terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Espasmos

Sinto medo.. Do sonho que se desfaz no palpitar do coração. Da vida que se esvai ao som do entardecer. Da angústia que se acolhe nos entremeios do fim.
Sinto medo... Da nostalgia obsoleta que massacra o tempo vivenciado. Do pretérito que  oculta as artimanhas do futuro. Da felicidade barata oprimida pela rotina. Do pavor que se abriga nas lacunas do sentir.
Sinto medo... De uma coragem imperfeita mesclada à covardia. Das lágrimas que se perdem no soar das vibrações. Da vida ruminada que se desmancha nos compassos dos ecos.
Sinto medo... De temer o improvável, de querer vazios, de amar desvarios, da solidão. De lágrimas acalentadas, da mesmice destrutiva, de sorrisos e sofismas, da indiferença.
Sinto medo de me perder na multidão, de me familiarizar com a solidão, de querer me esconder. De passos em falso, de amores distantes, de amantes semotos, da nostalgia do existir.
Sinto medo. 

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Passos e fastos

Se os passos voltarem.
O mundo parou. O sonho findou. A lua caiu.
A vida calou. O soluço surgiu. O amor gelou. O fôlego esvaiu.
O homem girou, girou e parou. A vida retrógrada oscilou e partiu.

Se os passos avançarem.
A visão turvou. A cegueira matou. O dia nublou.
A anestesia curou a dor que chegou.
O olho secou. A lágrima calou.
O sorriso mudou. A expressão marcou.
O homem olhou, olhou e não viu.
A vida prosseguiu, prosseguiu e caiu.

Os passos avançaram, regrediram e desviaram-se. A vida seguiu e o homem sorriu.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Projeção

          O sol se punha diante de meus olhos cansados, a vida é cíclica Dé. O sol se pondo, o fim do dia, a vida que dispara sem o meu consentimento e eu mera espectadora de suas manifestações. O ritmo monótono do palpitar do coração e os sonhos que se desfazem pela monotonia. Ah Dé, tanto tempo passou. Todavia o meu retorno aos locais de nossos encontros provam-me que abandonei um mundo independente de mim, os locais intocáveis quase me fazem crer que o tempo é o mesmo. Exceto a pele que cai sobre minha face, exceto as expressões marcadas sob meus olhos, exceto as forças que se esvaem de mim, exceto os sonhos que há muito andam distante. Não fora isso e aquele restaurante antigo, aquela rodoviária suja e aquele parque farto de transeuntes me fariam crer que o tempo era o mesmo.
          Lembra Dé, dos planos que fazíamos? Dos sonhos que tínhamos? E você sempre a acalmar as tensões da minha alma. Ao seu lado não senti medo, meu próprio fôlego fortalecia-se ao ver-lhe. Seus olhos vagos me traduziam os desertos existenciais, sentia-me sugada por eles, entrando pelos  olhos e atingindo os píncaros de seu ser encontrei o ápice de minha viagem ao descansar no tom esverdeado do mar de suas íris.
          Eu lhe contei sobre meus medos e você me disse que estaria sempre ao meu lado. Disse-me que envelheceríamos juntos e sob as asas do tempo, enxergaríamos mutuamente a vida arrancando de nós partes de nossos corpos, sem contudo poder levar-nos a alma, que há muito nos pertencia em coletividade mútua. E eu cri Dé, cri em você porque me encontrei nos traços de sua face.
          Aceitei viver ao seu lado. Durante os dias em que compartilhamos nossas vidas, juro Dé, senti-me viva. Você foi arrancando-me os espaços entre os abraços, sugou a areia de meus desertos, povoou de ilusão os meus ermos.
          Eu sonhava com os desvarios de nossos planos, sonhava com o futuro, com a velhice... A vida fortalecia-se diante de mim. E o tempo passou. Até que um dia Dé, acordei e não o vi ao lado. A casa vazia, suas roupas sumidas. O procurei para lhe chamar a mesa para o desjejum. Não o encontrei. Percorri o vazio daqueles quartos, encontrando neles as lacunas deixadas em mim. Meus ermos se reconstituíam a cada grito por você. Não encontrei nada que me sugerisse a sua face, a menos aquele bilhete deixado sobre a mesa, dizendo que cansara de mim e fora aproveitar a vida.
          Vivo sozinha, Dé. Meus ermos tomaram forma e meus desertos abafam-me os sonhos. A solidão me é por memória constante do passado. Aprisionada na masmorra de suas formas, fujo para o pretérito e nele me refaço. Choro apenas durante a noite, a luz do sol evapora minhas lágrimas. O sol se põe diante de meus olhos cansados e liberta minhas lágrimas amargas. Fui aos locais de nossos primeiros encontros novamente, prendo-me ao passado. Quase me senti viva outra vez, não fora o espelho e o tato me denunciando as marcas do tempo. Envelheço solitária. Os sonhos da vida todos pelo chão, constroem uma estrada pela qual devo caminhar, pisoteando-lhes e maltratando-lhes, ando e respiro. E assim, aproveito também o que sobra-me dessa vida que você me ensinou  a viver.
          Ainda aguardo o seu regresso. Quem sabe em algum momento a vida lhe seja tão ingrata quanto foi comigo, e assim, você queira voltar para viver a vida que deixou em mim? Dé, estou no mesmo local, quase nunca saio de casa de forma que caso queira regressar, há de me encontrar esperando sentada naquele sofá   estampado escrevendo cartas para você.

