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sábado, 5 de novembro de 2011
Memórias
O melhor presente: Eu ia fazer dez anos. Minha família estava passando por uma séria crise financeira. Nós não tinhamos dinheiro. Eu possuia uma mente infantil e incapaz de compreender tudo o que estava acontecendo, mas eu sabia que as coisas estavam difíceis. Tinhamos acabado de voltar de Redenção no Pará. Viajamos mais de 5000 kilômetros em um palio velho e apertado. Lembro que o dinheiro começou a faltar, e depois de 3 meses morando em um hotel, e muitas coisas dando errado no trabalho de meu pai, voltamos pra Londrina. Me lembro do rosto de minha mãe pensativo, me lembro das orações fervorosas, me lembro das lágrimas dela. Dificilmente ela nos deixava transparecer, mas eu percebia a preocupação em seu rosto.
Foi nesse contexto que recebi o melhor presente da minha vida. Um mês depois que voltamos pra Londrina, foi o meu aniversário. Minha mãe me chamou, olhou nos meus olhos e disse: "Amanda, você sabe que a gente tá passando por momentos dificeis né? Sabe que o papai e a mamãe não tem como te dar o presente que você quer nesse ano. Mas a gente não vai esquecer do seu aniversário, e eu vou te dar um presente diferente." Senti (como sinto agora) um nó na garganta, não por não ganhar presente, mas por ver o esforço de minha mãe. Um dia, quando eu saí de casa e fui pra varanda, a vi sentada em um murinho, com uns pedaços de pano antigos que ela tinha guardado, ela os cortava e remendava. Ao seu lado, estava uma boneca velha que eu tinha (e tenho até hoje). Perguntei pra minha mãe o que ela fazia, e porquê estava com a Ana Paula (a boneca) ali. Ela me disse que fazia o meu presente. Eles eram roupas pra Ana Paula. Minha memória preserva intacta aquela cena. Eu me sentei ao lado de minha mãe e fui ajuda-la com as roupas da Ana Paula. Aquilo foi bom. As lágrimas rolam pela minha face quando eu lembro disso. Esse foi o meu melhor presente. Não custou dinheiro, não foi um brinquedo caro. Mas tinha algo que os brinquedos da loja não tinham, tinha amor. Não que os outros presentes que eu recebi não tivessem amor, mas aquele era uma sistematização desse amor. E estes retalhos antigos e floridos se tornaram pra mim um símbolo de cuidado. Não há nada superior a isso. Podem se passar os anos, mas sempre que eu me lembrar de presente, me lembrarei deste. Esta é uma das memórias que carregarei por toda a vida. Minha mente continuará preservando sem divergências a imagem daqueles retalhos. Eram azuis, tinham flores vermelhas. Pra qualquer um que o visse, eram apenas panos velhos, mas pra mim, era o próprio amor em um tecido.
A oração de meu pai: Estávamos fazendo um culto de pôr do sol, neste culto cantamos o hino "oração para uma criança" foi o hino cantado na minha apresentação a igreja. Quando terminamos de cantar, meu pai leu os seguintes trechos do hino: "Vem guiar os Seus passinhos, ensina-lo a caminhar no seguro e bom caminho, e em tua força confiar. Vem livra-lo da maldade que este mundo pode impor, Pai querido cuida dele, dá a ele o teu amor." E depois disse- "essa tem sido a minha oração dia após dia, durante todos os dias da vida de vocês, sem falhar nem um dia sequer".
Talvez seja por isso que eu sinto paz. Por isso que inexplicavelmente em momentos difíceis, sinto Deus me proteger. Talvez seja por isso que tenho aprendido a confiar em Deus. A oração de meu pai, todos os dias, sem falhar nem um dia sequer, é outra coisa que vai me acompanhar durante a vida toda. Os dias podem se passar, mas a minha memória continuará preservando intactas as palavras de meu pai. Fortes mãos vêm me esconder de perigos que eu não posso ver. Eu sei que acima de tudo, não estou sózinha nessa caminhada. As orações de meu pai me acompanham. Quantas vezes despertei durante a noite e vi ao lado de minha cama o meu pai ajoelhado orando por mim. A sua oração diária e incessante é o que não me permite desistir. É o que me ajuda a prosseguir.
