domingo, 28 de outubro de 2012

Holocausto Russo -um caso dentre sete milhões-


      Era um dia de importância para aquela fábrica, afinal eles receberiam o grande líder Stalin, o pai do operários, o líder da nação, a esperança da classe proletária. Os diretores da fábrica se preparavam, espalharam avisos por todas as partes estabelecendo um horário fixo para que os trabalhadores aguardassem o discurso de Stalin com antecedência, horas antes de sua chegada. Finalmente chegara a hora. Pulsava no olhar daquele trabalhador a ansiedade por conhecer seu líder, por ouvir suas palavras. E ele o viu. Sua roupa bem alinhada, seu cabelo ordenadamente penteado, seu olhar resoluto. Tudo inspirava confiança, tudo alimentava sua esperança. E ele observava Stalin enquanto o diretor da fábrica abria o discurso e fazia as devidas homenagens ao líder da nação. O discurso do diretor findou e o operário ouviu finalmente a frase “Passo agora a palavra ao magnânimo, estupendo e majestoso líder de nosso país”. Stalin ergue-se e surge um aplauso estrondoso, de uma unanimidade singular. O trabalhador une-se aos aplausos em uma empolgação resoluta, um amor sincero, uma admiração incauta. Passou-se o tempo, foram-se 15 minutos e os aplausos não cessaram, 30 minutos e os aplausos não haviam diminuído sua intensidade. O operário cansado olha ao seu redor sem entender o que ocorre. Estava exausto, seus braços fraquejavam, estava envergonhado de si, como não conseguia demonstrar uma hora de devoção ao pai de sua nação, ao homem que dera sua vida ao povo? O rapaz começa a olhar ao seu redor com olhos mais ávidos, procurando alguém que ousasse parar de aplaudir para que ele pudesse descansar também. Todavia ninguém ousara, todos temiam a polícia que estava a espreita. Passaram-se outros trinta minutos e inteirava uma hora e meia de aplausos contínuos. Ele decidira-se. Sim, pararia de aplaudir, o cansaço o vencera. O que demais poderia ocorrer? Afinal, Stalin o compreenderia, sendo o pai de sua nação, o amante da classe operária jamais se desgostaria dele, entenderia seu cansaço e o perdoaria. Ele parou e um após outro os aplausos foram cessando até que todos silenciaram para ouvir o discurso de Stalin.
           Findado o discurso o operário se recolheu a seu posto de trabalho, ainda podia ouvir a voz de seu comandante e emocionava-se com suas palavras de encorajamento. Enquanto remoia as palavras de seu discurso, ouviu um chamado para que comparecesse na sala de seu superior. Durante o percurso lembrava-se de Krutóvisch, um antigo camarada, companheiro de serviço no mesmo setor e que um dia foi chamado a sala do superior e nunca mais foi encontrado. O operário assustado ainda lembrava-se dos olhos marejados de sua esposa ao procurar notícias do  marido, ele ainda podia ver o olhar assustados dos filhos daquela mulher que sabiam terem perdido um pai. Foi quando aquele trabalhador temeroso se lembrou de seus filhos em casa e de sua mulher que o aguardava. Por que o procuravam? Seria um engano?
          Chegando a sala, encontrou não apenas seu superior, mas alguns policiais armados que também o aguardavam. -Estamos aqui para assinar o seu mandato de prisão- foi o que lhe disseram. Seu coração batia forte, o medo saltava de seus olhos. –Por que querem me prender? O que eu fiz?- Perguntou o operário. –Você foi o primeiro a parar de aplaudir Stalin!-. – Mas como fazemos então? Como encerramos os aplausos?-. –Isso não importa-, disse o superior, -O importante é que você não seja o primeiro. É dessa forma que funciona a seleção natural de Darwin, é assim que reduzimos os fracos a seus fracassos-. Mal terminada a frase, os policiais amarraram suas mãos e o levaram para longe dali. O trabalhador amedrontado sem saber para onde ia não parava de pensar em seus filhos, aquelas crianças de cabelos despenteados que o aguardariam na porta ao fim do dia. Não houve tempo de despedida, não houve a oportunidade do último adeus a sua mulher. Ele foi para longe, foi trabalhar em um campo de concentração, foi sustentar a nação com seu trabalho e seus ombros suportaram o peso de todos os seus conterrâneos. Onde estaria Stalin agora para o ajudar e o acalentar em seus braços de pai? O líder que amava a nação agora o levava para longe de sua família. Como seria possível? E agora ali estava ele a entrar no campo de concentração. Rostos cadavéricos o saudavam e ele teve a impressão de que não sairia dali jamais.
          Os dias se passaram e a cada dia o trabalho aumentava. Levaram-no para construir uma linha férrea e ele trabalhava todos os dias mais de 20 horas. Um dia o trabalhador patriota caiu exausto sem conseguir se levantar mais. Os policiais o levaram até um local isolado, seus olhos se fecharam de forma que ele não sentiu a dor das balas a infiltrar sua pele. E seus olhos cerrados jamais se abriram e ele já não sentia medo. Há um momento em que a dor parece insignificante, há um momento em que morrer é sublime e já não é possível sentir, pois a sensibilidade resultou inútil e o homem espezinhado encontra na morte seu prêmio final. Foi assim que o operário encontrou ao fim sua condecoração. A derradeira respiração e o descanso almejado. Do outro lado do país, crianças de olhos marejados e cabelos despenteados ainda aguardavam o pai na porta de casa a todo fim de dia.