domingo, 28 de outubro de 2012

Holocausto Russo -um caso dentre sete milhões-


      Era um dia de importância para aquela fábrica, afinal eles receberiam o grande líder Stalin, o pai do operários, o líder da nação, a esperança da classe proletária. Os diretores da fábrica se preparavam, espalharam avisos por todas as partes estabelecendo um horário fixo para que os trabalhadores aguardassem o discurso de Stalin com antecedência, horas antes de sua chegada. Finalmente chegara a hora. Pulsava no olhar daquele trabalhador a ansiedade por conhecer seu líder, por ouvir suas palavras. E ele o viu. Sua roupa bem alinhada, seu cabelo ordenadamente penteado, seu olhar resoluto. Tudo inspirava confiança, tudo alimentava sua esperança. E ele observava Stalin enquanto o diretor da fábrica abria o discurso e fazia as devidas homenagens ao líder da nação. O discurso do diretor findou e o operário ouviu finalmente a frase “Passo agora a palavra ao magnânimo, estupendo e majestoso líder de nosso país”. Stalin ergue-se e surge um aplauso estrondoso, de uma unanimidade singular. O trabalhador une-se aos aplausos em uma empolgação resoluta, um amor sincero, uma admiração incauta. Passou-se o tempo, foram-se 15 minutos e os aplausos não cessaram, 30 minutos e os aplausos não haviam diminuído sua intensidade. O operário cansado olha ao seu redor sem entender o que ocorre. Estava exausto, seus braços fraquejavam, estava envergonhado de si, como não conseguia demonstrar uma hora de devoção ao pai de sua nação, ao homem que dera sua vida ao povo? O rapaz começa a olhar ao seu redor com olhos mais ávidos, procurando alguém que ousasse parar de aplaudir para que ele pudesse descansar também. Todavia ninguém ousara, todos temiam a polícia que estava a espreita. Passaram-se outros trinta minutos e inteirava uma hora e meia de aplausos contínuos. Ele decidira-se. Sim, pararia de aplaudir, o cansaço o vencera. O que demais poderia ocorrer? Afinal, Stalin o compreenderia, sendo o pai de sua nação, o amante da classe operária jamais se desgostaria dele, entenderia seu cansaço e o perdoaria. Ele parou e um após outro os aplausos foram cessando até que todos silenciaram para ouvir o discurso de Stalin.
           Findado o discurso o operário se recolheu a seu posto de trabalho, ainda podia ouvir a voz de seu comandante e emocionava-se com suas palavras de encorajamento. Enquanto remoia as palavras de seu discurso, ouviu um chamado para que comparecesse na sala de seu superior. Durante o percurso lembrava-se de Krutóvisch, um antigo camarada, companheiro de serviço no mesmo setor e que um dia foi chamado a sala do superior e nunca mais foi encontrado. O operário assustado ainda lembrava-se dos olhos marejados de sua esposa ao procurar notícias do  marido, ele ainda podia ver o olhar assustados dos filhos daquela mulher que sabiam terem perdido um pai. Foi quando aquele trabalhador temeroso se lembrou de seus filhos em casa e de sua mulher que o aguardava. Por que o procuravam? Seria um engano?
          Chegando a sala, encontrou não apenas seu superior, mas alguns policiais armados que também o aguardavam. -Estamos aqui para assinar o seu mandato de prisão- foi o que lhe disseram. Seu coração batia forte, o medo saltava de seus olhos. –Por que querem me prender? O que eu fiz?- Perguntou o operário. –Você foi o primeiro a parar de aplaudir Stalin!-. – Mas como fazemos então? Como encerramos os aplausos?-. –Isso não importa-, disse o superior, -O importante é que você não seja o primeiro. É dessa forma que funciona a seleção natural de Darwin, é assim que reduzimos os fracos a seus fracassos-. Mal terminada a frase, os policiais amarraram suas mãos e o levaram para longe dali. O trabalhador amedrontado sem saber para onde ia não parava de pensar em seus filhos, aquelas crianças de cabelos despenteados que o aguardariam na porta ao fim do dia. Não houve tempo de despedida, não houve a oportunidade do último adeus a sua mulher. Ele foi para longe, foi trabalhar em um campo de concentração, foi sustentar a nação com seu trabalho e seus ombros suportaram o peso de todos os seus conterrâneos. Onde estaria Stalin agora para o ajudar e o acalentar em seus braços de pai? O líder que amava a nação agora o levava para longe de sua família. Como seria possível? E agora ali estava ele a entrar no campo de concentração. Rostos cadavéricos o saudavam e ele teve a impressão de que não sairia dali jamais.
          Os dias se passaram e a cada dia o trabalho aumentava. Levaram-no para construir uma linha férrea e ele trabalhava todos os dias mais de 20 horas. Um dia o trabalhador patriota caiu exausto sem conseguir se levantar mais. Os policiais o levaram até um local isolado, seus olhos se fecharam de forma que ele não sentiu a dor das balas a infiltrar sua pele. E seus olhos cerrados jamais se abriram e ele já não sentia medo. Há um momento em que a dor parece insignificante, há um momento em que morrer é sublime e já não é possível sentir, pois a sensibilidade resultou inútil e o homem espezinhado encontra na morte seu prêmio final. Foi assim que o operário encontrou ao fim sua condecoração. A derradeira respiração e o descanso almejado. Do outro lado do país, crianças de olhos marejados e cabelos despenteados ainda aguardavam o pai na porta de casa a todo fim de dia.

sábado, 6 de outubro de 2012

Felicidade barata

E a felicidade, tão simples quanto a vida, se construía ali, diante de mim. O ônibus correndo pelas ruas vazias, os espaços ficando para trás e as freadas bruscas interrompendo a sensação de simples liberdade. Sim, a felicidade se construía ali, um banho de terra precedido de um imergir numa piscina fria, milhares de flashs e fotos inúteis, sorrisos ao acaso e a frivolidade do tempo, um perder de uma pasta seguido de seu encontrar, a curiosidade de saber e imaginar o que sequer existe. Era a felicidade barata, acompanhada daquela sensação monótona do palpitar do coração, era a vida que brotava de futilidades fugazes e me fazia sorrir.

domingo, 9 de setembro de 2012

Face perdida


          Comecei a pedalar. O suor escorria por minha testa. Minha respiração tornava-se intensa. Minha freqüência cardíaca aumentava. Eu não sabia para onde ia. Eu apenas movimentava os pedais daquela bicicleta antiga, fazendo com que ela me levasse a lugar nenhum, me fazendo percorrer avenidas vazias, encontrando por todas as partes homens sem face, gente sem rosto.
          Era apenas mais um daqueles dias vazios. Dias nos quais o ar se empurrava forçosamente por minhas vias respiratórias me fazendo ruminar as horas, os meses, os anos e enfim a vida. Enquanto minhas pernas moviam aqueles pedais entendi que vivera uma vida vazia, repleta de dias vazios. Aquele dia, no entanto, era diferente. Estava carregado de um vazio reflexivo, de uma nostalgia obsoleta que me enlouquecia. Em minha casa, sentada defronte a um computador, escrevendo um artigo científico, senti minha mente em súbitos lampejos se desviar e meu subconsciente trouxe a tona aquela pergunta que eu há anos vinha fazendo. Havia amado? Sim, será que eu amara? Meus cabelos agora brancos, minhas mãos já enrugadas e a solidão invadindo meu ser... Onde estaria o amor? Aliás, o que era o amor? Ouvi por todas as partes propostas de amores românticos e amantes semotos. No entanto ali estava eu agora, meus amantes se foram com suas propostas. E o que restara de tudo? Nada. Cartas veladas a um tempo passado. Felicidade esquecida ou jamais lembrada. E o amor soando como uma vaga lembrança de algo ingênuo, restrito ao vazio. Nostalgia reflexiva, vazia e obsoleta que me aproximava do desvario. Saí. Buscando minhas respostas, fugi.
       
          E agora me encontrava ali, sem medo, percorrendo avenidas vazias e vendo naquela gente que pra mim se apresentavam sem face, extensões de meus vácuos internos aliados aos bastidores de minha face convicta. Por todas as partes, gente sem rosto. Gente que vivia alienada. E a vida se esvaindo. Porque a vida, essa vida mal vivida, era vida periclitante. Vida na qual os riscos se mesclavam a nossa insensatez, nos fazendo viver o imprevisível, ainda que buscando prevê-lo. Vida de ilusões, me fazendo amar e deixar de amar, no entanto, sem nunca sentir o amor.  Era a vida fugaz de gente sem rosto. Era a vida ruminada por pessoas sem face. 
          
          Continuei pedalando, e o amor insistindo, gritando e pedindo respostas. Continuei pedalando enquanto sentia em minha boca o sabor adstringente da vida. Continuei pedalando enquanto deixava para trás, estertores longínquos de recordações nostálgicas de lacunas existenciais. Continuei pedalando... Pedalei até chegar ao fim daquela avenida tão curta. E ao chegar ao seu final, entendi que talvez eu amasse. Amasse a vida tal qual se apresentara diante de mim, com suas intempéries e decorrentes vazios. Eu a amara por ter sido esta a vida escolhida por mim. E me refugiava nela para não encontrar a mulher que havia me tornado. Me escondia debaixo de sua alienação, buscando não encontrar do outro lado da vida, o vazio que ela me deixara. Eu a amava porque ela me ocultava sob suas asas protetoras e ia aos poucos apagando minha história, levando consigo minha mediocridade. Sim, eu havia amado, havia amado a vida, havia amado o vazio.
         
