sexta-feira, 13 de junho de 2014

Aquarela

Quem nunca cantou aquarela quando era criança? Ouvi alguém dizer. Sim, eu havia cantado, pensei. Algo sobre colorir, desenhar um sol amarelo... Mas.. Que mais? Eu não me lembrava. Sim, eu cantava e podia descrever algumas lembranças. Eu desenhando e cantando. Meus colegas de classe ensaiando a música pra fazer uma apresentação.. Mas eu não me lembrava. Era um túnel de lembranças vazias. Não me lembrava do ritmo da música, já não conhecia a letra da música. E talvez.. Talvez houvesse restado pouco dela em mim. Sim. Talvez não fosse só a letra que eu havia esquecido. Talvez a essência de colorir houvesse se perdido em algum lugar da minha vida. E me senti vazia. Me senti sem cor. Eu precisava. Precisava da aquarela. Precisava cantar que eu podia desenhar um sol amarelo que talvez iluminasse meus dias de chuva -e como chovia!-. Mas faltava. Onde encontrar a cor da vida? Aquela alegria de pintar folhas em branco? De imaginar sem a preocupação constante de um amanhã sem cor? A verdade é que eu não sabia. E todo o preto e branco da vida me deixava um gosto amargo de pôr do sol. Sim. Eram momentos nos quais o sol se punha e a vida ficava escura. Escura como se não houvesse cor. Como se eu houvesse perdido em algum lugar tão distante a infância. Como se tivesse perdido minha aquarela contente. E agora a vida sombria. Cheia de indagações quanto ao futuro. Cheia de medo de desamores. Fui me encolhendo. Encolhendo e me fechando. Dava medo. Dava medo viver. Como se a vida fosse um abismo sem cor. Mas sempre havia algo, natural ou sobrenatural, uma manifestação fora do comum que em meio a sensação de caos me trazia.. Esperança. Era isso. Esperança. Uma menina correndo me abraçou sinceramente. Uma criança sozinha me agradeceu um gesto simples. Uma menina pequena de covinhas miúdas me sorriu. E aos poucos fui lembrando. E elas colorindo a minha vida.. Se um pinguinho de tinta cai num pedacinho azul do papel num instante imagino uma linda gaivota a voar no céu.. Sim. Eu lembrava. Lembrava de lápis coloridos que pintavam papeis vazios. Lembrava da aquarela contente. E aos poucos -sim, bem aos poucos porque é aos poucos que se pinta uma vida-, eu fui sorrindo. E talvez, pensei. Colorir fosse bem mais simples do que diziam. Era preciso me abrir com a inocência de uma criança. Era preciso amar. Amar como quem se doa completamente a algo talvez pouco recíproco. Amar com amor que vinha de Deus. Era preciso sonhar, com bolinhos de chuva e amarelinha no quintal. Era preciso imaginar e fazer de um pingo azul uma gaivota. De um sorriso a alegria. De um abraço o conforto. De uma cor a aquarela. Pra que aos poucos, bem aos poucos aquele papel vazio se tornasse uma vida colorida. Como aquelas crianças um dia me lembraram e trouxeram do fundo, lá do fundo de um baú velho que era o passado, as cores de ser criança. E lembrei do que li outra vez. A Terra está cheia do amor de Deus. E estava. Deus me deu uma criança pra me lembrar que a vida era amável. E eu não estava sozinha. E ainda que os desamores me cercassem o consolo de saber que eu havia amado traria de volta a cor da vida. E tiraria o preto e branco e colocaria a cor da esperança. E eu cantava. Cantava que podia desenhar um sol amarelo e fazer de um pingo uma gaivota. Ah, a vida era feliz. Ah, a Terra estava cheia do amor de Deus. Havia a alegria da esperança.  E ia voando, contornando uma imensa curva norte-sul...

