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quarta-feira, 9 de janeiro de 2013
Vida
terça-feira, 25 de dezembro de 2012
Espasmos
Sinto medo.. Do sonho que se desfaz no palpitar do coração. Da vida que se esvai ao som do entardecer. Da angústia que se acolhe nos entremeios do fim.
Sinto medo... Da nostalgia obsoleta que massacra o tempo vivenciado. Do pretérito que oculta as artimanhas do futuro. Da felicidade barata oprimida pela rotina. Do pavor que se abriga nas lacunas do sentir.
Sinto medo... De uma coragem imperfeita mesclada à covardia. Das lágrimas que se perdem no soar das vibrações. Da vida ruminada que se desmancha nos compassos dos ecos.
Sinto medo... De temer o improvável, de querer vazios, de amar desvarios, da solidão. De lágrimas acalentadas, da mesmice destrutiva, de sorrisos e sofismas, da indiferença.
Sinto medo de me perder na multidão, de me familiarizar com a solidão, de querer me esconder. De passos em falso, de amores distantes, de amantes semotos, da nostalgia do existir.
Sinto medo.
Sinto medo... Da nostalgia obsoleta que massacra o tempo vivenciado. Do pretérito que oculta as artimanhas do futuro. Da felicidade barata oprimida pela rotina. Do pavor que se abriga nas lacunas do sentir.
Sinto medo... De uma coragem imperfeita mesclada à covardia. Das lágrimas que se perdem no soar das vibrações. Da vida ruminada que se desmancha nos compassos dos ecos.
Sinto medo... De temer o improvável, de querer vazios, de amar desvarios, da solidão. De lágrimas acalentadas, da mesmice destrutiva, de sorrisos e sofismas, da indiferença.
Sinto medo de me perder na multidão, de me familiarizar com a solidão, de querer me esconder. De passos em falso, de amores distantes, de amantes semotos, da nostalgia do existir.
Sinto medo.
quarta-feira, 19 de dezembro de 2012
Passos e fastos
Se os passos voltarem.
O mundo parou. O sonho findou. A lua caiu.
A vida calou. O soluço surgiu. O amor gelou. O fôlego esvaiu.
O homem girou, girou e parou. A vida retrógrada oscilou e partiu.
Se os passos avançarem.
A visão turvou. A cegueira matou. O dia nublou.
A anestesia curou a dor que chegou.
O olho secou. A lágrima calou.
O sorriso mudou. A expressão marcou.
O homem olhou, olhou e não viu.
A vida prosseguiu, prosseguiu e caiu.
Os passos avançaram, regrediram e desviaram-se. A vida seguiu e o homem sorriu.
O mundo parou. O sonho findou. A lua caiu.
A vida calou. O soluço surgiu. O amor gelou. O fôlego esvaiu.
O homem girou, girou e parou. A vida retrógrada oscilou e partiu.
Se os passos avançarem.
A visão turvou. A cegueira matou. O dia nublou.
A anestesia curou a dor que chegou.
O olho secou. A lágrima calou.
O sorriso mudou. A expressão marcou.
O homem olhou, olhou e não viu.
A vida prosseguiu, prosseguiu e caiu.
Os passos avançaram, regrediram e desviaram-se. A vida seguiu e o homem sorriu.
quarta-feira, 12 de dezembro de 2012
Projeção
O sol se punha diante de meus olhos cansados, a vida é cíclica Dé. O sol se pondo, o fim do dia, a vida que dispara sem o meu consentimento e eu mera espectadora de suas manifestações. O ritmo monótono do palpitar do coração e os sonhos que se desfazem pela monotonia. Ah Dé, tanto tempo passou. Todavia o meu retorno aos locais de nossos encontros provam-me que abandonei um mundo independente de mim, os locais intocáveis quase me fazem crer que o tempo é o mesmo. Exceto a pele que cai sobre minha face, exceto as expressões marcadas sob meus olhos, exceto as forças que se esvaem de mim, exceto os sonhos que há muito andam distante. Não fora isso e aquele restaurante antigo, aquela rodoviária suja e aquele parque farto de transeuntes me fariam crer que o tempo era o mesmo.