          Desci da bicicleta e enxuguei o suor. As mesmas mãos que haviam pilotado o guidão daquela bicicleta buscaram agora minha face. E qual não foi a surpresa ao perceber que meu tato encontrou uma face lisa, livre de curvas, livre de irregularidades. Percebi que eu há muito perdera também meu rosto. Minhas mãos sentem o vazio, meu ser sente seus vácuos. Vida ruminada, vida vazia, vida periclitante, vida fugaz de gente sem face, vida triste de uma mulher sem rosto.

domingo, 12 de agosto de 2012

Pai,

      Hoje de manhã você veio até mim de um modo costumeiro e me desejou bom dia com um abraço. Enquanto me escondi no seu abraço e reclinei minha cabeça em seus ombros, estive ausente de mim e lhe enxerguei em um passado distante que me revela a importância que você tem na minha vida, na minha história..
      Lhe vi pai, me segurando nos braços há anos atrás. Eu estava doente e sentia dor... Chorava ingenuamente sem entender a congruência daquele mundo que se construía diante de mim. Tive medo. Foi então que lhe vi chorar. Você chorava por mim... Não sei quantas vezes você chorou pai, mas sei daquele dia que em sua espontaneidade marcou toda a minha existência. E suas lágrimas mesclaram-se às minhas, e minha dor mesclou-se à sua.
      Súbitos lampejos retornaram a minha mente nostálgica e de repente me lembrei também da música que você compôs quando eu nasci. Das notas que soavam melodicamente e das palavras que as acompanhavam dizendo: "Seu nome é Amanda, seu nome fala de amor..."
      Outro dia pai, me senti angustiada. Outro dia, os caminhos da vida me colocaram defronte a uma situação com a qual não sabia lidar. Subitamente, senti uma força sobrenatural que me deu ânimo e sabedoria para continuar. Me lembrei então de suas orações. Durante todos esses anos, dia após dia, sem falhar nenhum dia sequer. Talvez seja por isso pai, que a força me vêm de onde eu menos imagino. Talvez seja por isso, que Deus vêm ao meu encontro quando já não vejo saída.
       Fui crescendo pai, as coisas mudaram... Mas você, de maneira animosamente irremissível, continuou presente em minha vida. Sua voz continuou ecoando, suas lágrimas permaneceram lavando a minha alma e suas orações permaneceram acompanhando-me em meio a caminhos tortuosos.
      Me desfiz do seu abraço e olhei para você naquele momento. Enxerguei seus olhos que de uma profundidade imensa, me pareciam distantes e carregados de mistério. Confesso que não os entendi pai. Confesso que não compreendo as dores e angústias que se escondem detrás daquele olhar. Mas seus hábitos reclusos e sua maneira calada mesclada àquele olhar profundo me ensinam sem palavras. Seu modo de falar e de emudecer revelam-me sabedoria. A sua história de superação me traz força. E quando penso em grandes homens de grandes épocas, confesso que não encontro nenhum como você. Muitos me provocam admiração, mas nunca nenhum deles esteve tão perto de mim quanto você está. Nunca nenhum deles me ensinou a amar como você me ensinou, nunca nenhum deles construiu minha história como você construiu. E é por isso pai, que a despeito de meus desentendimentos, minha visão infantil permanece inalterada, você ainda é o mais sublime dos homens, o mais admirável dentre eles.
      Olhei novamente  aqueles olhos profundos de um mistério absoluto que já não me eram assim tão distantes. Ouvi ecoar ao longe as notas de sua canção que me diziam " seu nome fala de amor..." Entendi ali pai, que meu nome não falava de amores românticos tampouco de amantes semotos. Meu nome falava do seu amor. Aquele mesmo amor que segurou-me em seus braços e derramou lágrimas sobre a face de uma criança assustada. O mesmo amor que ora por mim todos os dias, dia após dia sem falhar nenhum dia sequer. E talvez seja por isso pai, que choro sabendo que não estou sozinha. E talvez seja por isso que minhas lágrimas não soam vazias. Talvez seja por isso pai, que quando meu nome soa indiferente em bocas estranhas e alheias a mim, consigo sentir amor. O seu amor. E todas as vezes quando me sinto angustiada em meio aos ermos existenciais e periclitâncias inerentes a um viver inóspito em uma terra alheia a mim, ouço sua voz que ecoa em meio aos vácuos do tempo e penetra profundamente nas lacunas de uma alma incompleta me fazendo ouvir " seu nome fala de amor". Me lembro então não do meu nome, mas do seu amor... Fico em paz, sei que não estou só. E se um dia a vida me levar pra longe de você, vou sentir o seu abraço e me molhar com aquelas lágrimas que ficaram guardadas em mim e me fortalecer com suas orações e ouvir a sua voz cantar, sabendo que a distância debalde tentará me separar de você. Lhe levo dentro de mim pai, o pilar que sustenta minha história é você.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Desabafo do cepticismo sentimental

Não me conte histórias de amor, já não quero ouvi-las. Não me peça para amar, já não atendo a pedidos vagos. Não me diga palavras bonitas, elas já não me convencem. Não insista para que eu fique, as insistências me perturbam.
Não ouvirei outra história senão a da vida. Não amarei o que me for pedido. Não acreditarei em palavras que não forem as que cantam a realidade ainda que feia, nua e crua. Não ficarei, não reprimirei meu espírito itinerante.
A realidade é tão vasta, não nos afastemos. A razão é tão forte, não a deixemos. Venha até mim, sente-se ao meu lado e me conte a verdade, me diga sem engambelanças o que quer. Sou o hoje, apenas o hoje. Vivo o que se prova e nada além disso. Não me convença, me mostre. Sou céptica, sentimentalmente céptica, vivo o paradoxo realista. Não me venha com histórias de amor.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Dialética da vida

O vento gelado matratando meu rosto. Um calor interno explodindo meu ser. A visão de um monte defronte a um vale. A saudade vazia. O medo covarde.
Paradoxos e antíteses brigando dentro de mim e constituindo a paisagem sinestésica encontrada por meus olhos vazios e associada por meus neurônios ativos. Uma tentativa gritante de reconstruir um vazio e nesse vazio a completude do que se perdeu no ar...  Nas pulsalinimidades ocultas encontro o que fui. Talvez por jamais ter sido, talvez por jamais ter perdido. E por fim, em meio a encontros e desencontros entendo a verdade gritante e conclusiva de que a vida talvez seja o próprio paradoxo mascarado pela antítese do viver. Meus olhos enxergam a vida, meu ser sente o vazio. Estou completa.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