sábado, 6 de outubro de 2012

Felicidade barata

E a felicidade, tão simples quanto a vida, se construía ali, diante de mim. O ônibus correndo pelas ruas vazias, os espaços ficando para trás e as freadas bruscas interrompendo a sensação de simples liberdade. Sim, a felicidade se construía ali, um banho de terra precedido de um imergir numa piscina fria, milhares de flashs e fotos inúteis, sorrisos ao acaso e a frivolidade do tempo, um perder de uma pasta seguido de seu encontrar, a curiosidade de saber e imaginar o que sequer existe. Era a felicidade barata, acompanhada daquela sensação monótona do palpitar do coração, era a vida que brotava de futilidades fugazes e me fazia sorrir.

domingo, 9 de setembro de 2012

Face perdida


          Comecei a pedalar. O suor escorria por minha testa. Minha respiração tornava-se intensa. Minha freqüência cardíaca aumentava. Eu não sabia para onde ia. Eu apenas movimentava os pedais daquela bicicleta antiga, fazendo com que ela me levasse a lugar nenhum, me fazendo percorrer avenidas vazias, encontrando por todas as partes homens sem face, gente sem rosto.
          Era apenas mais um daqueles dias vazios. Dias nos quais o ar se empurrava forçosamente por minhas vias respiratórias me fazendo ruminar as horas, os meses, os anos e enfim a vida. Enquanto minhas pernas moviam aqueles pedais entendi que vivera uma vida vazia, repleta de dias vazios. Aquele dia, no entanto, era diferente. Estava carregado de um vazio reflexivo, de uma nostalgia obsoleta que me enlouquecia. Em minha casa, sentada defronte a um computador, escrevendo um artigo científico, senti minha mente em súbitos lampejos se desviar e meu subconsciente trouxe a tona aquela pergunta que eu há anos vinha fazendo. Havia amado? Sim, será que eu amara? Meus cabelos agora brancos, minhas mãos já enrugadas e a solidão invadindo meu ser... Onde estaria o amor? Aliás, o que era o amor? Ouvi por todas as partes propostas de amores românticos e amantes semotos. No entanto ali estava eu agora, meus amantes se foram com suas propostas. E o que restara de tudo? Nada. Cartas veladas a um tempo passado. Felicidade esquecida ou jamais lembrada. E o amor soando como uma vaga lembrança de algo ingênuo, restrito ao vazio. Nostalgia reflexiva, vazia e obsoleta que me aproximava do desvario. Saí. Buscando minhas respostas, fugi.
       