Lembra Dé, dos planos que fazíamos? Dos sonhos que tínhamos? E você sempre a acalmar as tensões da minha alma. Ao seu lado não senti medo, meu próprio fôlego fortalecia-se ao ver-lhe. Seus olhos vagos me traduziam os desertos existenciais, sentia-me sugada por eles, entrando pelos olhos e atingindo os píncaros de seu ser encontrei o ápice de minha viagem ao descansar no tom esverdeado do mar de suas íris.
Eu lhe contei sobre meus medos e você me disse que estaria sempre ao meu lado. Disse-me que envelheceríamos juntos e sob as asas do tempo, enxergaríamos mutuamente a vida arrancando de nós partes de nossos corpos, sem contudo poder levar-nos a alma, que há muito nos pertencia em coletividade mútua. E eu cri Dé, cri em você porque me encontrei nos traços de sua face.
Aceitei viver ao seu lado. Durante os dias em que compartilhamos nossas vidas, juro Dé, senti-me viva. Você foi arrancando-me os espaços entre os abraços, sugou a areia de meus desertos, povoou de ilusão os meus ermos.
Eu sonhava com os desvarios de nossos planos, sonhava com o futuro, com a velhice... A vida fortalecia-se diante de mim. E o tempo passou. Até que um dia Dé, acordei e não o vi ao lado. A casa vazia, suas roupas sumidas. O procurei para lhe chamar a mesa para o desjejum. Não o encontrei. Percorri o vazio daqueles quartos, encontrando neles as lacunas deixadas em mim. Meus ermos se reconstituíam a cada grito por você. Não encontrei nada que me sugerisse a sua face, a menos aquele bilhete deixado sobre a mesa, dizendo que cansara de mim e fora aproveitar a vida.
Vivo sozinha, Dé. Meus ermos tomaram forma e meus desertos abafam-me os sonhos. A solidão me é por memória constante do passado. Aprisionada na masmorra de suas formas, fujo para o pretérito e nele me refaço. Choro apenas durante a noite, a luz do sol evapora minhas lágrimas. O sol se põe diante de meus olhos cansados e liberta minhas lágrimas amargas. Fui aos locais de nossos primeiros encontros novamente, prendo-me ao passado. Quase me senti viva outra vez, não fora o espelho e o tato me denunciando as marcas do tempo. Envelheço solitária. Os sonhos da vida todos pelo chão, constroem uma estrada pela qual devo caminhar, pisoteando-lhes e maltratando-lhes, ando e respiro. E assim, aproveito também o que sobra-me dessa vida que você me ensinou a viver.
Ainda aguardo o seu regresso. Quem sabe em algum momento a vida lhe seja tão ingrata quanto foi comigo, e assim, você queira voltar para viver a vida que deixou em mim? Dé, estou no mesmo local, quase nunca saio de casa de forma que caso queira regressar, há de me encontrar esperando sentada naquele sofá estampado escrevendo cartas para você.
Lembra Dé, dos planos que fazíamos? Dos sonhos que tínhamos? E você sempre a acalmar as tensões da minha alma. Ao seu lado não senti medo, meu próprio fôlego fortalecia-se ao ver-lhe. Seus olhos vagos me traduziam os desertos existenciais, sentia-me sugada por eles, entrando pelos olhos e atingindo os píncaros de seu ser encontrei o ápice de minha viagem ao descansar no tom esverdeado do mar de suas íris.
Eu lhe contei sobre meus medos e você me disse que estaria sempre ao meu lado. Disse-me que envelheceríamos juntos e sob as asas do tempo, enxergaríamos mutuamente a vida arrancando de nós partes de nossos corpos, sem contudo poder levar-nos a alma, que há muito nos pertencia em coletividade mútua. E eu cri Dé, cri em você porque me encontrei nos traços de sua face.
Aceitei viver ao seu lado. Durante os dias em que compartilhamos nossas vidas, juro Dé, senti-me viva. Você foi arrancando-me os espaços entre os abraços, sugou a areia de meus desertos, povoou de ilusão os meus ermos.