O ser maria

          Olhos vivos, cabelos longos, boca calada, mulher convicta. Quem de longe a contemplava não sabia o que se passava nas proximidades de seu eu. Em sua face alheia, as máscaras criadas ocultavam seus medos. Dentro de si, uma dor latejante e temores cortantes. Ao longo do tempo, seu exterior construiu esteriótipos, seguiu padrões. Mas seu interior despadronizado insistia em uma dor causticante, causada pelos aguilhões da pulsilanimidade os quais provocavam sem cessar um arco reflexo espontâneo, que a fazia involuntariamente esconder-se. Esconder-se de si, do mundo e de todos sob as sombras de um personagem caricaturado de sua existência: A vida.
          Seu nome? Maria. Uma Maria dentre 13 milhões de Marias. Nome fruto da incoerência de normas sociais exigentes de substantivos próprios como modo de classificação que a remetiam por fim ao comum. Nome comum fazendo jus à uma existência que não ia além disso. Maria. Que Maria? Maria das Dores, Maria das Máscaras, Maria dos Medos, Maria Vazia.
          Maria das Dores despertava cedo diariamente e, sendo parte do capitalismo por Marx denunciado, trabalhava como boa cidadã em prol da sobrevivência. Vendia sua força de trabalho. Era parte da classe proletária detentora do poder revolucionário, tão poderosa quanto muda. Se era mãe, amava. Se era casada, tinha ora com quem contar, ora de quem se esconder. Se era divorciada, tinha tempo passado para se lamentar. Se era sozinha, e talvez fosse, tinha porquê se angustiar. Se era humana, chorava, se era Maria - e realmente era- sofria como Maria das Máscaras nos bastidores de uma face convicta que a tornava mulher tão madura quanto insegura. Andava todos os dias dentre multidões e em meio a amores desfeitos, a solidão dilacerava sua existência e imputava temores. A periclitância de uma vida medíocre mesclava-se ao cenário de um viver inóspito em terra alheia. A solitude lhe era por causa e consequência. Os padrões sociais lhe imputaram um modelo de beleza a ser seguido e lhe fizeram crer que seriam por cura da solidão. Maria embora tentasse corresponder aos padrões, jamais se viu livre do viver só. Talvez porque Maria seja defeito genético e seu genótipo carregue em seus alelos genes dominantes da solidão, fazendo com que em seu sangue roxo corra o veneno da solitude. Talvez porque seu nome seja uma sentença a um exílio perpétuo de uma vida eternamente distante. E sua sentença injusta a torne por fim Maria dos Medos, escondendo suas lutas sob as sombras da vida. Criando máscaras que encubram seu eu. Todavia permitindo que nas pulsilanimidades ocultas, corram o pûs de feridas ainda não cicatrizadas, medos concretos e abstratos de um existir tão racional quanto paradoxal. Paradoxo cortante que a torna Maria Vazia, transbordante de lutas e vazia de sentido. Transbordante de lágrimas e vazia de consolo. Transbordante de dor e vazia de lenitivo.
          Maria, em sua última e primordial análise era promíscua. O ser constituído de uma mistura confusa e desordenada de tantas em uma apenas, lhe tornava refém da promiscuidade. Era Maria, era mulher. Olhos vivos, cabelos longos, boca calada, mulher convicta. Quem de longe a contemplava não sabia o que se passava nas proximidades de um ser maria.


*Promiscuidade: Heterogeneidade / mistura confusa e desordenada de seres no mesmo ambiente.

sábado, 2 de junho de 2012

Lágrimas do vazio indigno

Paro agora e permito que minhas lágrimas reguem o chão. O vazio. Solo plano e vazio. Em minhas lidas de rotinas causticantes a saudade e a decepção me remetem a uma incompletude. E meus olhos buscam algo completo a que possa apegar-me, todavia o incompleto salta de meu vazio interior e torna as imagens ao meu redor tão vazias quanto as lacunas de meu eu.
Nas entrelinhas do vazio um sentimento escamoteado e as lágrimas que rolam por minha face provam que o objeto de meu choro não é dele digno. Uma verdade irrefutável que tão racional me remete ao engambelante. Lágrimas para serem lágrimas necessitam de indignidade. Choro pelo indigno que um dia me pareceu digno. Pelo espaço outrora ocupado e por aquilo que foi roubado de mim. Choro pelo vazio. Solo plano e vazio.


terça-feira, 29 de maio de 2012

Onde está a sabedoria que perdemos com o conhecimento?


Os tempos modernos que nos foram reservados levam-nos a crer que alcançamos, enfim, alto nível de conhecimento. Uma tecnologia avançada e séculos de estudos históricos nos movem a olhar o passado com ar de superioridade, crendo termos conquistado tempos melhores. Todavia se acreditamos  assim, ignoramos nossas falhas e ludibriamos nossa razão. E se nos julgamos sabedores de toda a ciência e portadores de toda a informação  é porque talvez tenhamos perdido a sabedoria.
 Em nossas críticas sociais, pautadas no que temos estudado, voltamo-nos até as civilizações da idade média e nos deparamos com um estado teocrático, no qual se oprimia em nome da fé e se justificava uma sociedade estamental, injustamente repartida, em Deus. Rebelamo-nos contra esse modelo e em nossa rebeldia  colocamos toda a culpa de uma sociedade injusta na fé. Generalizamos os fatos e classificamos a crença religiosa como uma manifestação ingênua praticada por seres ignorantes e incentivada pelo estado como forma  de manipular um povo oprimido. Com base nisso a excluímos  de nossas vidas, crendo estarmos assim nos píncaros da razão. Esquecemo-nos, portanto, que esse elemento de nós arrancado é a base capaz de nos sustentar em momentos de imprevisibilidade e que sem ele  pouco nos resta para viver em meio às periclitâncias inerentes a própria existência.
Em meio às lutas e às dificuldades enfrentadas não nos sobra nada a que nos apegarmos. Em nossa busca por uma constituição da personalidade, foi-nos tirada a base. Em que basearmos nossas condutas se já não temos pilares sólidos de sustentação? No que crer quando a efemeridade do tempo nos atinge e nos deparamos com o fim? Onde está a esperança que nos imprime a resiliência? Onde a fé que nos motiva a vida? Resta-nos um vazio existencial tão extenso  quanto aquele espaço que em nós deveria ser ocupado por Deus. Estamos vazios, perdemos o rumo. Nosso suposto conhecimento deixou-nos  em um estado de completa penumbra.
A pergunta que dia-a-dia insiste em ressoar nas entrelinhas de nossas lacunas é “onde está a sabedoria que perdemos com o conhecimento?” Em nosso afã pelo saber científico ignoramos aquilo que nos é essencialmente necessário. Generalizamos em demasia. Assumimos  conclusões precipitadas e agimos com base nelas. O desespero e a angústia hoje nos servem para provar que a sabedoria há muito tem andado distante. Tornamo-nos escravos de uma razão incoerente.
O que falta enfim, senão o apelo à sabedoria? O que nos resta, senão o grito altissonante e forte que nos desperta para a necessidade de mudanças em nossa maneira de enxergar a fé?  O que nos resta a não ser a conclusão translúcida de que é preciso elevar Deus como a base de nossa conduta o introduzindo a aspectos práticos de nosso viver diário? Só assim enfrentaremos os desafios aos quais estamos circunflentes  com a força que vem do que nos é interno, com a força que provém da fé em Deus. Deus hoje nos é necessário.