domingo, 2 de março de 2014

A vida nas mãos e o calor da descoberta no olhar

Eu tinha a vida nas mãos e o calor da descoberta no olhar. Não confie. Não ame demais. Não se entregue. Tome cuidado. Ame aos poucos. Cuide de você. Meus olhos contemplavam arregalados frases soltas. Tão arregalados quanto no dia em que viram pela primeira vez uma lágrima de tristeza. Procurei algo. O amor. Em qualquer momento. Em qualquer lugar. Eu precisava, suspirava, ansiava. Era tempo de ver o amor. Qualquer coisa. Qualquer ato. Qualquer sorriso. Era preciso amar em tempos de perigo. Era preciso se doar em tempos de solidão. E eu era assim. Sensível ao palpitar das vibrações. Fortes vibrações me consumiam. Eu procurei. Qualquer coisa. Qualquer coisa. Que me lembrasse amor. Não vi. Procurei mais. Estava distante. Era preciso amar com a vida nas mãos e o calor da descoberta no olhar. Mas não havia amor. Um homem gritando com uma mulher. A arrogância. O medo. Uma criança chorando sozinha. Indiferença. Não havia amor. Foi quando li. A terra está cheia do amor de Deus. E vi. Uma mulher perdoando um homem que gritava. Um arrogante pedindo desculpas. Um abraço de amigo. Uma mãe que voltou pra acalentar um choro infantil. Era amor. Digitais de Deus. Palpitando na sensibilidade das vibrações. Me fazendo sorrir. Complexo. Não, nada disso. Amável. Pedi a Deus que me fizesse amar. E Deus me deu a vida nas mãos e o calor da descoberta no olhar. E eu amei. 

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Amor

Tinha algo a ver com o sol que se punha diante de mim e me evocava aquela remota sensação de fim. A essas horas do dia o medo, o ciúme e a angústia mesclavam-se em tons de vermelhidão e coloriam o céu. Sim, eu tive medo. Medo das frestas, dos vazios, dos ocos da vida. Aquilo ainda não resolvido, o controle que não me foi dado. As lágrimas se difundiam pelas brechas. Incertezas. A vida apresentava-se assim. Dúbia, incerta, avermelhada. Meus olhos a essas alturas da vida, nem sempre escolhem voltar-se para a frente. Normalmente focam o chão, o vermelho, o nada. Mas nesse pôr do sol olhei. E vi. Um casal de idosos andando pelo parque de mãos dadas. Uma miragem distante. Quem eram? E por qual motivo amavam a essa altura da vida? Cabelos brancos, mãos dadas, sorrisos estampados, disposição. Pareciam amar. E amavam em meio a um pôr do sol! E se a vida não fosse apenas dúbia, incerta e avermelhada? E se houvesse algo de mais brilhante, belo e vivo a frente dos ocos? O amor! Julguei ter visto uma vertente do amor. E me senti amada. Não havia braços a me envolver. Não havia mãos a encontrarem minhas mãos. Não havia palavras audíveis ou visíveis para me fazer acreditar que era amada. Mas havia algo de divino ali, naqueles velhinhos companheiros, naquela visão que pude ter. Senti Deus. E Ele não estava tão distante, remoto e vermelho. Ele estava comigo e me amava tanto que me fez enxergar o amor em meio ao pôr do sol!
Tinha algo a ver com o sol que se punha diante de mim e me evocava uma nova sensação. Amor. A essas horas do dia, o fim era a certeza do recomeço. Certo como um dia após o outro, Deus iria me envolver de amor. Sim, eu sorri. E vi o sol fugir. Ficou a noite que me fez dormir e amanhecer com a certeza de que a vida não era dúbia, incerta ou avermelhada. Era amável!

domingo, 11 de agosto de 2013

Flor dos sonhos

Hoje acordei sentindo-me frágil. Algo a ver com as flores dos sonhos que permearam de expectativas minha infância. Aquelas que me diziam ter o poder mágico de realizar meus sonhos caso eu espalhasse suas pétalas brancas com o sopro de minha boca. E eu as soprava, e o menor esforço espalhava pequenas pétalas sem rumo, que poderiam ir a qualquer lugar carregadas de sonhos infantis. Hoje acordei sentindo-me uma flor dos sonhos. Aquelas pétalas brancas com cor de algodão pareciam ser eu-inteira até que o menor vento soprasse em mim-. Tive medo. De onde viria o vento que sopraria e me espalharia sem rumo a qualquer lugar? De onde viria o vento que esfacelaria meus sonhos – infantis ou maduros-? De repente me vi impotente. De repente eu era frágil. 
Foi quando minha frágil condição tornou-se alvo de milagres. São momentos nos quais a solidão e a incerteza permitem a atuação dAquele que traz em si a vida que me sustém. Ele tomou em Suas mãos minha flor dos sonhos, a protegeu de ventos alheios que lhe tirariam o rumo e soprou nela seu vento. Milagre. Eu já não estava assim tão solta. O vento que Ele soprou em mim me levaria ao rumo certo. Aos poucos meus medos se dissipam. Não como uma transformação mágica e repentina, mas a medida que compreendo que o sopro dEle habita em mim e que a vida que pulsa em mim é dirigida por Ele. Minha pequena flor dos sonhos descansou segura em mãos dEle. Hoje aprendi que posso ser forte.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Vida


