Eu esperava pelo fim de uma ação solidária sentada em uma cadeira. Aproximou-se de mim uma senhora de aproximadamente 68 anos. Perguntei se ela queria sentar e ofereci-lhe a cadeira. Ela recusou, disse que eu podia continuar sentada. Insisti, mas ela resistiu veementemente. Sua persistência me provocou interesse.
Conversei com aquela mulher. Era difícil lhe entender. Ela tinha um problema nas cordas vocais que fazia com que sua voz se tornasse praticamente inaudível. Entretanto foi possível descobrir alguns dados de sua vida.
Dona Maria Raimunda morava com o esposo já idoso em um bairro pobre afastado da cidade. Não era cuidada pelos filhos. Talvez os tivesse, eu não o sei... Mas se virava sozinha. Fora trazida até aquela ação solidária por uma vizinha, que se compadecendo da situação dos dois idosos os cadastrou para que recebessem cestas básicas. Era pobre. Vestia um vestido desbotado. Seu rosto era marcado por rugas. Seus cabelos grisalhos estavam presos com alguns grampos.
No decorrer de nossa conversa percebi que às vezes dona Maria ficava sem assunto. Sempre que isso acontecia, ela sorria. Tinha um sorriso espontâneo capaz de expor-me os poucos dentes que lhe restavam. Percebi nela a solidão. Não tinha com quem conversar. Agarrou-se a possibilidade de falar comigo com persistência, superando as dificuldades de sua própria voz. Em determinado momento quando quis responder-me uma pergunta, procurou meu ouvido para que eu pudesse compreendê-la. Neste momento dona Maria caiu. Fui tentar lhe ajudar, mas ela se levantou rapidamente disfarçando a queda. E sorriu.
O sorriso de dona Maria me causa admiração. Sabendo de sua história difícil me perguntei de onde aquela mulher tirava forças pra sorrir. Um sorriso tão largo, tão sincero. Não tinha vergonha de mostrar-me seus poucos dentes. A resiliência saltava de seu sorriso e de seus gestos me ensinando que existe força, existem formas de se encontrar superação. Ela fazia isso sem pensar em teorias ou palavras complexas. Fazia porque era assim. Havia aprendido a lidar com o sofrimento, havia aprendido a lidar com a dor, ignorava a periclitância da inconstância da vida. Sorria.
Nunca um sorriso foi capaz de me ensinar tanto. O sorriso de dona Maria Raimunda, dentre pausas de sua voz lânguida, rouca e quase inaudível me trouxe esperança. Não eram necessários dentes perfeitos e intactos, bastava sorrir, e se encontrava naquela senhora uma beleza surpreendente. Sua beleza não se passava por padrões estéticos, passava por seu sorriso e sua história. Nas entrelinhas daquele sorriso uma lição eterna: A resiliência. Seu sorriso era lindo. Era capaz de minorar a dor e os estertores de sua vida enxovalhada pela pobreza.
O tempo passou e eu precisei ir embora. Dirigi-me até ela, me despedi e lhe dei um abraço desejando um feliz natal. Ela me retribuiu o abraço dizendo “pra você também”. Em seguida olhou para mim, e sem dizer palavras me agradeceu com um sorriso...