Confissões ao senhor de uma senhora viúva



Senhor,

Todos os dias peço à vida insistentemente que lhe traga de volta até mim. Acordo pela manhã com o sol entrando pela janela. Levanto sentindo-me culpada por não ter despertado mais cedo para lhe preparar o café. É ai que lembro que já não tenho você. Procuro dormir outra vez, não consigo. Fica um vazio. Não o preencho.
E durante o dia, em um ato de pura ironia, a mesma vida que lhe levou de mim, me lembra de você a todo instante. Os porta-retratos carregando nossas fotos, aquela sua blusa velha que guardei, suas anotações nos meus livros, o ursinho de pelúcia que você me deu pra que eu me lembrasse de você em sua ausência... Nada mudou senhor, exceto a sua falta. E até o seu cachorro, que eu odiava, permanece comigo. Ele vem me saudar todas as manhãs e eu pergunto a ele se ele também sente a mesma falta que eu sinto de você.
As vezes senhor, eu paro pra olhar aquelas fotos nossas nos porta-retratos. Vejo em nossas faces uma alegria que ficou velada em um tempo passado. Seus olhos sorrindo daquele jeito típico seu, e nossos abraços preenchendo-me as lacunas da alma... Ah senhor, por que você está assim tão longe? Por que já não me fala?
Ontem lanchei naquela lanchonete que você gostava  e tocou aquela música que prometi que cantaria um dia pra você. Por um instante achei que lhe tinha por perto e quis cantar para que você ouvisse... Até que me dei conta senhor, de que você não me ouvia.
Voltei pra casa e foi dando oito horas e fiquei esperando você chegar, abrir aquela porta dizendo oi, e se sentar ao meu lado pra que eu lhe perguntasse como foi o seu dia. Mas você não chegou...  Lembro-me então que há um mês você se foi pra sempre de mim.
Hoje senhor, era seu aniversário... E eu morro de vontade de escrever  pra você uma cartinha como aquela que você escreveu pra mim de presente de natal, desejando feliz aniversário, dizendo que o maior presente sou eu quem ganho em ter você na minha vida, e pedindo que você por favor nunca vá embora... Mas senhor, você está em algum lugar longe de mim e você foi embora tão rápido e tão decididamente que eu não tive tempo nem coragem de lhe pedir pra que ficasse.
Vou pra cama me deitar sozinha, há um mês não ouço seu boa noite costumeiro. Visto aquela sua blusa velha e abraço aquele ursinho de pelúcia que você me deu pra que eu nunca me esquecesse de você...  Canto fraquinho a música prometida como que esperando outra vez que você possa me ouvir. Durmo cantando, tentando loucamente esquecer a sua ausência, mas se a esqueço enquanto durmo, meus sonhos insistem em recordá-la. Sonho com você. E acordo de repente lembrando que um dia lhe contei que sonhava sempre contigo e você me disse que enquanto estivesse nos meus sonhos estaria tudo bem. Mas não está tudo bem senhor. Acaso você me enganou?  Abraço forte meu ursinho e choro baixinho de saudades.
Sinto sua falta todos os dias. Enquanto você ficou guardado em meu passado, eu preciso continuar vivendo. Mas se somos parte de uma mesma vida, estamos inevitavelmente ligados. Permanecerei todos os dias esperando você chegar e abrir a porta e me contar sobre o seu dia, dizendo que eu sou a única a entender suas lutas. Até que de repente senhor, meus olhos se fechem como os seus e eu morra com a esperança de que em algum momento, quando o pra sempre houver terminado, o passado se una ao presente e você abra aquela porta e eu possa novamente me encontrar com você.
                                                                                                                                        Sua senhora.

sábado, 12 de maio de 2012

Mãe,

      Ontem quando você foi me dar um abraço de boa noite, estive ausente de mim. Meu ser se voltou à tudo que me revela a sua importância na minha vida e quis escrever em um dia que talvez seja propício para minhas reflexões sobre você.
      Lhe vi ali mãe, a mesma a me carregar no colo há anos atrás, a mesma a orar por mim diariamente e a mesma que hoje é a minha força. Todos os dias mãe, durante todos esses anos te ouço dentro de mim. A sua voz me grita mesmo quando a sua ausência se instaura fisicamente. As suas orações me acompanham quando me falta a coragem e a sua fé me levanta quando caio.
      Quero lhe levar sempre comigo. Quero ter sempre o seu ombro pra chorar, e o seu abraço para me consolar. Quero sempre ter a certeza de que suas orações me acompanham. Quero sempre ouvir a sua voz ressoando em meio aos meus fracassos e me inspirando um recomeço. Quero sempre ouvir você falando sobre resiliência, com essa peculiaridade em seu modo de falar, capaz de unir o racional ao subjetivo e me trazer de volta.
      Minha ausência me remete agora mãe, há anos atrás. Me vejo com sete anos de idade quando morávamos em Curitiba. Era um dia frio. Almoçávamos em um restaurante, eu estava sentada na sua frente. Me lembro que naquele dia tive uma de minhas primeiras experiências amargas em um mundo que apenas começava a se construir em mim. Lhe falei a respeito, lhe contei que não tinha amigos na escola, e que tinha ouvido minha coleguinha falar algo maldoso a meu respeito. Minhas lembranças guardaram intactas as impressões causadas. Não sei se chorei, me lembro apenas da vontade de chorar. E você, como ainda hoje faz, me acolheu nos seus braços e me ensinou a sentir. Um abraço que me acompanhará durante a vida toda. Um ensino que persiste em me falar ainda hoje. Uma voz que ressoa dentro de mim.
      Me volto agora há alguns dias atrás. E sinto novamente a dor, causada por motivos diferentes, todavia a mesma dor sentida por aquela menina de sete anos de idade, naquele dia frio. E aquela vontade de chorar e aquele sentimento de vazio. E você agora ao meu lado me diz que eu devo chorar. E eu me permito chorar. Minhas lágrimas mãe, não rolam mais por uma face desfeita, rolam por uma face que se reconstrói com a dor que você me ensinou a sentir. E você me acolheu nos seus braços e minhas lágrimas molharam seus abraços. Os mesmos braços, os mesmos abraços, a mesma voz - a sua voz - ...
      Hoje mãe, não me canso de dizer que lhe ouço todos os dias. E que ouço você cantar quando a dor instaurada insiste em me manter desperta, e quando meus sonhos me causam medo. O medo daquilo que me é escuro, o medo daquilo que não posso ver. E quando meus medos se exteriorizam em lágrimas, ouço a sua voz em momentos de insônia cantando "filhinha dorme e dorme em paz, Deus cuidará de nós. Não chores mais e dorme bem Deus velará por nós."
      Mãe, me sinto segura. Sei que terei os seus braços, os seus abraços, a sua voz e a sua música no que sou. E se um dia a distância me afastar de você, quero que saiba que lhe levo dentro de mim. E se um dia a dor insistir em desatinar, só quero que entenda que independentemente de onde você estiver, sentirei o seu abraço e ouvirei a sua voz, e vou dormir em paz porque sei que Deus cuidará de nós.