Eu sonhava com os desvarios de nossos planos, sonhava com o futuro, com a velhice... A vida fortalecia-se diante de mim. E o tempo passou. Até que um dia Dé, acordei e não o vi ao lado. A casa vazia, suas roupas sumidas. O procurei para lhe chamar a mesa para o desjejum. Não o encontrei. Percorri o vazio daqueles quartos, encontrando neles as lacunas deixadas em mim. Meus ermos se reconstituíam a cada grito por você. Não encontrei nada que me sugerisse a sua face, a menos aquele bilhete deixado sobre a mesa, dizendo que cansara de mim e fora aproveitar a vida.
Vivo sozinha, Dé. Meus ermos tomaram forma e meus desertos abafam-me os sonhos. A solidão me é por memória constante do passado. Aprisionada na masmorra de suas formas, fujo para o pretérito e nele me refaço. Choro apenas durante a noite, a luz do sol evapora minhas lágrimas. O sol se põe diante de meus olhos cansados e liberta minhas lágrimas amargas. Fui aos locais de nossos primeiros encontros novamente, prendo-me ao passado. Quase me senti viva outra vez, não fora o espelho e o tato me denunciando as marcas do tempo. Envelheço solitária. Os sonhos da vida todos pelo chão, constroem uma estrada pela qual devo caminhar, pisoteando-lhes e maltratando-lhes, ando e respiro. E assim, aproveito também o que sobra-me dessa vida que você me ensinou a viver.
Ainda aguardo o seu regresso. Quem sabe em algum momento a vida lhe seja tão ingrata quanto foi comigo, e assim, você queira voltar para viver a vida que deixou em mim? Dé, estou no mesmo local, quase nunca saio de casa de forma que caso queira regressar, há de me encontrar esperando sentada naquele sofá estampado escrevendo cartas para você.
domingo, 28 de outubro de 2012
Holocausto Russo -um caso dentre sete milhões-
Era um dia de importância para aquela fábrica, afinal eles
receberiam o grande líder Stalin, o pai do operários, o líder da nação, a
esperança da classe proletária. Os diretores da fábrica se preparavam,
espalharam avisos por todas as partes estabelecendo um horário fixo para que os
trabalhadores aguardassem o discurso de Stalin com antecedência, horas antes de
sua chegada. Finalmente chegara a hora. Pulsava no olhar daquele trabalhador a
ansiedade por conhecer seu líder, por ouvir suas palavras. E ele o viu. Sua
roupa bem alinhada, seu cabelo ordenadamente penteado, seu olhar resoluto. Tudo
inspirava confiança, tudo alimentava sua esperança. E ele observava Stalin
enquanto o diretor da fábrica abria o discurso e fazia as devidas homenagens ao
líder da nação. O discurso do diretor findou e o operário ouviu finalmente a
frase “Passo agora a palavra ao magnânimo, estupendo e majestoso líder de nosso
país”. Stalin ergue-se e surge um aplauso estrondoso, de uma unanimidade
singular. O trabalhador une-se aos aplausos em uma empolgação resoluta, um amor
sincero, uma admiração incauta. Passou-se o tempo, foram-se 15 minutos e os
aplausos não cessaram, 30 minutos e os aplausos não haviam diminuído sua
intensidade. O operário cansado olha ao seu redor sem entender o que ocorre.
Estava exausto, seus braços fraquejavam, estava envergonhado de si, como não
conseguia demonstrar uma hora de devoção ao pai de sua nação, ao homem que dera
sua vida ao povo? O rapaz começa a olhar ao seu redor com olhos mais ávidos,
procurando alguém que ousasse parar de aplaudir para que ele pudesse descansar
também. Todavia ninguém ousara, todos temiam a polícia que estava a espreita.
Passaram-se outros trinta minutos e inteirava uma hora e meia de aplausos
contínuos. Ele decidira-se. Sim, pararia de aplaudir, o cansaço o vencera. O
que demais poderia ocorrer? Afinal, Stalin o compreenderia, sendo o pai de sua
nação, o amante da classe operária jamais se desgostaria dele, entenderia seu
cansaço e o perdoaria. Ele parou e um após outro os aplausos foram cessando até
que todos silenciaram para ouvir o discurso de Stalin.
