordante de dor e vazia de lenitivo.
Maria, em sua última e primordial análise era promíscua. O ser constituído de uma mistura confusa e desordenada de tantas em uma apenas, lhe tornava refém da promiscuidade. Era Maria, era mulher. Olhos vivos, cabelos longos, boca calada, mulher convicta. Quem de longe a contemplava não sabia o que se passava nas proximidades de um ser maria.
*Promiscuidade: Heterogeneidade / mistura confusa e desordenada de seres no mesmo ambiente.
Seu nome? Maria. Uma Maria dentre 13 milhões de Marias. Nome fruto da incoerência de normas sociais exigentes de substantivos próprios como modo de classificação que a remetiam por fim ao comum. Nome comum fazendo jus à uma existência que não ia além disso. Maria. Que Maria? Maria das Dores, Maria das Máscaras, Maria dos Medos, Maria Vazia.
Maria das Dores despertava cedo diariamente e, sendo parte do capitalismo por Marx denunciado, trabalhava como boa cidadã em prol da sobrevivência. Vendia sua força de trabalho. Era parte da classe proletária detentora do poder revolucionário, tão poderosa quanto muda. Se era mãe, amava. Se era casada, tinha ora com quem contar, ora de quem se esconder. Se era divorciada, tinha tempo passado para se lamentar. Se era sozinha, e talvez fosse, tinha porquê se angustiar. Se era humana, chorava, se era Maria - e realmente era- sofria como Maria das Máscaras nos bastidores de uma face convicta que a tornava mulher tão madura quanto insegura. Andava todos os dias dentre multidões e em meio a amores desfeitos, a solidão dilacerava sua existência e imputava temores. A periclitância de uma vida medíocre mesclava-se ao cenário de um viver inóspito em terra alheia. A solitude lhe era por causa e consequência. Os padrões sociais lhe imputaram um modelo de beleza a ser seguido e lhe fizeram crer que seriam por cura da solidão. Maria embora tentasse corresponder aos padrões, jamais se viu livre do viver só. Talvez porque Maria seja defeito genético e seu genótipo carregue em seus alelos genes dominantes da solidão, fazendo com que em seu sangue roxo corra o veneno da solitude. Talvez porque seu nome seja uma sentença a um exílio perpétuo de uma vida eternamente distante. E sua sentença injusta a torne por fim Maria dos Medos, escondendo suas lutas sob as sombras da vida. Criando máscaras que encubram seu eu. Todavia permitindo que nas pulsilanimidades ocultas, corram o pûs de feridas ainda não cicatrizadas, medos concretos e abstratos de um existir tão racional quanto paradoxal. Paradoxo cortante que a torna Maria Vazia, transbordante de lutas e vazia de sentido. Transbordante de lágrimas e vazia de consolo. Transbordante de dor e vazia de lenitivo.
Maria, em sua última e primordial análise era promíscua. O ser constituído de uma mistura confusa e desordenada de tantas em uma apenas, lhe tornava refém da promiscuidade. Era Maria, era mulher. Olhos vivos, cabelos longos, boca calada, mulher convicta. Quem de longe a contemplava não sabia o que se passava nas proximidades de um ser maria.
*Promiscuidade: Heterogeneidade / mistura confusa e desordenada de seres no mesmo ambiente.
sábado, 2 de junho de 2012
Lágrimas do vazio indigno
Paro agora e permito que minhas lágrimas reguem o chão. O vazio. Solo plano e vazio. Em minhas lidas de rotinas causticantes a saudade e a decepção me remetem a uma incompletude. E meus olhos buscam algo completo a que possa apegar-me, todavia o incompleto salta de meu vazio interior e torna as imagens ao meu redor tão vazias quanto as lacunas de meu eu.
Nas entrelinhas do vazio um sentimento escamoteado e as lágrimas que rolam por minha face provam que o objeto de meu choro não é dele digno. Uma verdade irrefutável que tão racional me remete ao engambelante. Lágrimas para serem lágrimas necessitam de indignidade. Choro pelo indigno que um dia me pareceu digno. Pelo espaço outrora ocupado e por aquilo que foi roubado de mim. Choro pelo vazio. Solo plano e vazio.