Dialética do vazio

Olho para o vazio e nele me encontro. A ausência se foi, me resta o vazio. A materialização dos sonhos incautos, o retorno à um passado incompleto e nele a completude do que se perdeu no ar.
As máscaras criadas para esconder uma dor recíproca. Uma auto-suficiência insegura, e os questionamentos profundos de uma vida superficial. Olhares alheios e distantes não tem conhecimento do que se passa nas proximidades de um ser vazio.
Uma dor que foge da razão. Um viver que busca oculta-la, mas a insistência dos sonhos persistem em lembrar-me de sua existência. E nas frestas instauradas nas entrelinhas de minha alma a prova de que não há como fugir daquilo que não foge de mim. Minhas utopias desfeitas, meus sonhos desmascarados, o vazio...
Encontro o vazio e nele me refaço. Aquela falta... E as projeções projetadas no que me era escamoteável retornam até mim. Me deparo com o que sou, extensões de minha alma desenganchadas se engancham em novamente nela. O peso esmagador de ganchos ora desenganchados, ora reenganchados.
Já não fujo da dor. Me reconstruo nela. E aquela ausência que me parecendo tão próxima me trouxe até o distante, e aquela distância que tão engambelante me remete ao vazio... E um vazio que tão grande me retorna à mim. A grandeza de uma alma vazia. A pedra que sou, a pedra que fui e a pedra que me tornei.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Sorrisos




          Era uma tarde de quinta feira. Eu havia passado o dia fora de casa estudando. Naquele momento me encontrava na sala de estudos da biblioteca do espaço cultural e sentia fome. Interrompi meus estudos e fui até a cantina buscando algo que pudesse comer... Os estudos me cansavam, estava esgotada e saturada de informações.
          Chegando até a cantina, pedi um lanche para o rapaz que veio me atender. Enquanto comia, observei. O moço trabalhava com sua mãe, e enquanto mãe e filho trabalhavam, conversavam e sorriam em uma mutualidade recípocra que me gritava e me chamava à introspecção. A felicidade saltava de suas faces e a simplicidade de suas vestes. O menino usava óculos e a senhora sua mãe um avental. Não me lembro direito de suas expressões faciais, mas lembro-me que sorriam.
          Confesso ter me sentido ridícula, tentei me esconder atrás do balcão. Eu correra tanto, me esforçara tanto, estudara tanto... E aqueles dois ali, vivendo, sorrindo... Eu cansada, esgotada, um dia inteiro fora de casa, longe da família... E aqueles dois ali, vivendo, sorrindo... Estava preocupada, estressada, triste... E aqueles dois ali, vivendo, sorrindo... Desconheço suas dificuldades, desconheço seus medos e dores. Mas conheço aquele momento que em sua incautidão me devolveu a mim. Encontrei a ausência, que há tanto buscava. Me perdi.
          Sorrisos em sua simplicidade me ensinavam o que aqueles livros que eu deixara empilhados na mesa foram incapazes de mostrar-me.  A vida tão idealizada por mim, talvez fosse mais simples, muito menor que minhas idealizações e muito maior que meus devaneios. O sol se punha mais adiante, os carros passavam pela avenida, pessoas entravam e saiam, o mundo girava, a Grécia estava a beira da falência, a Europa pensava em estratégias de superação da crise, o dólar acentuava a queda no câmbio externo, o real se valorizava, os ambientalistas discutiam a Rio +20,  os economistas faziam novas previsões para a bolsa de valores, as buzinas na avenida, os engarrafamentos nas rotatórias, o mundo em caos... E aqueles dois sorrindo...
          Repeti quatro vezes o lanche, e o rapaz diante da minha fome escancarada sorria.
          O contraste entre nós era o mesmo causado pelo preto no branco. Me desfiz perante aqueles dois, me desarmei, me encontrei. E no âmago de minhas introspecções compreendi que a vida talvez fosse muito menor que meus planos e muito mais profunda que minhas superficialidades. Sorrisos, quarenta minutos, e um renascer pra um mundo que há muito já não me comporta.
          Tive que ir. Não pude me despedir da senhora, mas me despedi daquele rapaz com um "muito obrigada" e um sorriso. E ele? Ah, ele sorriu para mim...
           A vida é simples.

domingo, 29 de abril de 2012

Aquela surda ausência assimilada

Há palavras que foram feitas pra jamais serem pronunciadas. Há letras que se unem no vazio inexistente e deixam em nós um vácuo tão perturbante quanto a própria inexistência.
Sinto vontade de gritar, sinto vontade de esclarecer, sinto vontade de implorar. Mas as palavras se formam no vazio. Entre nós o silêncio que jamais será desfeito, e uma distância que aumenta perturbantemente. Promessas quebradas soam como mentiras, o ocultar soa covardemente absurdo. E uma raiva que se converte em compaixão, e uma dor que se converte em alegria, por saber que no final de tudo aquilo que se foi há aquilo que ficou. As lembranças que me fazem descrer em tudo. E vendo uma distância ameaçadora e um caminho que te leva até a alegria, sinto o inédito se formando em mim, aprendo a querer. O querer vem cruelmente me matando, e o não querer subitamente me refaz. Não sei o que houve, não sei o que há. E as perguntas que tento fazer se constroem no vácuo. Entre nós o silêncio de um despedir-se involuntário. Te deixo ir, e observo distantemente ausente aquilo que um dia foi parte do que sou, e o teu ir me prova que eu jamais fui. A minha ausência assimilada que me trazendo até mim me aproximou da distância. A utopia que se constrói, jamais se desconstruirá. E as perguntas se formando e as palavras se criando... No vácuo. Permaneço calada, já não se pode gritar àquela surda ausência assimilada. Me despeço com um olhar distantemente amigo que perseguirá minhas reminescências. Sou pedra.

sábado, 28 de abril de 2012

Escrever

Olho e não vejo. Busco dentro de mim algo a que me apegar, mas há um vácuo. Não há nada, perde-se tudo, tudo se desfaz.Onde está minha alma? Onde estão meus sentimentos? E aquele vazio tão distante, e as lágrimas que já não choram. O que  fazer? 
Escrevo. E as palavras subitamente se ligando, e as frases inesperadamente se formando, e aquele vazio que salta das entrelinhas dos textos, e os desenhos das grafias, e as conjunções, advérbios, verbos, e as orações... Tudo me devolve a mim, a morfologia sintática dos textos me devolve aquilo que sou e que jamais serei. Encontro a minha alma perdida em meio as palavras. Religo as palavras sem ordem e reconstruo dentro de mim uma ponte que une dois seres, dois opostos distantes, ausentes, chocantes...
Me perco quando escrevo, talvez porque o perder e vagar sem rumo seja uma inevitabilidade do meu próprio viver, me perco porque é apenas mediante a perda que consigo encontrar. Encontrar o que se foi, o que se vai e o que há muito inexiste.
Ah, palavras... Em uma coesão sintática se formando em minha frente. O poder de manipulá-las, o poder de encontrar aqueles raios refletidos de mim nelas. Ah, palavras... Vocês me encontram, tenho em vocês a mim e em mim a vocês.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Família,

