sexta-feira, 6 de abril de 2012

A solução de nossas vidas

Houve um tempo em que acreditavamos no que nos era dito. Houve um tempo em que a idade das trevas ocultou nossas informações e tornamo-nos reféns de interesses alheios.
Houve um tempo em que tiraram a dignidade do ser, e nos lançaram na penumbra da ignorância.
E nesse tempo, nos aprisionaram. Nos usaram a fim de satisfazer interesses egocêntricos de uma nobreza larápia que mascararava suas intenções sob o pretexto da vontade divina. Dissimularam desejos e enxovalharam a essência da fé.
Nesse tempo, nossas vozes roucas gritavam a ouvidos surdos, e se calavam perante o medo do inferno.

Depois desse tempo, acreditamos que não nos era necessário temer o inferno, talvez já vivessemos nele. E recuperamos nossa voz, e passamos a gritar alto a ouvidos ainda surdos. Nesse tempo, ignoramos a fé. E já não tinhamos mais medo da morte. Matamos e morremos, e nossos cadáveres eram lançados nas sendas sem rumo regadas a sangue. Nos revoltamos contra Deus e queimávamos a bíblia, e publicavamos manifestos declarando a inexistência de Deus. Sem nos darmos conta de que nos rebelávamos na verdade contra um deus que nos forçaram a crer, projetando nessa imagem infiel de Deus toda a nossa indignação. Nesse tempo, a angústia tomou conta de nós, e a opressão permaneceu nos calando, e nossas vozes permaneceram altas e mudas.

Depois desse tempo, uma burguesia vigarista tomou o lugar de uma nobreza larápia, e permanecemos gritando, e nossas vozes eram caladas pelo revolucionário liberalismo, e vivemos na era de uma tirania absoluta, tão opressora quanto o próprio absolutismo. Permanecemos gritando, crendo que Deus era a causa de nossos problemas, imputando a culpa alheia dos interesses manipuladores nEle... Nesse tempo nossas vozes permaneceram tão altas quanto mudas.

Depois desse tempo, vivemos o despontar capitalista, e a livre competição dos mercados no acúmulo de capital, pareceu nos insinuar a tão sonhada liberdade. Nos fizeram acreditar que dominávamos o mundo, e que a globalização encurtava as distâncias e igualava as desigualdades outrora existentes. Fomos todavia iludidos. A liberdade se concretizou nos interesses das multinacionais. A união não foi além de práticas de cartel e oligopólios massificantes. Nos desorganizamos. A fome nos faz cometer atrocidades, a angústia nos mata todos os dias, e em um mundo onde há mais dinheiro do que riqueza, nossos gritos de indignação se confundem com os barulhos de máquinas que trabalham incessantemente. Nossas vozes, permanecem altas e mudas. Nossos princípios se confundem lá com fanatismos religiosos e aqui com uma descreça profunda. Deus há muito foi retirado de nossos sonhos, e substituido por uma materialização de nossos desejos, sua imagem disforme se adaptou a nossos interesses, e em plena luz do dia permanecemos em trevas.
Nesse tempo, acreditamos em ilusões e a sabedoria se perdeu com o conhecimento, e o conhecimento se perdeu com a informação, e não nos resta nada além de devaneios utópicos e fetiches inalcansáveis.

O que nos aguarda em tempos futuros? Se permanecemos gritando a ouvidos surdos, se a opressão permanece oprimindo, e se até a dor já não nos assusta? O que nos aguarda senão a angústia e a desilusão? Onde colocamos nossa esperança? O que será de nós quando chegar nosso fim, e formos pó? Transmitiremos a futuras gerações o legado de nossas angústias? Transmitiremos a nossas decendências um viver inóspido em uma terra alheia de nós? Permaneceremos gritando a quem não nos ouve? Permaneceremos crendo na visão equivocada que nos forçaram a ter de Deus? Permaneceremos criando um deus a nossa imagem, colocando sobre essa criação nossos interesses?

Se não nos for possível mudar a cruel realidade de nossos tempos que manipula nossas vidas e determina nossas desgraças, ainda nos resta a esperança... Se nossas vozes permanecerem caladas a ouvidos surdos, e se nossos gritos roucos permanecerem inaudíveis, Deus ainda nos será por esperança, o Deus real, e não o deus manipulado por nós. Ai não está a solução de todos os problemas, mas exatamente ai, reside a solução de nossas vidas. Precisamos de algo que transcede o material. Precisamos de um Deus real, e nesses tempos de angústia, precisamos da fé.