Olhos vivos, cabelos longos, boca calada, mulher convicta. Quem de longe a contemplava não sabia o que se passava nas proximidades de seu eu. Em sua face alheia, as máscaras criadas ocultavam seus medos. Dentro de si, uma dor latejante e temores cortantes. Ao longo do tempo, seu exterior construiu esteriótipos, seguiu padrões. Mas seu interior despadronizado insistia em uma dor causticante, causada pelos aguilhões da pulsilanimidade os quais provocavam sem cessar um arco reflexo espontâneo, que a fazia involuntariamente esconder-se. Esconder-se de si, do mundo e de todos sob as sombras de um personagem caricaturado de sua existência: A vida.
Seu nome? Maria. Uma Maria dentre 13 milhões de Marias. Nome fruto da incoerência de normas sociais exigentes de substantivos próprios como modo de classificação que a remetiam por fim ao comum. Nome comum fazendo jus à uma existência que não ia além disso. Maria. Que Maria? Maria das Dores, Maria das Máscaras, Maria dos Medos, Maria Vazia.
Maria das Dores despertava cedo diariamente e, sendo parte do capitalismo por Marx denunciado, trabalhava como boa cidadã em prol da sobrevivência. Vendia sua força de trabalho. Era parte da classe proletária detentora do poder revolucionário, tão poderosa quanto muda. Se era mãe, amava. Se era casada, tinha ora com quem contar, ora de quem se esconder. Se era divorciada, tinha tempo passado para se lamentar. Se era sozinha, e talvez fosse, tinha porquê se angustiar. Se era humana, chorava, se era Maria - e realmente era- sofria como Maria das Máscaras nos bastidores de uma face convicta que a tornava mulher tão madura quanto insegura. Andava todos os dias dentre multidões e em meio a amores desfeitos, a solidão dilacerava sua existência e imputava temores. A periclitância de uma vida medíocre mesclava-se ao cenário de um viver inóspito em terra alheia. A solitude lhe era por causa e consequência. Os padrões sociais lhe imputaram um modelo de beleza a ser seguido e lhe fizeram crer que seriam por cura da solidão. Maria embora tentasse corresponder aos padrões, jamais se viu livre do viver só. Talvez porque Maria seja defeito genético e seu genótipo carregue em seus alelos genes dominantes da solidão, fazendo com que em seu sangue roxo corra o veneno da solitude. Talvez porque seu nome seja uma sentença a um exílio perpétuo de uma vida eternamente distante. E sua sentença injusta a torne por fim Maria dos Medos, escondendo suas lutas sob as sombras da vida. Criando máscaras que encubram seu eu. Todavia permitindo que nas pulsilanimidades ocultas, corram o pûs de feridas ainda não cicatrizadas, medos concretos e abstratos de um existir tão racional quanto paradoxal. Paradoxo cortante que a torna Maria Vazia, transbordante de lutas e vazia de sentido. Transbordante de lágrimas e vazia de consolo. Transbordante de dor e vazia de lenitivo.
Maria, em sua última e primordial análise era promíscua. O ser constituído de uma mistura confusa e desordenada de tantas em uma apenas, lhe tornava refém da promiscuidade. Era Maria, era mulher. Olhos vivos, cabelos longos, boca calada, mulher convicta. Quem de longe a contemplava não sabia o que se passava nas proximidades de um ser maria.
*Promiscuidade: Heterogeneidade / mistura confusa e desordenada de seres no mesmo ambiente.
Seu nome? Maria. Uma Maria dentre 13 milhões de Marias. Nome fruto da incoerência de normas sociais exigentes de substantivos próprios como modo de classificação que a remetiam por fim ao comum. Nome comum fazendo jus à uma existência que não ia além disso. Maria. Que Maria? Maria das Dores, Maria das Máscaras, Maria dos Medos, Maria Vazia.
Maria das Dores despertava cedo diariamente e, sendo parte do capitalismo por Marx denunciado, trabalhava como boa cidadã em prol da sobrevivência. Vendia sua força de trabalho. Era parte da classe proletária detentora do poder revolucionário, tão poderosa quanto muda. Se era mãe, amava. Se era casada, tinha ora com quem contar, ora de quem se esconder. Se era divorciada, tinha tempo passado para se lamentar. Se era sozinha, e talvez fosse, tinha porquê se angustiar. Se era humana, chorava, se era Maria - e realmente era- sofria como Maria das Máscaras nos bastidores de uma face convicta que a tornava mulher tão madura quanto insegura. Andava todos os dias dentre multidões e em meio a amores desfeitos, a solidão dilacerava sua existência e imputava temores. A periclitância de uma vida medíocre mesclava-se ao cenário de um viver inóspito em terra alheia. A solitude lhe era por causa e consequência. Os padrões sociais lhe imputaram um modelo de beleza a ser seguido e lhe fizeram crer que seriam por cura da solidão. Maria embora tentasse corresponder aos padrões, jamais se viu livre do viver só. Talvez porque Maria seja defeito genético e seu genótipo carregue em seus alelos genes dominantes da solidão, fazendo com que em seu sangue roxo corra o veneno da solitude. Talvez porque seu nome seja uma sentença a um exílio perpétuo de uma vida eternamente distante. E sua sentença injusta a torne por fim Maria dos Medos, escondendo suas lutas sob as sombras da vida. Criando máscaras que encubram seu eu. Todavia permitindo que nas pulsilanimidades ocultas, corram o pûs de feridas ainda não cicatrizadas, medos concretos e abstratos de um existir tão racional quanto paradoxal. Paradoxo cortante que a torna Maria Vazia, transbordante de lutas e vazia de sentido. Transbordante de lágrimas e vazia de consolo. Transbordante de dor e vazia de lenitivo.
Maria, em sua última e primordial análise era promíscua. O ser constituído de uma mistura confusa e desordenada de tantas em uma apenas, lhe tornava refém da promiscuidade. Era Maria, era mulher. Olhos vivos, cabelos longos, boca calada, mulher convicta. Quem de longe a contemplava não sabia o que se passava nas proximidades de um ser maria.
*Promiscuidade: Heterogeneidade / mistura confusa e desordenada de seres no mesmo ambiente.