            Hoje enquanto almoçávamos em comemoração do meu aniversário, olhei cada um de vocês. Durante dois minutos estive ausente. Imersa em minhas introspecções, os vi há seis anos atrás. E em um lapso de súbito lampejo me dei conta de que vocês eram os mesmos, nós éramos os mesmos . Há seis anos atrás, sem condições financeiras vocês me deram o que eu mais precisava. Lembro-me da roupa da boneca costurada pela minha mãe, da escova de dente, das cartinhas escritas pelo meu pai, e dos desenhos feitos por meus irmãos em forma de presente de aniversário. O complexo em sua simplicidade me ensinava o valor daquilo que não se vê, a importância do imaterial saltava da matéria e me deixava marcas que me acompanhariam durante a vida toda. Vocês me deram a segurança emocional mesmo quando faltava-lhes o financeiro. Duas coisas aparentemente tão atreladas e unidas, mas na prática tão independentes e distantes. A realidade diária revelada por vocês me ensinou a enxergar com profundidade a própria superficialidade.
            Volto para o ano de 2012. Vocês ali, ao redor da mesa, conversando e sorrindo. Papai olhava com calma e serenidade à mim, mamãe sorria meiga, o Gustavo fazia uma piada e Guilherme caçoava com um sorriso maroto. Tudo tão parecido... Os mesmos. Os únicos.
          Quando nos sentamos para fazer o culto a noite, e vocês meninos me deram um abraço duplo enquanto papai e mamãe cantavam, senti as lágrimas escorrerem dos meus olhos. Quis guardar aquele momento, quis escrever para que não me esquecesse. Os mesmos, um pouco maiores, um pouco mais velhos. Os únicos. E aquele abraço duplo que me devolvia a mim, e aquela sinceridade que só encontro em vocês... Uma parte de mim, aquilo que sou e não sou. Meu passado, meu futuro.
Papai tocava no violão a mesma música que havia composto pra me fazer dormir quando eu recém nascera, e no vácuo do tempo e do espaço sua voz permanecia cantando "eu tenho uma filhinha que é muito engraçadinha (...) seu nome fala de amor...". Mamãe me fazia ler um cartão enquanto os meninos permaneciam ao meu lado... As lágrimas que rolaram pela minha face me revelam a importância que vocês têm na minha vida, na minha história. 
          Guardei tudo isso, guardei cada instante e cada momento. 
         Hoje, família, agradeço a Deus por ter vocês. Os únicos a saberem o que se passa comigo todos os dias. Só vocês entendem as minhas lágrimas e meus desesperos. Nos meus devaneios esperançosos e utopias reais me encontro com cada um de vocês. 
          Os desenhos, as cartinhas, as roupas, a escova de dente, tudo isso seis anos depois permanece me ensinando, me gritando e me mostrando o sentido de tudo aquilo que não se vê, que não se toca. O abstrato da vida se desfaz em formas e se refaz naquilo que sou. A segurança que sinto quando estou ao lado de vocês me serve por abrigo. A periclitância dos fetiches inalcansáveis e de uma matéria que sendo sólida se desfaz entre meus dedos se mostra distante. Sei que daqui há seis anos quando eu comparar um passado ausente com um presente vigente encontrarei novamente com vocês, intactos, ilesos. Me sinto segura. E meus olhos distantes se voltam até vocês e meu ser peregrinamente sem rumo encontra um destino seguro, encontra vocês. Tenho um lar, e em cada um de vocês quatro, encontro pedaços lançados e jogados daquilo que sou, daquilo que fui e daquilo que serei. 
Amo vocês.

domingo, 22 de abril de 2012

O que resta

"Tudo o que era sólido se desmancha no ar, tudo o que era sagrado é profanado, e as pessoas são finalmente forçadas a encarar com serenidade sua posição social e suas relações recíprocas." (Karl Marx, Manifesto Comunista)



Tudo que era sólido se desmancha no ar, as coisas sempre começam tão rápido quanto terminam e somos forçados a encarar com serenidade a realidade que nos  resta... As partículas desfeitas daquilo que idealizamos solidamente se desmancham no vento.  Fica o que resta, o que resta é nada, o nada é vazio...

Seis metades de hora

"Em seis dias, Deus fez o mundo; em seis dias, eu refiz o meu." (Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas)

Senti uma dor intensa no primeiro momento. Durante os primeiros trinta minutos quis evaporar, e me perguntava se realmente era necessário passar por tudo aquilo. Não consegui disfarçar, falei, e me desfiz em uma ausência completa de mim.
Durante os próximos trinta minutos, me senti triste. Quis chorar, e uma falta de conteúdo interno se concretizou em minha introspecção.
Nos terceiros trinta minutos senti uma raiva que se voltava contra mim. Talvez por ter acreditado e sonhado com aquilo que jamais existiu.
No quarto intervalo de trinta minutos falei. Falei de tudo o que senti, e as paredes me foram por confidentes.
No quinto intervalo de trinta minutos parei.
No sexto intervalo de trinta minutos, dormi.


E meu querido leitor, ao acordar, confesso que me senti a versão feminina e aprimorada de meu grande herói Brás Cubas. Em seis dias Deus fez o mundo, em seis dias Brás Cubas refez o dele, e em seis metades de hora eu refiz o meu. Nada é o fim meus caros, nada é o fim...

Pedra

O que fazer quando a utopia se desfaz, quando as ideologias se recaem sobre minhas dores e os sonhos calados e materializados de um vazio inconstante desabam diante de meus olhos -há muito cegos para a realidade-?

Como lidar com a dor que desatina em uma alma causticada, que querendo chorar se contém? Como lidar com lágrimas que jamais rolaram por uma face, pois essa face já não existe? 

Como lidar com a inconstância de minhas possibilidades, e com uma segurança que em momento algum existiu? Como voltar depois de tanto tempo, e depois de tanta vivência deixar de viver?

O que fazer quando os sentimentos são absurdamente ignorados, e permaneço como pedra em um caminho de pedras, pisoteada e largada, comumente ignorada?

Como reconstruir um mundo que sendo sólido, se desfez no ar? O que é sólido? O que é segurança? O que é sentir pra mim? O que é sentir pro outro?

Meus pés tocam um chão que se reconstrói diante de pegadas alheias a mim. Não é o fim, nada é o fim. É o começo de uma dor que me cura, de um sofrimento que me refaz. Permaneço como pedra, inane, imóvel, abandonada, me desfaço e refaço diante dos olhos de quem sequer me vê.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Mar

"A tragédia deste mundo é que ninguém é feliz, não importa se preso a uma época de sofrimento ou felicidade. A tragédia deste mundo é que estão todos sozinhos. Pois uma vida no passado não pode ser partilhada com o presente." (Alan Lightman, Sonhos de Einstein, 1993)
  
          Absorto e enfetiçado pela primeira visão do mar, João segurava a mão de sua mãe. As ondas que iam e vinham, a areia a cobrir-lhe os pés, o azul do céu a mesclar-se com o azul do mar... Tudo tão inédito, tão surpreendente! A mãe contemplando a alegria do filho, sentia seus esforços recompensados. Desde que ouvira João comentando seu sonho de ver o mar, economizara em tudo. Trabalhava durante o dia como empregada doméstica e durante a noite como garçonete. Há mais de três anos não comprava nada para si e seu salário destinava-se às despesas do dia-a-dia e às economias para realizar os desejos de uma criança amada.
          Passaram bons dias naquela praia. Não havia luxo, não havia requintes... Havia tão somente uma mãe e um filho, que descobriam na companhia mútua uma felicidade pura e simples.
          Os anos correram, João cresceu. Todo o seu desejo infantil, vagamente ingênuo, tomara a forma de sonhos amadurecidos. Dinheiro e felicidade. Esses dois elementos unidos e inseparáveis, motivavam sua vida agora. Nos bastidores uma mãe já senhora concentrava suas lânguidas forças na realização dos sonhos de seu amado João, com um amor materno que o tempo não enfraquecera. Seu salário agora destinava-se aos estudos do jovem, que talvez inconscientemente, lembrando de sua primeira experiência com o mar, julgava poder encontrar aquela mesma alegria ao estudá-lo. Queria ser oceanógrafo. As exigências do estudo o obrigaram a afastar-se de casa, deixando distante, uma mãe que ainda provia seu sustento.
          Depois de concluir o curso, o trabalho manteve João fora de casa. Passava dias viajando mar adentro, possuia dinheiro, faltando apenas a felicidade. A rotina tornou o contato com a mãe escasso. A mãe sozinha recebia do filho dinheiro, faltando apenas o amor. O oceano que outrora os unira, os separava agora. A tão sonhada felicidade se perdeu na ambição pelo dinheiro, e ambos antes unidos em sonhos, se separavam com a realidade.
          Certo dia chega ao renomado oceanógrafo a notícia de que sua idosa mãe falecera. Ele não pode despedir-se dela, o mar os separava. Aquele homem de cabelos grisalhos e olhar ausente, contempla agora as ondas que batiam no casco de seu navio, e lhe traziam de volta as memórias de sua infância.
          Absorto e enfetiçado pela dor, João contempla em solidão o mesmo mar de sua meninice, que agora o separava da alegria. As lágrimas caindo de seus olhos a mesclar-se com a água do mar, o sol se pondo no céu... Tudo tão monótono, tão nostálgico! Do outro lado do mar, sua mãe morta. Do outro lado da vida, uma felicidade esquecida. Entre eles o vácuo do passado, o vazio da ausência, e uma saudade distante... Ah mar...

