sexta-feira, 27 de abril de 2012

Família,

            Hoje enquanto almoçávamos em comemoração do meu aniversário, olhei cada um de vocês. Durante dois minutos estive ausente. Imersa em minhas introspecções, os vi há seis anos atrás. E em um lapso de súbito lampejo me dei conta de que vocês eram os mesmos, nós éramos os mesmos . Há seis anos atrás, sem condições financeiras vocês me deram o que eu mais precisava. Lembro-me da roupa da boneca costurada pela minha mãe, da escova de dente, das cartinhas escritas pelo meu pai, e dos desenhos feitos por meus irmãos em forma de presente de aniversário. O complexo em sua simplicidade me ensinava o valor daquilo que não se vê, a importância do imaterial saltava da matéria e me deixava marcas que me acompanhariam durante a vida toda. Vocês me deram a segurança emocional mesmo quando faltava-lhes o financeiro. Duas coisas aparentemente tão atreladas e unidas, mas na prática tão independentes e distantes. A realidade diária revelada por vocês me ensinou a enxergar com profundidade a própria superficialidade.
            Volto para o ano de 2012. Vocês ali, ao redor da mesa, conversando e sorrindo. Papai olhava com calma e serenidade à mim, mamãe sorria meiga, o Gustavo fazia uma piada e Guilherme caçoava com um sorriso maroto. Tudo tão parecido... Os mesmos. Os únicos.
          Quando nos sentamos para fazer o culto a noite, e vocês meninos me deram um abraço duplo enquanto papai e mamãe cantavam, senti as lágrimas escorrerem dos meus olhos. Quis guardar aquele momento, quis escrever para que não me esquecesse. Os mesmos, um pouco maiores, um pouco mais velhos. Os únicos. E aquele abraço duplo que me devolvia a mim, e aquela sinceridade que só encontro em vocês... Uma parte de mim, aquilo que sou e não sou. Meu passado, meu futuro.
Papai tocava no violão a mesma música que havia composto pra me fazer dormir quando eu recém nascera, e no vácuo do tempo e do espaço sua voz permanecia cantando "eu tenho uma filhinha que é muito engraçadinha (...) seu nome fala de amor...". Mamãe me fazia ler um cartão enquanto os meninos permaneciam ao meu lado... As lágrimas que rolaram pela minha face me revelam a importância que vocês têm na minha vida, na minha história. 
          Guardei tudo isso, guardei cada instante e cada momento. 
         Hoje, família, agradeço a Deus por ter vocês. Os únicos a saberem o que se passa comigo todos os dias. Só vocês entendem as minhas lágrimas e meus desesperos. Nos meus devaneios esperançosos e utopias reais me encontro com cada um de vocês. 
          Os desenhos, as cartinhas, as roupas, a escova de dente, tudo isso seis anos depois permanece me ensinando, me gritando e me mostrando o sentido de tudo aquilo que não se vê, que não se toca. O abstrato da vida se desfaz em formas e se refaz naquilo que sou. A segurança que sinto quando estou ao lado de vocês me serve por abrigo. A periclitância dos fetiches inalcansáveis e de uma matéria que sendo sólida se desfaz entre meus dedos se mostra distante. Sei que daqui há seis anos quando eu comparar um passado ausente com um presente vigente encontrarei novamente com vocês, intactos, ilesos. Me sinto segura. E meus olhos distantes se voltam até vocês e meu ser peregrinamente sem rumo encontra um destino seguro, encontra vocês. Tenho um lar, e em cada um de vocês quatro, encontro pedaços lançados e jogados daquilo que sou, daquilo que fui e daquilo que serei. 
Amo vocês.

domingo, 22 de abril de 2012

O que resta

"Tudo o que era sólido se desmancha no ar, tudo o que era sagrado é profanado, e as pessoas são finalmente forçadas a encarar com serenidade sua posição social e suas relações recíprocas." (Karl Marx, Manifesto Comunista)



Tudo que era sólido se desmancha no ar, as coisas sempre começam tão rápido quanto terminam e somos forçados a encarar com serenidade a realidade que nos  resta... As partículas desfeitas daquilo que idealizamos solidamente se desmancham no vento.  Fica o que resta, o que resta é nada, o nada é vazio...

Seis metades de hora

"Em seis dias, Deus fez o mundo; em seis dias, eu refiz o meu." (Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas)

Senti uma dor intensa no primeiro momento. Durante os primeiros trinta minutos quis evaporar, e me perguntava se realmente era necessário passar por tudo aquilo. Não consegui disfarçar, falei, e me desfiz em uma ausência completa de mim.
Durante os próximos trinta minutos, me senti triste. Quis chorar, e uma falta de conteúdo interno se concretizou em minha introspecção.
Nos terceiros trinta minutos senti uma raiva que se voltava contra mim. Talvez por ter acreditado e sonhado com aquilo que jamais existiu.
No quarto intervalo de trinta minutos falei. Falei de tudo o que senti, e as paredes me foram por confidentes.
No quinto intervalo de trinta minutos parei.
No sexto intervalo de trinta minutos, dormi.