          E agora me encontrava ali, sem medo, percorrendo avenidas vazias e vendo naquela gente que pra mim se apresentavam sem face, extensões de meus vácuos internos aliados aos bastidores de minha face convicta. Por todas as partes, gente sem rosto. Gente que vivia alienada. E a vida se esvaindo. Porque a vida, essa vida mal vivida, era vida periclitante. Vida na qual os riscos se mesclavam a nossa insensatez, nos fazendo viver o imprevisível, ainda que buscando prevê-lo. Vida de ilusões, me fazendo amar e deixar de amar, no entanto, sem nunca sentir o amor.  Era a vida fugaz de gente sem rosto. Era a vida ruminada por pessoas sem face. 
          
          Continuei pedalando, e o amor insistindo, gritando e pedindo respostas. Continuei pedalando enquanto sentia em minha boca o sabor adstringente da vida. Continuei pedalando enquanto deixava para trás, estertores longínquos de recordações nostálgicas de lacunas existenciais. Continuei pedalando... Pedalei até chegar ao fim daquela avenida tão curta. E ao chegar ao seu final, entendi que talvez eu amasse. Amasse a vida tal qual se apresentara diante de mim, com suas intempéries e decorrentes vazios. Eu a amara por ter sido esta a vida escolhida por mim. E me refugiava nela para não encontrar a mulher que havia me tornado. Me escondia debaixo de sua alienação, buscando não encontrar do outro lado da vida, o vazio que ela me deixara. Eu a amava porque ela me ocultava sob suas asas protetoras e ia aos poucos apagando minha história, levando consigo minha mediocridade. Sim, eu havia amado, havia amado a vida, havia amado o vazio.
         
          Desci da bicicleta e enxuguei o suor. As mesmas mãos que haviam pilotado o guidão daquela bicicleta buscaram agora minha face. E qual não foi a surpresa ao perceber que meu tato encontrou uma face lisa, livre de curvas, livre de irregularidades. Percebi que eu há muito perdera também meu rosto. Minhas mãos sentem o vazio, meu ser sente seus vácuos. Vida ruminada, vida vazia, vida periclitante, vida fugaz de gente sem face, vida triste de uma mulher sem rosto.