Nas entrelinhas do vazio um sentimento escamoteado e as lágrimas que rolam por minha face provam que o objeto de meu choro não é dele digno. Uma verdade irrefutável que tão racional me remete ao engambelante. Lágrimas para serem lágrimas necessitam de indignidade. Choro pelo indigno que um dia me pareceu digno. Pelo espaço outrora ocupado e por aquilo que foi roubado de mim. Choro pelo vazio. Solo plano e vazio.
terça-feira, 29 de maio de 2012
Onde está a sabedoria que perdemos com o conhecimento?
Os tempos modernos que nos foram
reservados levam-nos a crer que alcançamos, enfim, alto nível de conhecimento. Uma
tecnologia avançada e séculos de estudos históricos nos movem a olhar o passado
com ar de superioridade, crendo termos conquistado tempos melhores. Todavia se
acreditamos assim, ignoramos nossas
falhas e ludibriamos nossa razão. E se nos julgamos sabedores de toda a ciência
e portadores de toda a informação é
porque talvez tenhamos perdido a sabedoria.
Em nossas críticas sociais, pautadas no que
temos estudado, voltamo-nos até as civilizações da idade média e nos deparamos
com um estado teocrático, no qual se oprimia em nome da fé e se justificava uma
sociedade estamental, injustamente repartida, em Deus. Rebelamo-nos contra esse
modelo e em nossa rebeldia colocamos
toda a culpa de uma sociedade injusta na fé. Generalizamos os fatos e classificamos
a crença religiosa como uma manifestação ingênua praticada por seres ignorantes
e incentivada pelo estado como forma de
manipular um povo oprimido. Com base nisso a excluímos de nossas vidas, crendo estarmos assim nos
píncaros da razão. Esquecemo-nos, portanto, que esse elemento de nós arrancado
é a base capaz de nos sustentar em momentos de imprevisibilidade e que sem ele pouco nos resta para viver em meio às
periclitâncias inerentes a própria existência.
Em meio às lutas e às
dificuldades enfrentadas não nos sobra nada a que nos apegarmos. Em nossa busca
por uma constituição da personalidade, foi-nos tirada a base. Em que basearmos
nossas condutas se já não temos pilares sólidos de sustentação? No que crer
quando a efemeridade do tempo nos atinge e nos deparamos com o fim? Onde está a
esperança que nos imprime a resiliência? Onde a fé que nos motiva a vida?
Resta-nos um vazio existencial tão extenso quanto aquele espaço que em nós deveria ser
ocupado por Deus. Estamos vazios, perdemos o rumo. Nosso suposto conhecimento
deixou-nos em um estado de completa
penumbra.
A pergunta que dia-a-dia insiste
em ressoar nas entrelinhas de nossas lacunas é “onde está a sabedoria que
perdemos com o conhecimento?” Em nosso afã pelo saber científico ignoramos
aquilo que nos é essencialmente necessário. Generalizamos em demasia. Assumimos
conclusões precipitadas e agimos com
base nelas. O desespero e a angústia hoje nos servem para provar que a
sabedoria há muito tem andado distante. Tornamo-nos escravos de uma razão
incoerente.
O que falta enfim, senão o apelo
à sabedoria? O que nos resta, senão o grito altissonante e forte que nos
desperta para a necessidade de mudanças em nossa maneira de enxergar a fé? O que nos resta a não ser a conclusão
translúcida de que é preciso elevar Deus como a base de nossa conduta o
introduzindo a aspectos práticos de nosso viver diário? Só assim enfrentaremos
os desafios aos quais estamos circunflentes com a força que vem do que nos é interno, com
a força que provém da fé em Deus. Deus hoje nos é necessário.
Confissões ao senhor de uma senhora viúva
Senhor,
Todos os dias peço à vida insistentemente que lhe traga de
volta até mim. Acordo pela manhã com o sol entrando pela janela. Levanto sentindo-me
culpada por não ter despertado mais cedo para lhe preparar o café. É ai que
lembro que já não tenho você. Procuro dormir outra vez, não consigo. Fica um
vazio. Não o preencho.
