Ao longo da vida presenciamos momentos que nos tiram da meodicridade de nosso egoísmo exclusivista e nos elevam até os píncaros do sublime. Tais momentos - capazes de executarem mudanças complexas-, muitas vezes escondem-se atrás da simplicidade incauta. Estes instantes me remetem a uma reflexão introspectiva, a qual me leva a concluir que a grandiosidade magnificente talvez seja a própria simplicidade, pois é dentre as frestas do simples que me deparo com o complexo e sublime.
Foi em um Sábado pela manhã que tive o privilégio de achar-me vivendo um momento assim. Eu visitava uma igreja em uma localidade pobre. As pessoas por todas as partes carregavam em seus traços as marcas de uma vida causticada pela escassez. Neste contexto, conheci Ana Ryzia, uma criança, que na inocência de sua espontaneidade me proporcionou aprender em poucos instantes lições de uma vida inteira.
Já era dada a hora do fim do culto. As pessoas se retiravam da igreja. No final do corredor pelo qual passávamos, vi uma menina. Era pequena, sua pele era morena, seus cabelos lisos e curtos eram castanhos claros, quase loiros. Seu rosto rechonchudo trazia marcas indígenas, e os olhinhos oblíquos que lhe pertenciam, me observavam atentamente. Olhei para ela, sorri e pisquei. A menina me retribuiu o sorriso e me deu uma piscadela desconcertada. Permaneceu me observando. Eu procurava desviar o olhar, evitando uma situação constrangedora, mas a criança insistia em me observar, provando não se importar com etiquetas e formalidades. Tal atitude por parte dela me levou à meus primórdios existenciais, nos quais cerimônias superficiais não me eram relevantes. Adotando novamente antigos conceitos, permaneci sorrindo para Ana Ryzia, que me correspondia com um sorriso cada vez mais largo.
Alguém conversou comigo, interrompendo a troca de sorrisos, mas Ana continuava inerte, e, encostada num banco, permanecia me olhando atentamente. Findada a conversa, dei alguns passos em direção a porta de saída. De repente, aquela menina de olhos estreitos, porém sorriso largo, veio correndo em minha direção e me deu um abraço forte. Surpresa , retribuí o abraço. Jamais senti um abraço como aquele, que forte, contudo lânguido, se mostrava paradoxal. Talvez representasse o próprio paradoxo existencial humano no qual me achava imersa. Senti a dialética de um abraço que fisicamente fraco era emocionalmente forte. A inocência infantil enlevava o ato de Ana. Troquei algumas palavras com ela, foi assim, que descobri seu nome, e os poucos oito anos de vida que possuía.
Perguntei-me como poderia um abraço significar tanto. Desencobrindo fetiches e devaneios recônditos, aquele abraço me rememorou propósitos perdidos ao longo dos caminhos existenciais longamente tortuosos. As lições que aprendi recebendo um abraço se tornaram ainda mais intensas e significativas quando me dei conta do contexto sócio-cultural que circundava a menina.
Após o abraço e o curto diálogo, me dirigi ao carro. Enquanto eu entrava no carro, Ana Ryzia passou sorrindo e acenando, sentada na garupa da bicicleta do pai, dividindo espaço com outra criança. Foi aí que me dei conta de que a pobreza era evidente. Aquela criança vivia no sertão Cearense, onde a seca castigava, e os meios de sobrevivência são escassos. Não vi sua mãe, talvez a menina sequer tivesse mãe.