Hoje me ajoelhei e agradeci a Deus por tudo isso, por todas essas memórias que me acompanham e sempre me acompanharão. Isso é parte do que sou, e nisso consiste a minha vida, deixar de lembrar dessas coisas é simplesmente deixar de viver. Enquanto houver vida, haverão memórias.
Beleza
Eu estava observando a rua, quando entrou em meu campo de visão uma senhora obesa e idosa que limpava a calçada de seu estabelecimento comercial. Vi aquilo e pensei- qual foi a vida dessa mulher? Será que algum dia ela já foi bonita?-. Enquanto meus pensamentos se formavam em minha mente, não pude deixar de observar a dedicação empregada por ela para realizar o seu trabalho árduo. E de repente pensei- Não há como saber se algum dia ela já foi bonita segundo os padrões sociais mas uma coisa é certa, existe beleza nessa senhora. E essa beleza não se silenciou com o tempo, nem com os seus cabelos brancos ou com as rugas, que são um lembrete constante da efemeridade da vida. Essa beleza transpôs as barreiras do tempo, e talvez por isso seja bela-.
O que é beleza? A observação da realidade me leva a crer que a beleza vai além do exterior. É algo mais profundo e mais subjetivo do que padrões de uma sociedade capitalista. Muitas vezes a beleza passa despercebida porque estamos circunflentes a uma alienação que nos move a acreditar que o belo está no exterior. Como resultado, adquirimos uma visão limitada.
Há pessoas bonitas por todas as partes. Por trás de rostos disformes - ora pelo tempo, ora pela própria natureza- muitas vezes existem personalidades belas. A vida seria mais bonita se nos permitissemos analisar essas belezas.
Olhei novamente para aquela mulher. Em cada ruga vi a beleza da luta . Em cada cabelo branco vi a beleza da experiência. E todas as vezes que ela limpava o suor e varria a calçada, vi a beleza da persistência. Vi uma mulher bonita. Ela não usava maquiagens, não vestia uma roupa atraente, não usava sapatos caros. Mas trazia em cada ato retratos de uma vida, e isso era o suficiente para torna-la bela. Mais bela do que mulheres bem vestidas e bem cuidadas, mais bela do que modelos e artistas. E era bela assim, por continuar lutando e vivendo.
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
Luas
Talvez essa lua represente tudo o que é presente e constante. Com o tempo temos a tendência de esquecermos das belezas de todos os dias. Nossa vida torna-se mera rotina. Esquecemos de agradecer. Tornamo-nos escravos da monotonia.
Hoje resolvi reparar nas "luas" da vida. Me ajoelhei e agradeci a Deus pelas "luas" que Ele me concedeu. E vi que a vida é bela, impressionantemente bela, extremamente bela. Essa beleza me assombra e me maravilha, ultrapassa meu entendimento.
O tempo da vida
Na primeira sílaba
A consoante esvanecida
sem que a língua atingisse o alvéolo.
O que jamais se esqueceria
Pois nunca principiou a ser lembrado.
O campo- Havia, havia um campo?
irremediavelmente murcho em sombra
antes de imaginar-se a figura
de um campo.