E durante o dia, em um ato de pura ironia, a mesma vida que
lhe levou de mim, me lembra de você a todo instante. Os porta-retratos carregando
nossas fotos, aquela sua blusa velha que guardei, suas anotações nos meus
livros, o ursinho de pelúcia que você me deu pra que eu me lembrasse de você em
sua ausência... Nada mudou senhor, exceto a sua falta. E até o seu cachorro,
que eu odiava, permanece comigo. Ele vem me saudar todas as manhãs e eu
pergunto a ele se ele também sente a mesma falta que eu sinto de você.
As vezes senhor, eu paro pra olhar aquelas fotos nossas nos
porta-retratos. Vejo em nossas faces uma alegria que ficou velada em um tempo
passado. Seus olhos sorrindo daquele jeito típico seu, e nossos abraços
preenchendo-me as lacunas da alma... Ah senhor, por que você está assim tão
longe? Por que já não me fala?
Ontem lanchei naquela lanchonete que você gostava e tocou aquela música que prometi que cantaria
um dia pra você. Por um instante achei que lhe tinha por perto e quis cantar
para que você ouvisse... Até que me dei conta senhor, de que você não me ouvia.
Voltei pra casa e foi dando oito horas e fiquei esperando
você chegar, abrir aquela porta dizendo oi, e se sentar ao meu lado pra que eu
lhe perguntasse como foi o seu dia. Mas você não chegou... Lembro-me então que há um mês você se foi pra
sempre de mim.
Hoje senhor, era seu aniversário... E eu morro de vontade de
escrever pra você uma cartinha como
aquela que você escreveu pra mim de presente de natal, desejando feliz
aniversário, dizendo que o maior presente sou eu quem ganho em ter você na
minha vida, e pedindo que você por favor nunca vá embora... Mas senhor, você
está em algum lugar longe de mim e você foi embora tão rápido e tão
decididamente que eu não tive tempo nem coragem de lhe pedir pra que ficasse.
Vou pra cama me deitar sozinha, há um mês não ouço seu boa
noite costumeiro. Visto aquela sua blusa velha e abraço aquele ursinho de
pelúcia que você me deu pra que eu nunca me esquecesse de você... Canto fraquinho a música prometida como que
esperando outra vez que você possa me ouvir. Durmo cantando, tentando
loucamente esquecer a sua ausência, mas se a esqueço enquanto durmo, meus
sonhos insistem em recordá-la. Sonho com você. E acordo de repente lembrando
que um dia lhe contei que sonhava sempre contigo e você me disse que enquanto estivesse
nos meus sonhos estaria tudo bem. Mas não está tudo bem senhor. Acaso você me
enganou? Abraço forte meu ursinho e
choro baixinho de saudades.
Sinto sua falta todos os dias. Enquanto você ficou guardado
em meu passado, eu preciso continuar vivendo. Mas se somos parte de uma mesma vida,
estamos inevitavelmente ligados. Permanecerei todos os dias esperando você
chegar e abrir a porta e me contar sobre o seu dia, dizendo que eu sou a única
a entender suas lutas. Até que de repente senhor, meus olhos se fechem como os
seus e eu morra com a esperança de que em algum momento, quando o pra sempre
houver terminado, o passado se una ao presente e você abra aquela porta e eu
possa novamente me encontrar com você.
Sua senhora.sábado, 12 de maio de 2012
Mãe,
Ontem quando você foi me dar um abraço de boa noite, estive ausente de mim. Meu ser se voltou à tudo que me revela a sua importância na minha vida e quis escrever em um dia que talvez seja propício para minhas reflexões sobre você.
Lhe vi ali mãe, a mesma a me carregar no colo há anos atrás, a mesma a orar por mim diariamente e a mesma que hoje é a minha força. Todos os dias mãe, durante todos esses anos te ouço dentro de mim. A sua voz me grita mesmo quando a sua ausência se instaura fisicamente. As suas orações me acompanham quando me falta a coragem e a sua fé me levanta quando caio.
Quero lhe levar sempre comigo. Quero ter sempre o seu ombro pra chorar, e o seu abraço para me consolar. Quero sempre ter a certeza de que suas orações me acompanham. Quero sempre ouvir a sua voz ressoando em meio aos meus fracassos e me inspirando um recomeço. Quero sempre ouvir você falando sobre resiliência, com essa peculiaridade em seu modo de falar, capaz de unir o racional ao subjetivo e me trazer de volta.
