terça-feira, 29 de maio de 2012

Confissões ao senhor de uma senhora viúva



Senhor,

Todos os dias peço à vida insistentemente que lhe traga de volta até mim. Acordo pela manhã com o sol entrando pela janela. Levanto sentindo-me culpada por não ter despertado mais cedo para lhe preparar o café. É ai que lembro que já não tenho você. Procuro dormir outra vez, não consigo. Fica um vazio. Não o preencho.
E durante o dia, em um ato de pura ironia, a mesma vida que lhe levou de mim, me lembra de você a todo instante. Os porta-retratos carregando nossas fotos, aquela sua blusa velha que guardei, suas anotações nos meus livros, o ursinho de pelúcia que você me deu pra que eu me lembrasse de você em sua ausência... Nada mudou senhor, exceto a sua falta. E até o seu cachorro, que eu odiava, permanece comigo. Ele vem me saudar todas as manhãs e eu pergunto a ele se ele também sente a mesma falta que eu sinto de você.
As vezes senhor, eu paro pra olhar aquelas fotos nossas nos porta-retratos. Vejo em nossas faces uma alegria que ficou velada em um tempo passado. Seus olhos sorrindo daquele jeito típico seu, e nossos abraços preenchendo-me as lacunas da alma... Ah senhor, por que você está assim tão longe? Por que já não me fala?
Ontem lanchei naquela lanchonete que você gostava  e tocou aquela música que prometi que cantaria um dia pra você. Por um instante achei que lhe tinha por perto e quis cantar para que você ouvisse... Até que me dei conta senhor, de que você não me ouvia.
Voltei pra casa e foi dando oito horas e fiquei esperando você chegar, abrir aquela porta dizendo oi, e se sentar ao meu lado pra que eu lhe perguntasse como foi o seu dia. Mas você não chegou...  Lembro-me então que há um mês você se foi pra sempre de mim.
Hoje senhor, era seu aniversário... E eu morro de vontade de escrever  pra você uma cartinha como aquela que você escreveu pra mim de presente de natal, desejando feliz aniversário, dizendo que o maior presente sou eu quem ganho em ter você na minha vida, e pedindo que você por favor nunca vá embora... Mas senhor, você está em algum lugar longe de mim e você foi embora tão rápido e tão decididamente que eu não tive tempo nem coragem de lhe pedir pra que ficasse.
Vou pra cama me deitar sozinha, há um mês não ouço seu boa noite costumeiro. Visto aquela sua blusa velha e abraço aquele ursinho de pelúcia que você me deu pra que eu nunca me esquecesse de você...  Canto fraquinho a música prometida como que esperando outra vez que você possa me ouvir. Durmo cantando, tentando loucamente esquecer a sua ausência, mas se a esqueço enquanto durmo, meus sonhos insistem em recordá-la. Sonho com você. E acordo de repente lembrando que um dia lhe contei que sonhava sempre contigo e você me disse que enquanto estivesse nos meus sonhos estaria tudo bem. Mas não está tudo bem senhor. Acaso você me enganou?  Abraço forte meu ursinho e choro baixinho de saudades.
Sinto sua falta todos os dias. Enquanto você ficou guardado em meu passado, eu preciso continuar vivendo. Mas se somos parte de uma mesma vida, estamos inevitavelmente ligados. Permanecerei todos os dias esperando você chegar e abrir a porta e me contar sobre o seu dia, dizendo que eu sou a única a entender suas lutas. Até que de repente senhor, meus olhos se fechem como os seus e eu morra com a esperança de que em algum momento, quando o pra sempre houver terminado, o passado se una ao presente e você abra aquela porta e eu possa novamente me encontrar com você.
                                                                                                                                        Sua senhora.