A vida não chega a ser breve" Carlos Drummond Andrade
"A vida não chega a ser breve", não poderia ser. A proximidade do fim faz com que tudo se pareça breve. Pudéssemos viver mil anos, e ao findar esses mil anos ainda diriamos que a vida foi mero sopro, mera ridicularia. Não é a vida que é curta, é o fim que torna o tempo decorrido anteriormente insignificante perante o abismo da morte. Ao se comparar o tempo da vida com outros tempos, a vida se mostra longa. Entretanto quando enxergamos seu remate, observamos a efemeridade do tempo. "A vida não chega a ser breve", talvez seja o tempo, que quando analisado sob as óticas de outros referenciais, se mostre extremamente ilusório, extremamente engabelante e extremamente inconstante.
domingo, 23 de outubro de 2011
A importância do auto-conhecimento na distinção entre o público e o privado
A sociedade pós moderna do século XXI contempla o desenvolvimento cada vez maior de um planeta globalizado. Dentre os resultados da globalização se destaca a internet, e em especial as redes sociais, que são utilizadas com a finalidade de interação. A interação com pessoas é uma necessidade inerente ao ser humano, e é exatamente neste ponto que cabe uma análise crítica, uma vez que com o objetivo de interagir, as pessoas têm sacrificado sua própria privacidade.
Como manter a "amizade virtual" sem se expor? Como estabelecer as fronteiras entre o que pode ser público, e o que é privado e pessoal? A resposta as perguntas feitas exigem uma análise do conceito de exposição. O que é se expor? A definição mais coerente afirmaria que a exposição ocorre a partir do momento em que o indivíduo prejudica a si mesmo e a outros passando informações de algo que deveria ser mantido em sigilo. Muitas vezes isto se dá de maneira inconsciente, e é motivado pela necessidade de interação social. Sendo assim, é conclusível que o primeiro passo para evitar a exposição seria a conscientização das próprias necessidades humanas, pois como é possível a cura de um defeito sem o conhecimento de sua causa?
A partir do momento em que tal conscientização ocorre, cabe a cada indivíduo estabelecer seus próprios limites. E neste ponto específico, não é possível uma generalização. Seria a mais ingênua engabelação, a crença de que é possível desenvolver uma teoria objetiva e universal sobre fronteiras entre o público e o privado de cada um. Pois quando se trata de comportamentos humanos não há uma matemática precisa. Estariamos circunflentes a uma ilusão e enxovalhariamos nossa razão ao desenvolver uma teoria que procura explicar de forma objetiva o que é subjetivo.
De forma que é possível concluir que o estabelecimento das fronteiras entre o público e o pessoal é algo de responsabilidade única de cada um, e que o discernimento de tais fronteiras só ocorrerá de maneira correta quando a pessoa for capaz de compreender as necessidades que impulsionam suas próprias ações.
*Obs: Redação do Enem
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
O que realmente faz sentido
E isso tudo que ele disse faz sentido. Estamos circunflentes a uma rotina alucinante, e em nossa altivez interior não nos damos conta de nossos desvarios. Vivemos iludidamente uma existência embromeira, mendaz e falsa. Existimos mediocremente e em um ato de pura arrogância, não aceitamos baldeações. Nossas crenças são meras engabelanças. Enxovalhamos nossa razão, e fazemos do nosso Planeta um manicômio globalizado.
Somos ao mesmo tempo inteligentes e estúpidos. Quando vamos deixar de lado essa estupidez e nos prender aquilo que tem lógica? A vida, no fim das contas, não passa de um sopro, cabe a nós a sabedoria de saber aproveita-la com o que realmente faz sentido.
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
A procura de mim
Talvez seja exatamente neste ponto que se concentre toda a minha personalidade- nessa busca eterna por mim mesma-. Se é aqui que está todo o meu ser, no dia em que eu deixar de me procurar, deixarei de ser.
O que me faz acreditar que a vida é um constante nascimento, uma constante construção e reconstrução de quem sou. Um constante aprendizado com constantes mudanças. E tudo isso faz parte dessa busca, dessa procura que não cessará enquanto houver vida.
Acreditar que nasci pronta e tão auto suficiente a ponto de não precisar procurar nada, não passa de uma engabelança. São nas constantes baldeações que encontro meu próprio ser. E admitir isso, é ter consciência do quanto é realmente importante me procurar, não pelo prazer de me encontrar e sim pelo simples prazer da busca.