Minha ausência me remete agora mãe, há anos atrás. Me vejo com sete anos de idade quando morávamos em Curitiba. Era um dia frio. Almoçávamos em um restaurante, eu estava sentada na sua frente. Me lembro que naquele dia tive uma de minhas primeiras experiências amargas em um mundo que apenas começava a se construir em mim. Lhe falei a respeito, lhe contei que não tinha amigos na escola, e que tinha ouvido minha coleguinha falar algo maldoso a meu respeito. Minhas lembranças guardaram intactas as impressões causadas. Não sei se chorei, me lembro apenas da vontade de chorar. E você, como ainda hoje faz, me acolheu nos seus braços e me ensinou a sentir. Um abraço que me acompanhará durante a vida toda. Um ensino que persiste em me falar ainda hoje. Uma voz que ressoa dentro de mim.
Me volto agora há alguns dias atrás. E sinto novamente a dor, causada por motivos diferentes, todavia a mesma dor sentida por aquela menina de sete anos de idade, naquele dia frio. E aquela vontade de chorar e aquele sentimento de vazio. E você agora ao meu lado me diz que eu devo chorar. E eu me permito chorar. Minhas lágrimas mãe, não rolam mais por uma face desfeita, rolam por uma face que se reconstrói com a dor que você me ensinou a sentir. E você me acolheu nos seus braços e minhas lágrimas molharam seus abraços. Os mesmos braços, os mesmos abraços, a mesma voz - a sua voz - ...
Hoje mãe, não me canso de dizer que lhe ouço todos os dias. E que ouço você cantar quando a dor instaurada insiste em me manter desperta, e quando meus sonhos me causam medo. O medo daquilo que me é escuro, o medo daquilo que não posso ver. E quando meus medos se exteriorizam em lágrimas, ouço a sua voz em momentos de insônia cantando "filhinha dorme e dorme em paz, Deus cuidará de nós. Não chores mais e dorme bem Deus velará por nós."
Mãe, me sinto segura. Sei que terei os seus braços, os seus abraços, a sua voz e a sua música no que sou. E se um dia a distância me afastar de você, quero que saiba que lhe levo dentro de mim. E se um dia a dor insistir em desatinar, só quero que entenda que independentemente de onde você estiver, sentirei o seu abraço e ouvirei a sua voz, e vou dormir em paz porque sei que Deus cuidará de nós.
Lhe vi ali mãe, a mesma a me carregar no colo há anos atrás, a mesma a orar por mim diariamente e a mesma que hoje é a minha força. Todos os dias mãe, durante todos esses anos te ouço dentro de mim. A sua voz me grita mesmo quando a sua ausência se instaura fisicamente. As suas orações me acompanham quando me falta a coragem e a sua fé me levanta quando caio.
Quero lhe levar sempre comigo. Quero ter sempre o seu ombro pra chorar, e o seu abraço para me consolar. Quero sempre ter a certeza de que suas orações me acompanham. Quero sempre ouvir a sua voz ressoando em meio aos meus fracassos e me inspirando um recomeço. Quero sempre ouvir você falando sobre resiliência, com essa peculiaridade em seu modo de falar, capaz de unir o racional ao subjetivo e me trazer de volta.
Minha ausência me remete agora mãe, há anos atrás. Me vejo com sete anos de idade quando morávamos em Curitiba. Era um dia frio. Almoçávamos em um restaurante, eu estava sentada na sua frente. Me lembro que naquele dia tive uma de minhas primeiras experiências amargas em um mundo que apenas começava a se construir em mim. Lhe falei a respeito, lhe contei que não tinha amigos na escola, e que tinha ouvido minha coleguinha falar algo maldoso a meu respeito. Minhas lembranças guardaram intactas as impressões causadas. Não sei se chorei, me lembro apenas da vontade de chorar. E você, como ainda hoje faz, me acolheu nos seus braços e me ensinou a sentir. Um abraço que me acompanhará durante a vida toda. Um ensino que persiste em me falar ainda hoje. Uma voz que ressoa dentro de mim.
