sexta-feira, 4 de maio de 2012

Sorrisos




          Era uma tarde de quinta feira. Eu havia passado o dia fora de casa estudando. Naquele momento me encontrava na sala de estudos da biblioteca do espaço cultural e sentia fome. Interrompi meus estudos e fui até a cantina buscando algo que pudesse comer... Os estudos me cansavam, estava esgotada e saturada de informações.
          Chegando até a cantina, pedi um lanche para o rapaz que veio me atender. Enquanto comia, observei. O moço trabalhava com sua mãe, e enquanto mãe e filho trabalhavam, conversavam e sorriam em uma mutualidade recípocra que me gritava e me chamava à introspecção. A felicidade saltava de suas faces e a simplicidade de suas vestes. O menino usava óculos e a senhora sua mãe um avental. Não me lembro direito de suas expressões faciais, mas lembro-me que sorriam.
          Confesso ter me sentido ridícula, tentei me esconder atrás do balcão. Eu correra tanto, me esforçara tanto, estudara tanto... E aqueles dois ali, vivendo, sorrindo... Eu cansada, esgotada, um dia inteiro fora de casa, longe da família... E aqueles dois ali, vivendo, sorrindo... Estava preocupada, estressada, triste... E aqueles dois ali, vivendo, sorrindo... Desconheço suas dificuldades, desconheço seus medos e dores. Mas conheço aquele momento que em sua incautidão me devolveu a mim. Encontrei a ausência, que há tanto buscava. Me perdi.
          Sorrisos em sua simplicidade me ensinavam o que aqueles livros que eu deixara empilhados na mesa foram incapazes de mostrar-me.  A vida tão idealizada por mim, talvez fosse mais simples, muito menor que minhas idealizações e muito maior que meus devaneios. O sol se punha mais adiante, os carros passavam pela avenida, pessoas entravam e saiam, o mundo girava, a Grécia estava a beira da falência, a Europa pensava em estratégias de superação da crise, o dólar acentuava a queda no câmbio externo, o real se valorizava, os ambientalistas discutiam a Rio +20,  os economistas faziam novas previsões para a bolsa de valores, as buzinas na avenida, os engarrafamentos nas rotatórias, o mundo em caos... E aqueles dois sorrindo...
          Repeti quatro vezes o lanche, e o rapaz diante da minha fome escancarada sorria.
          O contraste entre nós era o mesmo causado pelo preto no branco. Me desfiz perante aqueles dois, me desarmei, me encontrei. E no âmago de minhas introspecções compreendi que a vida talvez fosse muito menor que meus planos e muito mais profunda que minhas superficialidades. Sorrisos, quarenta minutos, e um renascer pra um mundo que há muito já não me comporta.
          Tive que ir. Não pude me despedir da senhora, mas me despedi daquele rapaz com um "muito obrigada" e um sorriso. E ele? Ah, ele sorriu para mim...
           A vida é simples.