Hoje acordei sentindo-me viva.  A cabeça pesada e dolorida. O corpo inflamado e quente. Os cabelos levemente enrolados e umedecidos.  A face livre de adornos. A pele queimada. As unhas por fazer. A voz rouca. Tudo tão primitivo, tão natural. A vida selvagem do início das manhãs, a distância confortante dos estereótipos. A vida. Uma vida que se instaurava agora tão feminina. Sentia-me mulher. Longe dos salões de beleza, longe das lojas e dos shoppings, longe das roupas, dos saltos, das maquiagens. Sentia-me mulher no sentido mais humano dado ao substantivo. Tudo aquilo que independia do primeiro sutiã, da primeira menstruação, do primeiro salto, do primeiro namorado, da primeira maquiagem. Tudo aquilo que destoava do sentido sócio-cultural feminino e, no entanto evocava-me uma  sensação naturalmente mulheresca, fazendo-me sentir bela.  Beleza que saltava da vida. Beleza que independia de olhares alheios, de amantes semotos, de admiradores vazios. Beleza primitiva que evocava introspecção. E tudo colaborava. A dor e o incômodo tornavam-me sensível à vida. Lembravam-me que a sensibilidade era uma forma prática de distinguir vivos de mortos. E acaso não era isso também que me tornava humana? Hoje acordei sentindo o constante despetalar da vida. Algo a ver com flores e natureza. As pétalas da flor fecundada que caem e tornam-me fruto. E depois o fruto apodrecendo e tornando-me apenas semente. Aquela casca dura que envolveria o endosperma e o embrião –elementos necessários a vida-,  e tornaria -me impermeável as condições externas, fazendo-me resistente as variações do tempo e ao pisoteio dos homens e animais, sem contudo arrancar-me a essência e a sensibilidade. Pura adaptação ao meio. Pura vida. E não era essa a vida que me saltou aos olhos nessa manhã? Hoje acordei sem medo. Sem medo de arrancarem-me os sonhos, sem medo de abismos, sem medo das frestas. Acordei viva. Acordei mulher. Alma essencialmente feminina, fortemente sensível. E sabia que pouco importaria o número de homens a pisotearem-me. Eu estava viva e a vida estaria protegida em mim.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Espasmos

Sinto medo.. Do sonho que se desfaz no palpitar do coração. Da vida que se esvai ao som do entardecer. Da angústia que se acolhe nos entremeios do fim.
Sinto medo... Da nostalgia obsoleta que massacra o tempo vivenciado. Do pretérito que  oculta as artimanhas do futuro. Da felicidade barata oprimida pela rotina. Do pavor que se abriga nas lacunas do sentir.
Sinto medo... De uma coragem imperfeita mesclada à covardia. Das lágrimas que se perdem no soar das vibrações. Da vida ruminada que se desmancha nos compassos dos ecos.
Sinto medo... De temer o improvável, de querer vazios, de amar desvarios, da solidão. De lágrimas acalentadas, da mesmice destrutiva, de sorrisos e sofismas, da indiferença.
Sinto medo de me perder na multidão, de me familiarizar com a solidão, de querer me esconder. De passos em falso, de amores distantes, de amantes semotos, da nostalgia do existir.
Sinto medo. 

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Passos e fastos

Se os passos voltarem.
O mundo parou. O sonho findou. A lua caiu.
A vida calou. O soluço surgiu. O amor gelou. O fôlego esvaiu.
O homem girou, girou e parou. A vida retrógrada oscilou e partiu.

Se os passos avançarem.
A visão turvou. A cegueira matou. O dia nublou.
A anestesia curou a dor que chegou.
O olho secou. A lágrima calou.
O sorriso mudou. A expressão marcou.
O homem olhou, olhou e não viu.
A vida prosseguiu, prosseguiu e caiu.

Os passos avançaram, regrediram e desviaram-se. A vida seguiu e o homem sorriu.