Existem momentos que ficam, existem palavras que marcam. O tempo passa, a vida continua, mas levamos conosco o que nos deixou marcas. Hoje quero escrever aqui lembranças que tenho, retratos da minha vida. Não seria necessário escreve-los, eles já me acompanham em tudo o que eu faço, são parte da minha própria personalidade. Mas os escreverei apenas porque me faz bem lembrar e sistematizar, essas coisas que ficam.
O melhor presente: Eu ia fazer dez anos. Minha família estava passando por uma séria crise financeira. Nós não tinhamos dinheiro. Eu possuia uma mente infantil e incapaz de compreender tudo o que estava acontecendo, mas eu sabia que as coisas estavam difíceis. Tinhamos acabado de voltar de Redenção no Pará. Viajamos mais de 5000 kilômetros em um palio velho e apertado. Lembro que o dinheiro começou a faltar, e depois de 3 meses morando em um hotel, e muitas coisas dando errado no trabalho de meu pai, voltamos pra Londrina. Me lembro do rosto de minha mãe pensativo, me lembro das orações fervorosas, me lembro das lágrimas dela. Dificilmente ela nos deixava transparecer, mas eu percebia a preocupação em seu rosto.
Foi nesse contexto que recebi o melhor presente da minha vida. Um mês depois que voltamos pra Londrina, foi o meu aniversário. Minha mãe me chamou, olhou nos meus olhos e disse: "Amanda, você sabe que a gente tá passando por momentos dificeis né? Sabe que o papai e a mamãe não tem como te dar o presente que você quer nesse ano. Mas a gente não vai esquecer do seu aniversário, e eu vou te dar um presente diferente." Senti (como sinto agora) um nó na garganta, não por não ganhar presente, mas por ver o esforço de minha mãe. Um dia, quando eu saí de casa e fui pra varanda, a vi sentada em um murinho, com uns pedaços de pano antigos que ela tinha guardado, ela os cortava e remendava. Ao seu lado, estava uma boneca velha que eu tinha (e tenho até hoje). Perguntei pra minha mãe o que ela fazia, e porquê estava com a Ana Paula (a boneca) ali. Ela me disse que fazia o meu presente. Eles eram roupas pra Ana Paula. Minha memória preserva intacta aquela cena. Eu me sentei ao lado de minha mãe e fui ajuda-la com as roupas da Ana Paula. Aquilo foi bom. As lágrimas rolam pela minha face quando eu lembro disso. Esse foi o meu melhor presente. Não custou dinheiro, não foi um brinquedo caro. Mas tinha algo que os brinquedos da loja não tinham, tinha amor. Não que os outros presentes que eu recebi não tivessem amor, mas aquele era uma sistematização desse amor. E estes retalhos antigos e floridos se tornaram pra mim um símbolo de cuidado. Não há nada superior a isso. Podem se passar os anos, mas sempre que eu me lembrar de presente, me lembrarei deste. Esta é uma das memórias que carregarei por toda a vida. Minha mente continuará preservando sem divergências a imagem daqueles retalhos. Eram azuis, tinham flores vermelhas. Pra qualquer um que o visse, eram apenas panos velhos, mas pra mim, era o próprio amor em um tecido.
A oração de meu pai: Estávamos fazendo um culto de pôr do sol, neste culto cantamos o hino "oração para uma criança" foi o hino cantado na minha apresentação a igreja. Quando terminamos de cantar, meu pai leu os seguintes trechos do hino: "Vem guiar os Seus passinhos, ensina-lo a caminhar no seguro e bom caminho, e em tua força confiar. Vem livra-lo da maldade que este mundo pode impor, Pai querido cuida dele, dá a ele o teu amor." E depois disse- "essa tem sido a minha oração dia após dia, durante todos os dias da vida de vocês, sem falhar nem um dia sequer".
Talvez seja por isso que eu sinto paz. Por isso que inexplicavelmente em momentos difíceis, sinto Deus me proteger. Talvez seja por isso que tenho aprendido a confiar em Deus. A oração de meu pai, todos os dias, sem falhar nem um dia sequer, é outra coisa que vai me acompanhar durante a vida toda. Os dias podem se passar, mas a minha memória continuará preservando intactas as palavras de meu pai. Fortes mãos vêm me esconder de perigos que eu não posso ver. Eu sei que acima de tudo, não estou sózinha nessa caminhada. As orações de meu pai me acompanham. Quantas vezes despertei durante a noite e vi ao lado de minha cama o meu pai ajoelhado orando por mim. A sua oração diária e incessante é o que não me permite desistir. É o que me ajuda a prosseguir.
Hoje me ajoelhei e agradeci a Deus por tudo isso, por todas essas memórias que me acompanham e sempre me acompanharão. Isso é parte do que sou, e nisso consiste a minha vida, deixar de lembrar dessas coisas é simplesmente deixar de viver. Enquanto houver vida, haverão memórias.