Senti vontade de sair correndo atrás da bicicleta que levava Ana, talvez eu pudesse pedir outro abraço a ela, outro abraço que como aquele, devolvesse a minha ingenuidade infantil – perdida ao longo do tempo-, e me fizesse enxergar o sentido óbvio da vida. Sua simplicidade e pobreza eram complexas e ricas. Ainda agora, causa-me admiração o contraste entre seu sorriso, juntamente com seu abraço tão espontâneo, e a pobreza na qual a menina estava imersa. Caio novamente em uma reflexão introspectiva que faz com que eu me indague a respeito do significado da pobreza, e as dimensões do sofrimento. De onde viria a força que Ana tinha para sorrir? De onde a menina tirava a alegria e a espontaneidade, para abraçar assim uma estranha que apenas lhe sorrira? O que teria ela visto em mim? Acreditar nas pessoas, enxergar o positivo. Estes conceitos e princípios saltavam dos gestos da menina, me fazendo ouvir o inaudível e sentir o que não se vê.
Talvez, eu não tenha outra vez a oportunidade de encontrar Ana Ryzia. Mas permanecerá intacta em minha mente a lembrança deste abraço, que agora tão distante permanece ainda próximo. Que tão dialético objetivo e simples, me trouxe até os recônditos de meu infinito particular, e ao passo que resgatou, também criou em mim o que ora se perdeu, ora nunca existiu. Como agradecer a essa criança cheia de contrastes, que em sua ingenuidade inocente, me fez tão bem? Permanece a dívida eterna, permanece o vácuo constante, de um agradecimento que jamais se concretizará, mas que em sua impossibilidade me resgata, e me leva a crer em anjos humanos, que cruzam meu caminho com objetivos específicos, me leva a crer em um Deus, com um poder superior, que ensina o que me falta aprender, que estabelece comigo diálogo sem palavras. Nas frestas da simplicidade deste momento, enxerguei a grandiosidade magnificente, doravante inescamoteável de mim.
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sábado, 14 de janeiro de 2012
Esperança para os quandos
Quando meus olhos fecharem-se pela derradeira vez, marcando o final de uma existência humana, verei um futuro.
Quando eu observar o reflexo de meu rosto em um espelho, e me deparar com as rugas – marcas do tempo-, quando meus cabelos alvejarem-se, quando meus sentidos tornarem-se lânguidos - esvaindo-se de mim as percepções-, quando minha visão for turva, minhas forças fracas e meu prazer esquecido; ainda sob tais circunstâncias, olharei avante, enxergando um futuro.
Quando o mundo repentinamente desabar sobre mim, quando o fim chegar inesperadamente (a existência humana é periclitante), ainda ali, em um lapso inesperado, em meio à iminência de um final, estertores darão lugar a paz, pois o futuro existirá.
Quando a dor me castigar, quando a periclitância me atingir, quando o passado me atormentar, quando o presente me angustiar, olharei além e verei um futuro.
Porque a cruz (símbolo da redenção) me leva até a esperança, a angústia inexiste. A morte deixa de ser o fim, tornando-se o princípio.
Quando, após a vida causticante, meus olhos fecharem-se, não fechar-se-ão eternamente. Haverá um futuro, um dia se abrirão e verão á Deus, a razão de meu porvir, o motivo de minha esperança. “Eu o verei com meus próprios olhos e Ele já não será um estranho para mim”.
Se algum dia os “quandos” tornarem-se reais, não temerei, há esperança para os “quandos”. Que paz preenche as lacunas da minha alma, que esperança há em saber que já não há mais fim.
Quando eu observar o reflexo de meu rosto em um espelho, e me deparar com as rugas – marcas do tempo-, quando meus cabelos alvejarem-se, quando meus sentidos tornarem-se lânguidos - esvaindo-se de mim as percepções-, quando minha visão for turva, minhas forças fracas e meu prazer esquecido; ainda sob tais circunstâncias, olharei avante, enxergando um futuro.
Quando o mundo repentinamente desabar sobre mim, quando o fim chegar inesperadamente (a existência humana é periclitante), ainda ali, em um lapso inesperado, em meio à iminência de um final, estertores darão lugar a paz, pois o futuro existirá.
Quando a dor me castigar, quando a periclitância me atingir, quando o passado me atormentar, quando o presente me angustiar, olharei além e verei um futuro.
Porque a cruz (símbolo da redenção) me leva até a esperança, a angústia inexiste. A morte deixa de ser o fim, tornando-se o princípio.
