Me perco quando escrevo. Acho que me perderia de qualquer forma. É melhor quando me perco escrevendo, porque assim me perco dentro de mim, me vejo imersa em um turbilhão de palavras que me trazem até o fundo de minha alma. Esquematizo palavras que preenchem lacunas, de forma que restam-me apenas algumas frestas. Preciso das palavras, aliás, preciso falar sobre palavras. O que são afinal? Uma junção de morfemas que entre encaixes e desencaixes traduzem as inquietações da alma humana. Palavras são peças de um quebra cabeça. Mas palavras por si só não são eficazes se não estiverem sendo usadas de forma correta, elas não impressionam, e na verdade, não passam de mero formalismo se não forem usadas com sentimentos.
E é nesse aspecto que se mostra um dos mais perfeitos encaixes- as palavras carregadas de sentimentos-.
Outro dia ouvi alguém dizer que não era necessário falar sobre o que se sente, que os sentimentos são demonstrados e não ditos. Agir dessa forma é agir de forma ofensiva. É destruir e estilhaçar o que nos resta da perfeição.
Não se separam palavras de sentimentos. Aliás, eles sempre agirão em conjunto. Sentimentos não são expressos sem as palavras, tão pouco as palavras ganham significado sem sentimentos. Mera engambelação está em acreditar que se pode separar ambas as coisas. As palavras carregadas de sentimentos são as únicas capazes de penetrar nas lacunas do ser e trazerem a tona o que se faz necessário.
Trazendo a teoria para o lado pessoal, talvez eu tenha escrito isso porque eu sei o quanto preciso aprender nesse aspecto. Algumas vezes uso palavras sem sentimentos, outras vezes, sinto sem conseguir dizer. Sentimentos são complexos, me atemorizam. Ora pelo medo de que eles sejam ilusões, ora pelo medo de que eles sejam expressos e simplesmente dispersos, sem terem encontrado correspondência. Eu os deixo caiados, não os encaixo com as palavras, deixo que eles fiquem nas entrelinhas das frases que escrevo ou nas entrelinhas das frases que eu digo. Me expresso pouco, sou pouco espontânea, me tranco dentro de mim. Me abro pouco, me escondo mais. Contudo sinto demasiadamente. Falta em mim o uso dos encaixes, falta em mim o retorno aos tempos de infância, a dispersão de temores, e a ousadia de encaixar as peças perfeitas de um quebra-cabeça.
Comecei o texto em um tom, termino agora em um tom totalmente divergente e imprevisível. É que no meio disso tudo me dei conta de que quando me perco escrevendo, me perco porque escrevo pra mim. É uma conversa comigo mesma, e uma viagem ao interior do meu ser. As palavras estabelecem uma ponte entre dois extremos de quem sou. Me perco escrevendo, mas acho que me perderia de qualquer forma. Me perdi, mas paradoxalmente me encontrei aqui. São coisas subjetivas, impossíveis de serem explicadas. Não são escritas para serem entendidas, são escritas simplesmente para serem sentidas. Não seguem uma lógica ou uma precisão matemática, seguem a irracionalidade dos sentimentos, não é um texto escrito nas normas padrões, é na verdade, imprevisível. Não tem sentido aparente, o único sentido está em me trazer até mim.