Me volto agora há alguns dias atrás. E sinto novamente a dor, causada por motivos diferentes, todavia a mesma dor sentida por aquela menina de sete anos de idade, naquele dia frio. E aquela vontade de chorar e aquele sentimento de vazio. E você agora ao meu lado me diz que eu devo chorar. E eu me permito chorar. Minhas lágrimas mãe, não rolam mais por uma face desfeita, rolam por uma face que se reconstrói com a dor que você me ensinou a sentir. E você me acolheu nos seus braços e minhas lágrimas molharam seus abraços. Os mesmos braços, os mesmos abraços, a mesma voz - a sua voz - ...
Hoje mãe, não me canso de dizer que lhe ouço todos os dias. E que ouço você cantar quando a dor instaurada insiste em me manter desperta, e quando meus sonhos me causam medo. O medo daquilo que me é escuro, o medo daquilo que não posso ver. E quando meus medos se exteriorizam em lágrimas, ouço a sua voz em momentos de insônia cantando "filhinha dorme e dorme em paz, Deus cuidará de nós. Não chores mais e dorme bem Deus velará por nós."
Mãe, me sinto segura. Sei que terei os seus braços, os seus abraços, a sua voz e a sua música no que sou. E se um dia a distância me afastar de você, quero que saiba que lhe levo dentro de mim. E se um dia a dor insistir em desatinar, só quero que entenda que independentemente de onde você estiver, sentirei o seu abraço e ouvirei a sua voz, e vou dormir em paz porque sei que Deus cuidará de nós.
Dialética do vazio
Olho para o vazio e nele me encontro. A ausência se foi, me resta o vazio. A materialização dos sonhos incautos, o retorno à um passado incompleto e nele a completude do que se perdeu no ar.
As máscaras criadas para esconder uma dor recíproca. Uma auto-suficiência insegura, e os questionamentos profundos de uma vida superficial. Olhares alheios e distantes não tem conhecimento do que se passa nas proximidades de um ser vazio.
Uma dor que foge da razão. Um viver que busca oculta-la, mas a insistência dos sonhos persistem em lembrar-me de sua existência. E nas frestas instauradas nas entrelinhas de minha alma a prova de que não há como fugir daquilo que não foge de mim. Minhas utopias desfeitas, meus sonhos desmascarados, o vazio...
Encontro o vazio e nele me refaço. Aquela falta... E as projeções projetadas no que me era escamoteável retornam até mim. Me deparo com o que sou, extensões de minha alma desenganchadas se engancham em novamente nela. O peso esmagador de ganchos ora desenganchados, ora reenganchados.
Já não fujo da dor. Me reconstruo nela. E aquela ausência que me parecendo tão próxima me trouxe até o distante, e aquela distância que tão engambelante me remete ao vazio... E um vazio que tão grande me retorna à mim. A grandeza de uma alma vazia. A pedra que sou, a pedra que fui e a pedra que me tornei.
As máscaras criadas para esconder uma dor recíproca. Uma auto-suficiência insegura, e os questionamentos profundos de uma vida superficial. Olhares alheios e distantes não tem conhecimento do que se passa nas proximidades de um ser vazio.
Uma dor que foge da razão. Um viver que busca oculta-la, mas a insistência dos sonhos persistem em lembrar-me de sua existência. E nas frestas instauradas nas entrelinhas de minha alma a prova de que não há como fugir daquilo que não foge de mim. Minhas utopias desfeitas, meus sonhos desmascarados, o vazio...
Encontro o vazio e nele me refaço. Aquela falta... E as projeções projetadas no que me era escamoteável retornam até mim. Me deparo com o que sou, extensões de minha alma desenganchadas se engancham em novamente nela. O peso esmagador de ganchos ora desenganchados, ora reenganchados.
Já não fujo da dor. Me reconstruo nela. E aquela ausência que me parecendo tão próxima me trouxe até o distante, e aquela distância que tão engambelante me remete ao vazio... E um vazio que tão grande me retorna à mim. A grandeza de uma alma vazia. A pedra que sou, a pedra que fui e a pedra que me tornei.
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