Quando, após a vida causticante, meus olhos fecharem-se, não fechar-se-ão eternamente. Haverá um futuro, um dia se abrirão e verão á Deus, a razão de meu porvir, o motivo de minha esperança. “Eu o verei com meus próprios olhos e Ele já não será um estranho para mim”.
Se algum dia os “quandos” tornarem-se reais, não temerei, há esperança para os “quandos”. Que paz preenche as lacunas da minha alma, que esperança há em saber que já não há mais fim.
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
Paradoxo do vazio dialético
Meus olhos percorrem espaços vazios em uma materialização do meu interior. O vazio das coisas, o vazio do interior. O vazio de fora não existiria se não houvesse o vazio de dentro. Olhares vazios e não ausentes. A saudade do que não existiu e jamais existirá. A saudade da utopia inexistente, calada materializada se desfaz. Ser incauto experiente. Fica o que resta, o que resta é nada, o nada é vazio. Um abismo escuro em meu interior apavora-me. Fica a distância próxima, inexistente que estagnada se movimenta. Duas partes controversas de quem sou encontram-se fazendo de mim paradoxo vivente. Espetáculo existencial que revela a complexidade humana incompreensível. Sentimentos silenciosamente falantes, pavorosamente tranquilizantes. A tristeza sorri trazendo alegria. Vazio cheio. Vazio saudoso, utópico, apavorante, tranquilizante, longínquo e próximo. Porque a lógica introspectiva está em não haver lógica alguma. Paradoxo do vazio dialético, doravante inescamoteável de mim.
Feliz ano novo!
Era virada de ano e eu, juntamente com minha família aguardava na praia a chegada da meia noite para ver a atração principal que eram os fogos de artifício.
As pessoas estavam vestidas de branco, desejavam para si prosperidade e mais riquezas. Próximo à praia, estacionados, uma exposição dos mais novos e caros modelos de carro. Muitos traziam consigo garrafas de champanhe e vinhos de alto preço para comemorar o início de 2012 com um toque de arrebatamento dos próprios sentidos. Era um luxo dispensável, contudo ordinário ali.
Às zero horas de primeiro de janeiro de 2012 iniciaram-se as exposições dos fogos de artifício. Um exemplo de pirotecnia, um orgulho para a direção da cidade, um alto investimento financeiro.
Findada a magnífica exposição pirotécnica ouviram-se os aplausos e gritos, seguidos de abraços e votos de feliz ano novo uns aos outros.
Imersa em minhas reflexões, observava a cena julgando aquilo belo, presumindo presenciar naquele momento, a união de diferentes personalidades, ligadas através dos vínculos da humanidade. Um momento formoso em que pessoas revelam-se iguais, com sonhos e vulnerabilidades, aderidas umas às outras pelo elo do humanismo. E neste ponto, eram todos semelhantes, estavam todos juntos desejando uns aos outros um feliz ano novo.
Em meio a todas aquelas observações introspectivas, olhei mais amplamente e vi um senhor inerte. Sentado e encostado em um poste, vestindo roupas desgastadas pelo uso constante. Seu olhar era ausente, não parecia animado com os fogos. Entre suas pernas havia um pote de plástico. O senhor mendigava, pedia dinheiro para alimentar-se. Em seu rosto, as marcas da pobreza e sofrimento. Não havia recebido votos de felicidades para o próximo ano.
