domingo, 9 de setembro de 2012

Face perdida


          Comecei a pedalar. O suor escorria por minha testa. Minha respiração tornava-se intensa. Minha freqüência cardíaca aumentava. Eu não sabia para onde ia. Eu apenas movimentava os pedais daquela bicicleta antiga, fazendo com que ela me levasse a lugar nenhum, me fazendo percorrer avenidas vazias, encontrando por todas as partes homens sem face, gente sem rosto.
          Era apenas mais um daqueles dias vazios. Dias nos quais o ar se empurrava forçosamente por minhas vias respiratórias me fazendo ruminar as horas, os meses, os anos e enfim a vida. Enquanto minhas pernas moviam aqueles pedais entendi que vivera uma vida vazia, repleta de dias vazios. Aquele dia, no entanto, era diferente. Estava carregado de um vazio reflexivo, de uma nostalgia obsoleta que me enlouquecia. Em minha casa, sentada defronte a um computador, escrevendo um artigo científico, senti minha mente em súbitos lampejos se desviar e meu subconsciente trouxe a tona aquela pergunta que eu há anos vinha fazendo. Havia amado? Sim, será que eu amara? Meus cabelos agora brancos, minhas mãos já enrugadas e a solidão invadindo meu ser... Onde estaria o amor? Aliás, o que era o amor? Ouvi por todas as partes propostas de amores românticos e amantes semotos. No entanto ali estava eu agora, meus amantes se foram com suas propostas. E o que restara de tudo? Nada. Cartas veladas a um tempo passado. Felicidade esquecida ou jamais lembrada. E o amor soando como uma vaga lembrança de algo ingênuo, restrito ao vazio. Nostalgia reflexiva, vazia e obsoleta que me aproximava do desvario. Saí. Buscando minhas respostas, fugi.
       
          E agora me encontrava ali, sem medo, percorrendo avenidas vazias e vendo naquela gente que pra mim se apresentavam sem face, extensões de meus vácuos internos aliados aos bastidores de minha face convicta. Por todas as partes, gente sem rosto. Gente que vivia alienada. E a vida se esvaindo. Porque a vida, essa vida mal vivida, era vida periclitante. Vida na qual os riscos se mesclavam a nossa insensatez, nos fazendo viver o imprevisível, ainda que buscando prevê-lo. Vida de ilusões, me fazendo amar e deixar de amar, no entanto, sem nunca sentir o amor.  Era a vida fugaz de gente sem rosto. Era a vida ruminada por pessoas sem face. 
          
          Continuei pedalando, e o amor insistindo, gritando e pedindo respostas. Continuei pedalando enquanto sentia em minha boca o sabor adstringente da vida. Continuei pedalando enquanto deixava para trás, estertores longínquos de recordações nostálgicas de lacunas existenciais. Continuei pedalando... Pedalei até chegar ao fim daquela avenida tão curta. E ao chegar ao seu final, entendi que talvez eu amasse. Amasse a vida tal qual se apresentara diante de mim, com suas intempéries e decorrentes vazios. Eu a amara por ter sido esta a vida escolhida por mim. E me refugiava nela para não encontrar a mulher que havia me tornado. Me escondia debaixo de sua alienação, buscando não encontrar do outro lado da vida, o vazio que ela me deixara. Eu a amava porque ela me ocultava sob suas asas protetoras e ia aos poucos apagando minha história, levando consigo minha mediocridade. Sim, eu havia amado, havia amado a vida, havia amado o vazio.
         
          Desci da bicicleta e enxuguei o suor. As mesmas mãos que haviam pilotado o guidão daquela bicicleta buscaram agora minha face. E qual não foi a surpresa ao perceber que meu tato encontrou uma face lisa, livre de curvas, livre de irregularidades. Percebi que eu há muito perdera também meu rosto. Minhas mãos sentem o vazio, meu ser sente seus vácuos. Vida ruminada, vida vazia, vida periclitante, vida fugaz de gente sem face, vida triste de uma mulher sem rosto.