quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Projeção

          O sol se punha diante de meus olhos cansados, a vida é cíclica Dé. O sol se pondo, o fim do dia, a vida que dispara sem o meu consentimento e eu mera espectadora de suas manifestações. O ritmo monótono do palpitar do coração e os sonhos que se desfazem pela monotonia. Ah Dé, tanto tempo passou. Todavia o meu retorno aos locais de nossos encontros provam-me que abandonei um mundo independente de mim, os locais intocáveis quase me fazem crer que o tempo é o mesmo. Exceto a pele que cai sobre minha face, exceto as expressões marcadas sob meus olhos, exceto as forças que se esvaem de mim, exceto os sonhos que há muito andam distante. Não fora isso e aquele restaurante antigo, aquela rodoviária suja e aquele parque farto de transeuntes me fariam crer que o tempo era o mesmo.
          Lembra Dé, dos planos que fazíamos? Dos sonhos que tínhamos? E você sempre a acalmar as tensões da minha alma. Ao seu lado não senti medo, meu próprio fôlego fortalecia-se ao ver-lhe. Seus olhos vagos me traduziam os desertos existenciais, sentia-me sugada por eles, entrando pelos  olhos e atingindo os píncaros de seu ser encontrei o ápice de minha viagem ao descansar no tom esverdeado do mar de suas íris.
          Eu lhe contei sobre meus medos e você me disse que estaria sempre ao meu lado. Disse-me que envelheceríamos juntos e sob as asas do tempo, enxergaríamos mutuamente a vida arrancando de nós partes de nossos corpos, sem contudo poder levar-nos a alma, que há muito nos pertencia em coletividade mútua. E eu cri Dé, cri em você porque me encontrei nos traços de sua face.
          Aceitei viver ao seu lado. Durante os dias em que compartilhamos nossas vidas, juro Dé, senti-me viva. Você foi arrancando-me os espaços entre os abraços, sugou a areia de meus desertos, povoou de ilusão os meus ermos.
          Eu sonhava com os desvarios de nossos planos, sonhava com o futuro, com a velhice... A vida fortalecia-se diante de mim. E o tempo passou. Até que um dia Dé, acordei e não o vi ao lado. A casa vazia, suas roupas sumidas. O procurei para lhe chamar a mesa para o desjejum. Não o encontrei. Percorri o vazio daqueles quartos, encontrando neles as lacunas deixadas em mim. Meus ermos se reconstituíam a cada grito por você. Não encontrei nada que me sugerisse a sua face, a menos aquele bilhete deixado sobre a mesa, dizendo que cansara de mim e fora aproveitar a vida.
          Vivo sozinha, Dé. Meus ermos tomaram forma e meus desertos abafam-me os sonhos. A solidão me é por memória constante do passado. Aprisionada na masmorra de suas formas, fujo para o pretérito e nele me refaço. Choro apenas durante a noite, a luz do sol evapora minhas lágrimas. O sol se põe diante de meus olhos cansados e liberta minhas lágrimas amargas. Fui aos locais de nossos primeiros encontros novamente, prendo-me ao passado. Quase me senti viva outra vez, não fora o espelho e o tato me denunciando as marcas do tempo. Envelheço solitária. Os sonhos da vida todos pelo chão, constroem uma estrada pela qual devo caminhar, pisoteando-lhes e maltratando-lhes, ando e respiro. E assim, aproveito também o que sobra-me dessa vida que você me ensinou  a viver.
          Ainda aguardo o seu regresso. Quem sabe em algum momento a vida lhe seja tão ingrata quanto foi comigo, e assim, você queira voltar para viver a vida que deixou em mim? Dé, estou no mesmo local, quase nunca saio de casa de forma que caso queira regressar, há de me encontrar esperando sentada naquele sofá   estampado escrevendo cartas para você.