Findado o discurso o
operário se recolheu a seu posto de trabalho, ainda podia ouvir a voz de seu
comandante e emocionava-se com suas palavras de encorajamento. Enquanto remoia
as palavras de seu discurso, ouviu um chamado para que comparecesse na sala de
seu superior. Durante o percurso lembrava-se de Krutóvisch, um antigo camarada,
companheiro de serviço no mesmo setor e que um dia foi chamado a sala do
superior e nunca mais foi encontrado. O operário assustado ainda lembrava-se
dos olhos marejados de sua esposa ao procurar notícias do marido, ele ainda podia ver o olhar assustados
dos filhos daquela mulher que sabiam terem perdido um pai. Foi quando aquele
trabalhador temeroso se lembrou de seus filhos em casa e de sua mulher que o
aguardava. Por que o procuravam? Seria um engano?
Chegando a sala, encontrou não apenas seu superior, mas
alguns policiais armados que também o aguardavam. -Estamos aqui para assinar o
seu mandato de prisão- foi o que lhe disseram. Seu coração batia forte, o medo
saltava de seus olhos. –Por que querem me prender? O que eu fiz?- Perguntou o
operário. –Você foi o primeiro a parar de aplaudir Stalin!-. – Mas como fazemos
então? Como encerramos os aplausos?-. –Isso não importa-, disse o superior, -O
importante é que você não seja o primeiro. É dessa forma que funciona a seleção
natural de Darwin, é assim que reduzimos os fracos a seus fracassos-. Mal
terminada a frase, os policiais amarraram suas mãos e o levaram para longe
dali. O trabalhador amedrontado sem saber para onde ia não parava de pensar em
seus filhos, aquelas crianças de cabelos despenteados que o aguardariam na
porta ao fim do dia. Não houve tempo de despedida, não houve a oportunidade do
último adeus a sua mulher. Ele foi para longe, foi trabalhar em um campo de
concentração, foi sustentar a nação com seu trabalho e seus ombros suportaram o
peso de todos os seus conterrâneos. Onde estaria Stalin agora para o ajudar e o
acalentar em seus braços de pai? O líder que amava a nação agora o levava para
longe de sua família. Como seria possível? E agora ali estava ele a entrar no
campo de concentração. Rostos cadavéricos o saudavam e ele teve a impressão de
que não sairia dali jamais. Os dias se passaram e a cada dia o trabalho aumentava. Levaram-no para construir uma linha férrea e ele trabalhava todos os dias mais de 20 horas. Um dia o trabalhador patriota caiu exausto sem conseguir se levantar mais. Os policiais o levaram até um local isolado, seus olhos se fecharam de forma que ele não sentiu a dor das balas a infiltrar sua pele. E seus olhos cerrados jamais se abriram e ele já não sentia medo. Há um momento em que a dor parece insignificante, há um momento em que morrer é sublime e já não é possível sentir, pois a sensibilidade resultou inútil e o homem espezinhado encontra na morte seu prêmio final. Foi assim que o operário encontrou ao fim sua condecoração. A derradeira respiração e o descanso almejado. Do outro lado do país, crianças de olhos marejados e cabelos despenteados ainda aguardavam o pai na porta de casa a todo fim de dia.
sábado, 6 de outubro de 2012
Felicidade barata
E a felicidade, tão simples quanto a vida, se construía ali, diante de mim. O ônibus correndo pelas ruas vazias, os espaços ficando para trás e as freadas bruscas interrompendo a sensação de simples liberdade. Sim, a felicidade se construía ali, um banho de terra precedido de um imergir numa piscina fria, milhares de flashs e fotos inúteis, sorrisos ao acaso e a frivolidade do tempo, um perder de uma pasta seguido de seu encontrar, a curiosidade de saber e imaginar o que sequer existe. Era a felicidade barata, acompanhada daquela sensação monótona do palpitar do coração, era a vida que brotava de futilidades fugazes e me fazia sorrir.
domingo, 9 de setembro de 2012
Face perdida
Comecei a pedalar. O suor escorria por minha testa. Minha
respiração tornava-se intensa. Minha freqüência cardíaca aumentava. Eu não
sabia para onde ia. Eu apenas movimentava os pedais daquela bicicleta antiga,
fazendo com que ela me levasse a lugar nenhum, me fazendo percorrer avenidas
vazias, encontrando por todas as partes homens sem face, gente sem rosto.
