Hoje acordei sentindo-me viva. A cabeça pesada e dolorida. O corpo inflamado e quente. Os cabelos levemente enrolados e umedecidos. A face livre de adornos. A pele queimada. As unhas por fazer. A voz rouca. Tudo tão primitivo, tão natural. A vida selvagem do início das manhãs, a distância confortante dos estereótipos. A vida. Uma vida que se instaurava agora tão feminina. Sentia-me mulher. Longe dos salões de beleza, longe das lojas e dos shoppings, longe das roupas, dos saltos, das maquiagens. Sentia-me mulher no sentido mais humano dado ao substantivo. Tudo aquilo que independia do primeiro sutiã, da primeira menstruação, do primeiro salto, do primeiro namorado, da primeira maquiagem. Tudo aquilo que destoava do sentido sócio-cultural feminino e, no entanto evocava-me uma sensação naturalmente mulheresca, fazendo-me sentir bela. Beleza que saltava da vida. Beleza que independia de olhares alheios, de amantes semotos, de admiradores vazios. Beleza primitiva que evocava introspecção. E tudo colaborava. A dor e o incômodo tornavam-me sensível à vida. Lembravam-me que a sensibilidade era uma forma prática de distinguir vivos de mortos. E acaso não era isso também que me tornava humana?
Hoje acordei sentindo o constante despetalar da vida. Algo a ver com flores e natureza. As pétalas da flor fecundada que caem e tornam-me fruto. E depois o fruto apodrecendo e tornando-me apenas semente. Aquela casca dura que envolveria o endosperma e o embrião –elementos necessários a vida-, e tornaria -me impermeável as condições externas, fazendo-me resistente as variações do tempo e ao pisoteio dos homens e animais, sem contudo arrancar-me a essência e a sensibilidade. Pura adaptação ao meio. Pura vida. E não era essa a vida que me saltou aos olhos nessa manhã?
Hoje acordei sem medo. Sem medo de arrancarem-me os sonhos, sem medo de abismos, sem medo das frestas. Acordei viva. Acordei mulher. Alma essencialmente feminina, fortemente sensível. E sabia que pouco importaria o número de homens a pisotearem-me. Eu estava viva e a vida estaria protegida em mim.