Quem nunca cantou aquarela quando era criança? Ouvi alguém dizer. Sim, eu havia cantado, pensei. Algo sobre colorir, desenhar um sol amarelo... Mas.. Que mais? Eu não me lembrava. Sim, eu cantava e podia descrever algumas lembranças. Eu desenhando e cantando. Meus colegas de classe ensaiando a música pra fazer uma apresentação.. Mas eu não me lembrava. Era um túnel de lembranças vazias. Não me lembrava do ritmo da música, já não conhecia a letra da música. E talvez.. Talvez houvesse restado pouco dela em mim. Sim. Talvez não fosse só a letra que eu havia esquecido. Talvez a essência de colorir houvesse se perdido em algum lugar da minha vida. E me senti vazia. Me senti sem cor. Eu precisava. Precisava da aquarela. Precisava cantar que eu podia desenhar um sol amarelo que talvez iluminasse meus dias de chuva -e como chovia!-. Mas faltava. Onde encontrar a cor da vida? Aquela alegria de pintar folhas em branco? De imaginar sem a preocupação constante de um amanhã sem cor? A verdade é que eu não sabia. E todo o preto e branco da vida me deixava um gosto amargo de pôr do sol. Sim. Eram momentos nos quais o sol se punha e a vida ficava escura. Escura como se não houvesse cor. Como se eu houvesse perdido em algum lugar tão distante a infância. Como se tivesse perdido minha aquarela contente. E agora a vida sombria. Cheia de indagações quanto ao futuro. Cheia de medo de desamores. Fui me encolhendo. Encolhendo e me fechando. Dava medo. Dava medo viver. Como se a vida fosse um abismo sem cor. Mas sempre havia algo, natural ou sobrenatural, uma manifestação fora do comum que em meio a sensação de caos me trazia.. Esperança. Era isso. Esperança. Uma menina correndo me abraçou sinceramente. Uma criança sozinha me agradeceu um gesto simples. Uma menina pequena de covinhas miúdas me sorriu. E aos poucos fui lembrando. E elas colorindo a minha vida.. Se um pinguinho de tinta cai num pedacinho azul do papel num instante imagino uma linda gaivota a voar no céu.. Sim. Eu lembrava. Lembrava de lápis coloridos que pintavam papeis vazios. Lembrava da aquarela contente. E aos poucos -sim, bem aos poucos porque é aos poucos que se pinta uma vida-, eu fui sorrindo. E talvez, pensei. Colorir fosse bem mais simples do que diziam. Era preciso me abrir com a inocência de uma criança. Era preciso amar. Amar como quem se doa completamente a algo talvez pouco recíproco. Amar com amor que vinha de Deus. Era preciso sonhar, com bolinhos de chuva e amarelinha no quintal. Era preciso imaginar e fazer de um pingo azul uma gaivota. De um sorriso a alegria. De um abraço o conforto. De uma cor a aquarela. Pra que aos poucos, bem aos poucos aquele papel vazio se tornasse uma vida colorida. Como aquelas crianças um dia me lembraram e trouxeram do fundo, lá do fundo de um baú velho que era o passado, as cores de ser criança. E lembrei do que li outra vez. A Terra está cheia do amor de Deus. E estava. Deus me deu uma criança pra me lembrar que a vida era amável. E eu não estava sozinha. E ainda que os desamores me cercassem o consolo de saber que eu havia amado traria de volta a cor da vida. E tiraria o preto e branco e colocaria a cor da esperança. E eu cantava. Cantava que podia desenhar um sol amarelo e fazer de um pingo uma gaivota. Ah, a vida era feliz. Ah, a Terra estava cheia do amor de Deus. Havia a alegria da esperança. E ia voando, contornando uma imensa curva norte-sul...