domingo, 12 de agosto de 2012

Pai,

      Hoje de manhã você veio até mim de um modo costumeiro e me desejou bom dia com um abraço. Enquanto me escondi no seu abraço e reclinei minha cabeça em seus ombros, estive ausente de mim e lhe enxerguei em um passado distante que me revela a importância que você tem na minha vida, na minha história..
      Lhe vi pai, me segurando nos braços há anos atrás. Eu estava doente e sentia dor... Chorava ingenuamente sem entender a congruência daquele mundo que se construía diante de mim. Tive medo. Foi então que lhe vi chorar. Você chorava por mim... Não sei quantas vezes você chorou pai, mas sei daquele dia que em sua espontaneidade marcou toda a minha existência. E suas lágrimas mesclaram-se às minhas, e minha dor mesclou-se à sua.
      Súbitos lampejos retornaram a minha mente nostálgica e de repente me lembrei também da música que você compôs quando eu nasci. Das notas que soavam melodicamente e das palavras que as acompanhavam dizendo: "Seu nome é Amanda, seu nome fala de amor..."
      Outro dia pai, me senti angustiada. Outro dia, os caminhos da vida me colocaram defronte a uma situação com a qual não sabia lidar. Subitamente, senti uma força sobrenatural que me deu ânimo e sabedoria para continuar. Me lembrei então de suas orações. Durante todos esses anos, dia após dia, sem falhar nenhum dia sequer. Talvez seja por isso pai, que a força me vêm de onde eu menos imagino. Talvez seja por isso, que Deus vêm ao meu encontro quando já não vejo saída.
       Fui crescendo pai, as coisas mudaram... Mas você, de maneira animosamente irremissível, continuou presente em minha vida. Sua voz continuou ecoando, suas lágrimas permaneceram lavando a minha alma e suas orações permaneceram acompanhando-me em meio a caminhos tortuosos.
      Me desfiz do seu abraço e olhei para você naquele momento. Enxerguei seus olhos que de uma profundidade imensa, me pareciam distantes e carregados de mistério. Confesso que não os entendi pai. Confesso que não compreendo as dores e angústias que se escondem detrás daquele olhar. Mas seus hábitos reclusos e sua maneira calada mesclada àquele olhar profundo me ensinam sem palavras. Seu modo de falar e de emudecer revelam-me sabedoria. A sua história de superação me traz força. E quando penso em grandes homens de grandes épocas, confesso que não encontro nenhum como você. Muitos me provocam admiração, mas nunca nenhum deles esteve tão perto de mim quanto você está. Nunca nenhum deles me ensinou a amar como você me ensinou, nunca nenhum deles construiu minha história como você construiu. E é por isso pai, que a despeito de meus desentendimentos, minha visão infantil permanece inalterada, você ainda é o mais sublime dos homens, o mais admirável dentre eles.
      Olhei novamente  aqueles olhos profundos de um mistério absoluto que já não me eram assim tão distantes. Ouvi ecoar ao longe as notas de sua canção que me diziam " seu nome fala de amor..." Entendi ali pai, que meu nome não falava de amores românticos tampouco de amantes semotos. Meu nome falava do seu amor. Aquele mesmo amor que segurou-me em seus braços e derramou lágrimas sobre a face de uma criança assustada. O mesmo amor que ora por mim todos os dias, dia após dia sem falhar nenhum dia sequer. E talvez seja por isso pai, que choro sabendo que não estou sozinha. E talvez seja por isso que minhas lágrimas não soam vazias. Talvez seja por isso pai, que quando meu nome soa indiferente em bocas estranhas e alheias a mim, consigo sentir amor. O seu amor. E todas as vezes quando me sinto angustiada em meio aos ermos existenciais e periclitâncias inerentes a um viver inóspito em uma terra alheia a mim, ouço sua voz que ecoa em meio aos vácuos do tempo e penetra profundamente nas lacunas de uma alma incompleta me fazendo ouvir " seu nome fala de amor". Me lembro então não do meu nome, mas do seu amor... Fico em paz, sei que não estou só. E se um dia a vida me levar pra longe de você, vou sentir o seu abraço e me molhar com aquelas lágrimas que ficaram guardadas em mim e me fortalecer com suas orações e ouvir a sua voz cantar, sabendo que a distância debalde tentará me separar de você. Lhe levo dentro de mim pai, o pilar que sustenta minha história é você.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Desabafo do cepticismo sentimental

Não me conte histórias de amor, já não quero ouvi-las. Não me peça para amar, já não atendo a pedidos vagos. Não me diga palavras bonitas, elas já não me convencem. Não insista para que eu fique, as insistências me perturbam.
Não ouvirei outra história senão a da vida. Não amarei o que me for pedido. Não acreditarei em palavras que não forem as que cantam a realidade ainda que feia, nua e crua. Não ficarei, não reprimirei meu espírito itinerante.
A realidade é tão vasta, não nos afastemos. A razão é tão forte, não a deixemos. Venha até mim, sente-se ao meu lado e me conte a verdade, me diga sem engambelanças o que quer. Sou o hoje, apenas o hoje. Vivo o que se prova e nada além disso. Não me convença, me mostre. Sou céptica, sentimentalmente céptica, vivo o paradoxo realista. Não me venha com histórias de amor.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Dialética da vida