sábado, 14 de abril de 2012

Ao vazio

Afeiçoo-me ao teu falar porque me sinto como ausente.
E há muito me ouves e minha voz não te toca...

Afeiçoo-me ao teu escutar porque te falo, mas me escutas muda, e não me entendes.
Afeiçoo-me ao teu olhar, porque não me vês, e permaneço a ti como pedra imóvel.
Afeiçoo-me a um sonhar utópico, porque a utopia me faz viver em um terreno inóspito de um imaginário ilusório.
Afeiçoo-me a ti, porque emerges das coisas cheias de mim e preenches lacunas inexistentes de espaços vazios e completos.
Afeiçoo-me aos reflexos de minhas imagens, porque os olho e te vejo no que sou e não sou.
E há muito me ouves e minha voz não te toca...

Afeiçoo-me ás profundidades de um nada instável, que me faz tão bem quanto mal.
E há muito me ouves e minha voz não te toca.

Deixa que eu me cale com a tua voz,
Deixa que eu te fale com meu silêncio que refulge como lua, tão distante quanto profundo.
Todavia há muito me ouves e minha voz não te toca...

Afeiçoo-me ao teu falar porque me sinto como ausente.
E uma palavra basta, e um sorriso me satisfaz.
E há muito me ouves, e permaneço distante, e minha voz já não te toca...

Onde estás?

sábado, 7 de abril de 2012

Ainda que

Ainda que meus sonhos acalentados se concretizem no vácuo,
Ainda que as ondas secas de um mar revolto destruam meus castelos contruídos sobre a areia,
Ainda que minhas lágrimas rolem livremente soltas -presas a uma face desfeita-.


Ainda assim, meus olhos permanecerão vendo o invisível, e meus ouvidos permanecerão ouvindo o inaudível. Minha voz rouca permanecerá gritando muda, e meu ser existirá em inexistência.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

A solução de nossas vidas

Houve um tempo em que acreditavamos no que nos era dito. Houve um tempo em que a idade das trevas ocultou nossas informações e tornamo-nos reféns de interesses alheios.
Houve um tempo em que tiraram a dignidade do ser, e nos lançaram na penumbra da ignorância.
E nesse tempo, nos aprisionaram. Nos usaram a fim de satisfazer interesses egocêntricos de uma nobreza larápia que mascararava suas intenções sob o pretexto da vontade divina. Dissimularam desejos e enxovalharam a essência da fé.
Nesse tempo, nossas vozes roucas gritavam a ouvidos surdos, e se calavam perante o medo do inferno.

Depois desse tempo, acreditamos que não nos era necessário temer o inferno, talvez já vivessemos nele. E recuperamos nossa voz, e passamos a gritar alto a ouvidos ainda surdos. Nesse tempo, ignoramos a fé. E já não tinhamos mais medo da morte. Matamos e morremos, e nossos cadáveres eram lançados nas sendas sem rumo regadas a sangue. Nos revoltamos contra Deus e queimávamos a bíblia, e publicavamos manifestos declarando a inexistência de Deus. Sem nos darmos conta de que nos rebelávamos na verdade contra um deus que nos forçaram a crer, projetando nessa imagem infiel de Deus toda a nossa indignação. Nesse tempo, a angústia tomou conta de nós, e a opressão permaneceu nos calando, e nossas vozes permaneceram altas e mudas.

Depois desse tempo, uma burguesia vigarista tomou o lugar de uma nobreza larápia, e permanecemos gritando, e nossas vozes eram caladas pelo revolucionário liberalismo, e vivemos na era de uma tirania absoluta, tão opressora quanto o próprio absolutismo. Permanecemos gritando, crendo que Deus era a causa de nossos problemas, imputando a culpa alheia dos interesses manipuladores nEle... Nesse tempo nossas vozes permaneceram tão altas quanto mudas.

Depois desse tempo, vivemos o despontar capitalista, e a livre competição dos mercados no acúmulo de capital, pareceu nos insinuar a tão sonhada liberdade. Nos fizeram acreditar que dominávamos o mundo, e que a globalização encurtava as distâncias e igualava as desigualdades outrora existentes. Fomos todavia iludidos. A liberdade se concretizou nos interesses das multinacionais. A união não foi além de práticas de cartel e oligopólios massificantes. Nos desorganizamos. A fome nos faz cometer atrocidades, a angústia nos mata todos os dias, e em um mundo onde há mais dinheiro do que riqueza, nossos gritos de indignação se confundem com os barulhos de máquinas que trabalham incessantemente. Nossas vozes, permanecem altas e mudas. Nossos princípios se confundem lá com fanatismos religiosos e aqui com uma descreça profunda. Deus há muito foi retirado de nossos sonhos, e substituido por uma materialização de nossos desejos, sua imagem disforme se adaptou a nossos interesses, e em plena luz do dia permanecemos em trevas.
Nesse tempo, acreditamos em ilusões e a sabedoria se perdeu com o conhecimento, e o conhecimento se perdeu com a informação, e não nos resta nada além de devaneios utópicos e fetiches inalcansáveis.

O que nos aguarda em tempos futuros? Se permanecemos gritando a ouvidos surdos, se a opressão permanece oprimindo, e se até a dor já não nos assusta? O que nos aguarda senão a angústia e a desilusão? Onde colocamos nossa esperança? O que será de nós quando chegar nosso fim, e formos pó? Transmitiremos a futuras gerações o legado de nossas angústias? Transmitiremos a nossas decendências um viver inóspido em uma terra alheia de nós? Permaneceremos gritando a quem não nos ouve? Permaneceremos crendo na visão equivocada que nos forçaram a ter de Deus? Permaneceremos criando um deus a nossa imagem, colocando sobre essa criação nossos interesses?

Se não nos for possível mudar a cruel realidade de nossos tempos que manipula nossas vidas e determina nossas desgraças, ainda nos resta a esperança... Se nossas vozes permanecerem caladas a ouvidos surdos, e se nossos gritos roucos permanecerem inaudíveis, Deus ainda nos será por esperança, o Deus real, e não o deus manipulado por nós. Ai não está a solução de todos os problemas, mas exatamente ai, reside a solução de nossas vidas. Precisamos de algo que transcede o material. Precisamos de um Deus real, e nesses tempos de angústia, precisamos da fé.