Era um dia de importância para aquela fábrica, afinal eles
receberiam o grande líder Stalin, o pai do operários, o líder da nação, a
esperança da classe proletária. Os diretores da fábrica se preparavam,
espalharam avisos por todas as partes estabelecendo um horário fixo para que os
trabalhadores aguardassem o discurso de Stalin com antecedência, horas antes de
sua chegada. Finalmente chegara a hora. Pulsava no olhar daquele trabalhador a
ansiedade por conhecer seu líder, por ouvir suas palavras. E ele o viu. Sua
roupa bem alinhada, seu cabelo ordenadamente penteado, seu olhar resoluto. Tudo
inspirava confiança, tudo alimentava sua esperança. E ele observava Stalin
enquanto o diretor da fábrica abria o discurso e fazia as devidas homenagens ao
líder da nação. O discurso do diretor findou e o operário ouviu finalmente a
frase “Passo agora a palavra ao magnânimo, estupendo e majestoso líder de nosso
país”. Stalin ergue-se e surge um aplauso estrondoso, de uma unanimidade
singular. O trabalhador une-se aos aplausos em uma empolgação resoluta, um amor
sincero, uma admiração incauta. Passou-se o tempo, foram-se 15 minutos e os
aplausos não cessaram, 30 minutos e os aplausos não haviam diminuído sua
intensidade. O operário cansado olha ao seu redor sem entender o que ocorre.
Estava exausto, seus braços fraquejavam, estava envergonhado de si, como não
conseguia demonstrar uma hora de devoção ao pai de sua nação, ao homem que dera
sua vida ao povo? O rapaz começa a olhar ao seu redor com olhos mais ávidos,
procurando alguém que ousasse parar de aplaudir para que ele pudesse descansar
também. Todavia ninguém ousara, todos temiam a polícia que estava a espreita.
Passaram-se outros trinta minutos e inteirava uma hora e meia de aplausos
contínuos. Ele decidira-se. Sim, pararia de aplaudir, o cansaço o vencera. O
que demais poderia ocorrer? Afinal, Stalin o compreenderia, sendo o pai de sua
nação, o amante da classe operária jamais se desgostaria dele, entenderia seu
cansaço e o perdoaria. Ele parou e um após outro os aplausos foram cessando até
que todos silenciaram para ouvir o discurso de Stalin.
Findado o discurso o
operário se recolheu a seu posto de trabalho, ainda podia ouvir a voz de seu
comandante e emocionava-se com suas palavras de encorajamento. Enquanto remoia
as palavras de seu discurso, ouviu um chamado para que comparecesse na sala de
seu superior. Durante o percurso lembrava-se de Krutóvisch, um antigo camarada,
companheiro de serviço no mesmo setor e que um dia foi chamado a sala do
superior e nunca mais foi encontrado. O operário assustado ainda lembrava-se
dos olhos marejados de sua esposa ao procurar notícias do marido, ele ainda podia ver o olhar assustados
dos filhos daquela mulher que sabiam terem perdido um pai. Foi quando aquele
trabalhador temeroso se lembrou de seus filhos em casa e de sua mulher que o
aguardava. Por que o procuravam? Seria um engano?
Chegando a sala, encontrou não apenas seu superior, mas
alguns policiais armados que também o aguardavam. -Estamos aqui para assinar o
seu mandato de prisão- foi o que lhe disseram. Seu coração batia forte, o medo
saltava de seus olhos. –Por que querem me prender? O que eu fiz?- Perguntou o
operário. –Você foi o primeiro a parar de aplaudir Stalin!-. – Mas como fazemos
então? Como encerramos os aplausos?-. –Isso não importa-, disse o superior, -O
importante é que você não seja o primeiro. É dessa forma que funciona a seleção
natural de Darwin, é assim que reduzimos os fracos a seus fracassos-. Mal
terminada a frase, os policiais amarraram suas mãos e o levaram para longe
dali. O trabalhador amedrontado sem saber para onde ia não parava de pensar em
seus filhos, aquelas crianças de cabelos despenteados que o aguardariam na
porta ao fim do dia. Não houve tempo de despedida, não houve a oportunidade do
último adeus a sua mulher. Ele foi para longe, foi trabalhar em um campo de
concentração, foi sustentar a nação com seu trabalho e seus ombros suportaram o
peso de todos os seus conterrâneos. Onde estaria Stalin agora para o ajudar e o
acalentar em seus braços de pai? O líder que amava a nação agora o levava para
longe de sua família. Como seria possível? E agora ali estava ele a entrar no
campo de concentração. Rostos cadavéricos o saudavam e ele teve a impressão de
que não sairia dali jamais. Os dias se passaram e a cada dia o trabalho aumentava. Levaram-no para construir uma linha férrea e ele trabalhava todos os dias mais de 20 horas. Um dia o trabalhador patriota caiu exausto sem conseguir se levantar mais. Os policiais o levaram até um local isolado, seus olhos se fecharam de forma que ele não sentiu a dor das balas a infiltrar sua pele. E seus olhos cerrados jamais se abriram e ele já não sentia medo. Há um momento em que a dor parece insignificante, há um momento em que morrer é sublime e já não é possível sentir, pois a sensibilidade resultou inútil e o homem espezinhado encontra na morte seu prêmio final. Foi assim que o operário encontrou ao fim sua condecoração. A derradeira respiração e o descanso almejado. Do outro lado do país, crianças de olhos marejados e cabelos despenteados ainda aguardavam o pai na porta de casa a todo fim de dia.