"A tragédia deste mundo é que ninguém é feliz, não importa se preso a uma época de sofrimento ou felicidade. A tragédia deste mundo é que estão todos sozinhos. Pois uma vida no passado não pode ser partilhada com o presente." (Alan Lightman, Sonhos de Einstein, 1993)
Absorto e enfetiçado pela primeira visão do mar, João segurava a mão de sua mãe. As ondas que iam e vinham, a areia a cobrir-lhe os pés, o azul do céu a mesclar-se com o azul do mar... Tudo tão inédito, tão surpreendente! A mãe contemplando a alegria do filho, sentia seus esforços recompensados. Desde que ouvira João comentando seu sonho de ver o mar, economizara em tudo. Trabalhava durante o dia como empregada doméstica e durante a noite como garçonete. Há mais de três anos não comprava nada para si e seu salário destinava-se às despesas do dia-a-dia e às economias para realizar os desejos de uma criança amada.
Passaram bons dias naquela praia. Não havia luxo, não havia requintes... Havia tão somente uma mãe e um filho, que descobriam na companhia mútua uma felicidade pura e simples.
Os anos correram, João cresceu. Todo o seu desejo infantil, vagamente ingênuo, tomara a forma de sonhos amadurecidos. Dinheiro e felicidade. Esses dois elementos unidos e inseparáveis, motivavam sua vida agora. Nos bastidores uma mãe já senhora concentrava suas lânguidas forças na realização dos sonhos de seu amado João, com um amor materno que o tempo não enfraquecera. Seu salário agora destinava-se aos estudos do jovem, que talvez inconscientemente, lembrando de sua primeira experiência com o mar, julgava poder encontrar aquela mesma alegria ao estudá-lo. Queria ser oceanógrafo. As exigências do estudo o obrigaram a afastar-se de casa, deixando distante, uma mãe que ainda provia seu sustento.Depois de concluir o curso, o trabalho manteve João fora de casa. Passava dias viajando mar adentro, possuia dinheiro, faltando apenas a felicidade. A rotina tornou o contato com a mãe escasso. A mãe sozinha recebia do filho dinheiro, faltando apenas o amor. O oceano que outrora os unira, os separava agora. A tão sonhada felicidade se perdeu na ambição pelo dinheiro, e ambos antes unidos em sonhos, se separavam com a realidade.
Certo dia chega ao renomado oceanógrafo a notícia de que sua idosa mãe falecera. Ele não pode despedir-se dela, o mar os separava. Aquele homem de cabelos grisalhos e olhar ausente, contempla agora as ondas que batiam no casco de seu navio, e lhe traziam de volta as memórias de sua infância.
Absorto e enfetiçado pela dor, João contempla em solidão o mesmo mar de sua meninice, que agora o separava da alegria. As lágrimas caindo de seus olhos a mesclar-se com a água do mar, o sol se pondo no céu... Tudo tão monótono, tão nostálgico! Do outro lado do mar, sua mãe morta. Do outro lado da vida, uma felicidade esquecida. Entre eles o vácuo do passado, o vazio da ausência, e uma saudade distante... Ah mar...