O vento gelado matratando meu rosto. Um calor interno explodindo meu ser. A visão de um monte defronte a um vale. A saudade vazia. O medo covarde.
Paradoxos e antíteses brigando dentro de mim e constituindo a paisagem sinestésica encontrada por meus olhos vazios e associada por meus neurônios ativos. Uma tentativa gritante de reconstruir um vazio e nesse vazio a completude do que se perdeu no ar...  Nas pulsalinimidades ocultas encontro o que fui. Talvez por jamais ter sido, talvez por jamais ter perdido. E por fim, em meio a encontros e desencontros entendo a verdade gritante e conclusiva de que a vida talvez seja o próprio paradoxo mascarado pela antítese do viver. Meus olhos enxergam a vida, meu ser sente o vazio. Estou completa.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

O ser maria

          Olhos vivos, cabelos longos, boca calada, mulher convicta. Quem de longe a contemplava não sabia o que se passava nas proximidades de seu eu. Em sua face alheia, as máscaras criadas ocultavam seus medos. Dentro de si, uma dor latejante e temores cortantes. Ao longo do tempo, seu exterior construiu esteriótipos, seguiu padrões. Mas seu interior despadronizado insistia em uma dor causticante, causada pelos aguilhões da pulsilanimidade os quais provocavam sem cessar um arco reflexo espontâneo, que a fazia involuntariamente esconder-se. Esconder-se de si, do mundo e de todos sob as sombras de um personagem caricaturado de sua existência: A vida.
          Seu nome? Maria. Uma Maria dentre 13 milhões de Marias. Nome fruto da incoerência de normas sociais exigentes de substantivos próprios como modo de classificação que a remetiam por fim ao comum. Nome comum fazendo jus à uma existência que não ia além disso. Maria. Que Maria? Maria das Dores, Maria das Máscaras, Maria dos Medos, Maria Vazia.
          Maria das Dores despertava cedo diariamente e, sendo parte do capitalismo por Marx denunciado, trabalhava como boa cidadã em prol da sobrevivência. Vendia sua força de trabalho. Era parte da classe proletária detentora do poder revolucionário, tão poderosa quanto muda. Se era mãe, amava. Se era casada, tinha ora com quem contar, ora de quem se esconder. Se era divorciada, tinha tempo passado para se lamentar. Se era sozinha, e talvez fosse, tinha porquê se angustiar. Se era humana, chorava, se era Maria - e realmente era- sofria como Maria das Máscaras nos bastidores de uma face convicta que a tornava mulher tão madura quanto insegura. Andava todos os dias dentre multidões e em meio a amores desfeitos, a solidão dilacerava sua existência e imputava temores. A periclitância de uma vida medíocre mesclava-se ao cenário de um viver inóspito em terra alheia. A solitude lhe era por causa e consequência. Os padrões sociais lhe imputaram um modelo de beleza a ser seguido e lhe fizeram crer que seriam por cura da solidão. Maria embora tentasse corresponder aos padrões, jamais se viu livre do viver só. Talvez porque Maria seja defeito genético e seu genótipo carregue em seus alelos genes dominantes da solidão, fazendo com que em seu sangue roxo corra o veneno da solitude. Talvez porque seu nome seja uma sentença a um exílio perpétuo de uma vida eternamente distante. E sua sentença injusta a torne por fim Maria dos Medos, escondendo suas lutas sob as sombras da vida. Criando máscaras que encubram seu eu. Todavia permitindo que nas pulsilanimidades ocultas, corram o pûs de feridas ainda não cicatrizadas, medos concretos e abstratos de um existir tão racional quanto paradoxal. Paradoxo cortante que a torna Maria Vazia, transbordante de lutas e vazia de sentido. Transbordante de lágrimas e vazia de consolo. Transbordante de dor e vazia de lenitivo.
          Maria, em sua última e primordial análise era promíscua. O ser constituído de uma mistura confusa e desordenada de tantas em uma apenas, lhe tornava refém da promiscuidade. Era Maria, era mulher. Olhos vivos, cabelos longos, boca calada, mulher convicta. Quem de longe a contemplava não sabia o que se passava nas proximidades de um ser maria.


*Promiscuidade: Heterogeneidade / mistura confusa e desordenada de seres no mesmo ambiente.