quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Amor

Tinha algo a ver com o sol que se punha diante de mim e me evocava aquela remota sensação de fim. A essas horas do dia o medo, o ciúme e a angústia mesclavam-se em tons de vermelhidão e coloriam o céu. Sim, eu tive medo. Medo das frestas, dos vazios, dos ocos da vida. Aquilo ainda não resolvido, o controle que não me foi dado. As lágrimas se difundiam pelas brechas. Incertezas. A vida apresentava-se assim. Dúbia, incerta, avermelhada. Meus olhos a essas alturas da vida, nem sempre escolhem voltar-se para a frente. Normalmente focam o chão, o vermelho, o nada. Mas nesse pôr do sol olhei. E vi. Um casal de idosos andando pelo parque de mãos dadas. Uma miragem distante. Quem eram? E por qual motivo amavam a essa altura da vida? Cabelos brancos, mãos dadas, sorrisos estampados, disposição. Pareciam amar. E amavam em meio a um pôr do sol! E se a vida não fosse apenas dúbia, incerta e avermelhada? E se houvesse algo de mais brilhante, belo e vivo a frente dos ocos? O amor! Julguei ter visto uma vertente do amor. E me senti amada. Não havia braços a me envolver. Não havia mãos a encontrarem minhas mãos. Não havia palavras audíveis ou visíveis para me fazer acreditar que era amada. Mas havia algo de divino ali, naqueles velhinhos companheiros, naquela visão que pude ter. Senti Deus. E Ele não estava tão distante, remoto e vermelho. Ele estava comigo e me amava tanto que me fez enxergar o amor em meio ao pôr do sol!
Tinha algo a ver com o sol que se punha diante de mim e me evocava uma nova sensação. Amor. A essas horas do dia, o fim era a certeza do recomeço. Certo como um dia após o outro, Deus iria me envolver de amor. Sim, eu sorri. E vi o sol fugir. Ficou a noite que me fez dormir e amanhecer com a certeza de que a vida não era dúbia, incerta ou avermelhada. Era amável!

domingo, 11 de agosto de 2013

Flor dos sonhos

Hoje acordei sentindo-me frágil. Algo a ver com as flores dos sonhos que permearam de expectativas minha infância. Aquelas que me diziam ter o poder mágico de realizar meus sonhos caso eu espalhasse suas pétalas brancas com o sopro de minha boca. E eu as soprava, e o menor esforço espalhava pequenas pétalas sem rumo, que poderiam ir a qualquer lugar carregadas de sonhos infantis. Hoje acordei sentindo-me uma flor dos sonhos. Aquelas pétalas brancas com cor de algodão pareciam ser eu-inteira até que o menor vento soprasse em mim-. Tive medo. De onde viria o vento que sopraria e me espalharia sem rumo a qualquer lugar? De onde viria o vento que esfacelaria meus sonhos – infantis ou maduros-? De repente me vi impotente. De repente eu era frágil. 
Foi quando minha frágil condição tornou-se alvo de milagres. São momentos nos quais a solidão e a incerteza permitem a atuação dAquele que traz em si a vida que me sustém. Ele tomou em Suas mãos minha flor dos sonhos, a protegeu de ventos alheios que lhe tirariam o rumo e soprou nela seu vento. Milagre. Eu já não estava assim tão solta. O vento que Ele soprou em mim me levaria ao rumo certo. Aos poucos meus medos se dissipam. Não como uma transformação mágica e repentina, mas a medida que compreendo que o sopro dEle habita em mim e que a vida que pulsa em mim é dirigida por Ele. Minha pequena flor dos sonhos descansou segura em mãos dEle. Hoje aprendi que posso ser forte.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Vida


Hoje acordei sentindo-me viva.  A cabeça pesada e dolorida. O corpo inflamado e quente. Os cabelos levemente enrolados e umedecidos.  A face livre de adornos. A pele queimada. As unhas por fazer. A voz rouca. Tudo tão primitivo, tão natural. A vida selvagem do início das manhãs, a distância confortante dos estereótipos. A vida. Uma vida que se instaurava agora tão feminina. Sentia-me mulher. Longe dos salões de beleza, longe das lojas e dos shoppings, longe das roupas, dos saltos, das maquiagens. Sentia-me mulher no sentido mais humano dado ao substantivo. Tudo aquilo que independia do primeiro sutiã, da primeira menstruação, do primeiro salto, do primeiro namorado, da primeira maquiagem. Tudo aquilo que destoava do sentido sócio-cultural feminino e, no entanto evocava-me uma  sensação naturalmente mulheresca, fazendo-me sentir bela.  Beleza que saltava da vida. Beleza que independia de olhares alheios, de amantes semotos, de admiradores vazios. Beleza primitiva que evocava introspecção. E tudo colaborava. A dor e o incômodo tornavam-me sensível à vida. Lembravam-me que a sensibilidade era uma forma prática de distinguir vivos de mortos. E acaso não era isso também que me tornava humana? Hoje acordei sentindo o constante despetalar da vida. Algo a ver com flores e natureza. As pétalas da flor fecundada que caem e tornam-me fruto. E depois o fruto apodrecendo e tornando-me apenas semente. Aquela casca dura que envolveria o endosperma e o embrião –elementos necessários a vida-,  e tornaria -me impermeável as condições externas, fazendo-me resistente as variações do tempo e ao pisoteio dos homens e animais, sem contudo arrancar-me a essência e a sensibilidade. Pura adaptação ao meio. Pura vida. E não era essa a vida que me saltou aos olhos nessa manhã? Hoje acordei sem medo. Sem medo de arrancarem-me os sonhos, sem medo de abismos, sem medo das frestas. Acordei viva. Acordei mulher. Alma essencialmente feminina, fortemente sensível. E sabia que pouco importaria o número de homens a pisotearem-me. Eu estava viva e a vida estaria protegida em mim.