Era apenas mais um daqueles dias vazios. Dias nos quais o ar
se empurrava forçosamente por minhas vias respiratórias me fazendo ruminar as
horas, os meses, os anos e enfim a vida. Enquanto minhas pernas moviam aqueles
pedais entendi que vivera uma vida vazia, repleta de dias vazios. Aquele dia,
no entanto, era diferente. Estava carregado de um vazio reflexivo, de uma nostalgia
obsoleta que me enlouquecia. Em minha casa, sentada defronte a um computador,
escrevendo um artigo científico, senti minha mente em súbitos lampejos se
desviar e meu subconsciente trouxe a tona aquela pergunta que eu há anos vinha
fazendo. Havia amado? Sim, será que eu amara? Meus cabelos agora brancos,
minhas mãos já enrugadas e a solidão invadindo meu ser... Onde estaria o amor?
Aliás, o que era o amor? Ouvi por todas as partes propostas de amores
românticos e amantes semotos. No entanto ali estava eu agora, meus amantes se
foram com suas propostas. E o que restara de tudo? Nada. Cartas veladas a um
tempo passado. Felicidade esquecida ou jamais lembrada. E o amor soando como
uma vaga lembrança de algo ingênuo, restrito ao vazio. Nostalgia reflexiva,
vazia e obsoleta que me aproximava do desvario. Saí. Buscando minhas respostas,
fugi. E agora me encontrava ali, sem medo, percorrendo avenidas vazias e vendo naquela gente que pra mim se apresentavam sem face, extensões de meus vácuos internos aliados aos bastidores de minha face convicta. Por todas as partes, gente sem rosto. Gente que vivia alienada. E a vida se esvaindo. Porque a vida, essa vida mal vivida, era vida periclitante. Vida na qual os riscos se mesclavam a nossa insensatez, nos fazendo viver o imprevisível, ainda que buscando prevê-lo. Vida de ilusões, me fazendo amar e deixar de amar, no entanto, sem nunca sentir o amor. Era a vida fugaz de gente sem rosto. Era a vida ruminada por pessoas sem face.
Continuei pedalando, e o amor insistindo, gritando e pedindo respostas. Continuei pedalando enquanto sentia em minha boca o sabor adstringente da vida. Continuei pedalando enquanto deixava para trás, estertores longínquos de recordações nostálgicas de lacunas existenciais. Continuei pedalando... Pedalei até chegar ao fim daquela avenida tão curta. E ao chegar ao seu final, entendi que talvez eu amasse. Amasse a vida tal qual se apresentara diante de mim, com suas intempéries e decorrentes vazios. Eu a amara por ter sido esta a vida escolhida por mim. E me refugiava nela para não encontrar a mulher que havia me tornado. Me escondia debaixo de sua alienação, buscando não encontrar do outro lado da vida, o vazio que ela me deixara. Eu a amava porque ela me ocultava sob suas asas protetoras e ia aos poucos apagando minha história, levando consigo minha mediocridade. Sim, eu havia amado, havia amado a vida, havia amado o vazio.
Desci da bicicleta e enxuguei o suor. As mesmas mãos que haviam pilotado o guidão daquela bicicleta buscaram agora minha face. E qual não foi a surpresa ao perceber que meu tato encontrou uma face lisa, livre de curvas, livre de irregularidades. Percebi que eu há muito perdera também meu rosto. Minhas mãos sentem o vazio, meu ser sente seus vácuos. Vida ruminada, vida vazia, vida periclitante, vida fugaz de gente sem face, vida triste de uma mulher sem rosto.
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