Mais adiante, uma família dormia no chão, faziam de caixas de papel colchões. Dentre os pais, junto ao seio da mãe, próximo ao peitoral do homem, um bebê de aproximadamente seis meses. Dormiam. A data parecia não significar grandes mudanças na vida daquelas miseráveis criaturas enxovalhadas pelo sofrimento. A multidão de comemorantes ignorantes passava perto deles, ignorando suas misérias, praticamente pisando em seus corpos lânguidos e vulneráveis. Alguns em um sentimento de compadecimento amoroso comentavam uns com os outros a desgraça da família. Todavia ao virarem a esquina entregavam-se às comemorações luxuosas, esquecendo-se completamente dos seres humanos submergidos pelas ondas da dor. Outros ainda seguravam fortemente as mãos de seus filhos, ordenando que não passassem próximo a eles, como se por estarem mais pobres, fossem maus. Ou talvez desejando que os filhos não fossem marcados por aquela cena horripilante da realidade, possivelmente causadora de alguma espécie de desconforto emocional.
Subitamente minhas reflexões sofreram baldeações e mudaram radicalmente sua lógica. Talvez o que unisse aquelas pessoas não fosse a condição humana. Talvez fosse algo mais abstrato e distante, como a condição social.
Apeguei-me àquela verdade crua e dolorosa, revelada pela dialética de minhas observações. Verdade esta doravante inescamoteável de mim.
As pessoas estavam vestidas de branco, desejavam para si prosperidade e mais riquezas. Próximo à praia, estacionados, uma exposição dos mais novos e caros modelos de carro. Muitos traziam consigo garrafas de champanhe e vinhos de alto preço para comemorar o início de 2012 com um toque de arrebatamento dos próprios sentidos. Era um luxo dispensável, contudo ordinário ali.
Às zero horas de primeiro de janeiro de 2012 iniciaram-se as exposições dos fogos de artifício. Um exemplo de pirotecnia, um orgulho para a direção da cidade, um alto investimento financeiro.
Findada a magnífica exposição pirotécnica ouviram-se os aplausos e gritos, seguidos de abraços e votos de feliz ano novo uns aos outros.
Imersa em minhas reflexões, observava a cena julgando aquilo belo, presumindo presenciar naquele momento, a união de diferentes personalidades, ligadas através dos vínculos da humanidade. Um momento formoso em que pessoas revelam-se iguais, com sonhos e vulnerabilidades, aderidas umas às outras pelo elo do humanismo. E neste ponto, eram todos semelhantes, estavam todos juntos desejando uns aos outros um feliz ano novo.
Em meio a todas aquelas observações introspectivas, olhei mais amplamente e vi um senhor inerte. Sentado e encostado em um poste, vestindo roupas desgastadas pelo uso constante. Seu olhar era ausente, não parecia animado com os fogos. Entre suas pernas havia um pote de plástico. O senhor mendigava, pedia dinheiro para alimentar-se. Em seu rosto, as marcas da pobreza e sofrimento. Não havia recebido votos de felicidades para o próximo ano.
Mais adiante, uma família dormia no chão, faziam de caixas de papel colchões. Dentre os pais, junto ao seio da mãe, próximo ao peitoral do homem, um bebê de aproximadamente seis meses. Dormiam. A data parecia não significar grandes mudanças na vida daquelas miseráveis criaturas enxovalhadas pelo sofrimento. A multidão de comemorantes ignorantes passava perto deles, ignorando suas misérias, praticamente pisando em seus corpos lânguidos e vulneráveis. Alguns em um sentimento de compadecimento amoroso comentavam uns com os outros a desgraça da família. Todavia ao virarem a esquina entregavam-se às comemorações luxuosas, esquecendo-se completamente dos seres humanos submergidos pelas ondas da dor. Outros ainda seguravam fortemente as mãos de seus filhos, ordenando que não passassem próximo a eles, como se por estarem mais pobres, fossem maus. Ou talvez desejando que os filhos não fossem marcados por aquela cena horripilante da realidade, possivelmente causadora de alguma espécie de desconforto emocional.
Subitamente minhas reflexões sofreram baldeações e mudaram radicalmente sua lógica. Talvez o que unisse aquelas pessoas não fosse a condição humana. Talvez fosse algo mais abstrato e distante, como a condição social.
Apeguei-me àquela verdade crua e dolorosa, revelada pela dialética de minhas observações. Verdade esta doravante inescamoteável de mim.
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