E meu querido leitor, ao acordar, confesso que me senti a versão feminina e aprimorada de meu grande herói Brás Cubas. Em seis dias Deus fez o mundo, em seis dias Brás Cubas refez o dele, e em seis metades de hora eu refiz o meu. Nada é o fim meus caros, nada é o fim...

Pedra

O que fazer quando a utopia se desfaz, quando as ideologias se recaem sobre minhas dores e os sonhos calados e materializados de um vazio inconstante desabam diante de meus olhos -há muito cegos para a realidade-?

Como lidar com a dor que desatina em uma alma causticada, que querendo chorar se contém? Como lidar com lágrimas que jamais rolaram por uma face, pois essa face já não existe? 

Como lidar com a inconstância de minhas possibilidades, e com uma segurança que em momento algum existiu? Como voltar depois de tanto tempo, e depois de tanta vivência deixar de viver?

O que fazer quando os sentimentos são absurdamente ignorados, e permaneço como pedra em um caminho de pedras, pisoteada e largada, comumente ignorada?

Como reconstruir um mundo que sendo sólido, se desfez no ar? O que é sólido? O que é segurança? O que é sentir pra mim? O que é sentir pro outro?

Meus pés tocam um chão que se reconstrói diante de pegadas alheias a mim. Não é o fim, nada é o fim. É o começo de uma dor que me cura, de um sofrimento que me refaz. Permaneço como pedra, inane, imóvel, abandonada, me desfaço e refaço diante dos olhos de quem sequer me vê.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Mar

"A tragédia deste mundo é que ninguém é feliz, não importa se preso a uma época de sofrimento ou felicidade. A tragédia deste mundo é que estão todos sozinhos. Pois uma vida no passado não pode ser partilhada com o presente." (Alan Lightman, Sonhos de Einstein, 1993)
  
          Absorto e enfetiçado pela primeira visão do mar, João segurava a mão de sua mãe. As ondas que iam e vinham, a areia a cobrir-lhe os pés, o azul do céu a mesclar-se com o azul do mar... Tudo tão inédito, tão surpreendente! A mãe contemplando a alegria do filho, sentia seus esforços recompensados. Desde que ouvira João comentando seu sonho de ver o mar, economizara em tudo. Trabalhava durante o dia como empregada doméstica e durante a noite como garçonete. Há mais de três anos não comprava nada para si e seu salário destinava-se às despesas do dia-a-dia e às economias para realizar os desejos de uma criança amada.
          Passaram bons dias naquela praia. Não havia luxo, não havia requintes... Havia tão somente uma mãe e um filho, que descobriam na companhia mútua uma felicidade pura e simples.
          Os anos correram, João cresceu. Todo o seu desejo infantil, vagamente ingênuo, tomara a forma de sonhos amadurecidos. Dinheiro e felicidade. Esses dois elementos unidos e inseparáveis, motivavam sua vida agora. Nos bastidores uma mãe já senhora concentrava suas lânguidas forças na realização dos sonhos de seu amado João, com um amor materno que o tempo não enfraquecera. Seu salário agora destinava-se aos estudos do jovem, que talvez inconscientemente, lembrando de sua primeira experiência com o mar, julgava poder encontrar aquela mesma alegria ao estudá-lo. Queria ser oceanógrafo. As exigências do estudo o obrigaram a afastar-se de casa, deixando distante, uma mãe que ainda provia seu sustento.
          Depois de concluir o curso, o trabalho manteve João fora de casa. Passava dias viajando mar adentro, possuia dinheiro, faltando apenas a felicidade. A rotina tornou o contato com a mãe escasso. A mãe sozinha recebia do filho dinheiro, faltando apenas o amor. O oceano que outrora os unira, os separava agora. A tão sonhada felicidade se perdeu na ambição pelo dinheiro, e ambos antes unidos em sonhos, se separavam com a realidade.
          Certo dia chega ao renomado oceanógrafo a notícia de que sua idosa mãe falecera. Ele não pode despedir-se dela, o mar os separava. Aquele homem de cabelos grisalhos e olhar ausente, contempla agora as ondas que batiam no casco de seu navio, e lhe traziam de volta as memórias de sua infância.
          Absorto e enfetiçado pela dor, João contempla em solidão o mesmo mar de sua meninice, que agora o separava da alegria. As lágrimas caindo de seus olhos a mesclar-se com a água do mar, o sol se pondo no céu... Tudo tão monótono, tão nostálgico! Do outro lado do mar, sua mãe morta. Do outro lado da vida, uma felicidade esquecida. Entre eles o vácuo do passado, o vazio da ausência, e uma saudade distante... Ah mar...

sábado, 14 de abril de 2012

Ao vazio

Afeiçoo-me ao teu falar porque me sinto como ausente.
E há muito me ouves e minha voz não te toca...

Afeiçoo-me ao teu escutar porque te falo, mas me escutas muda, e não me entendes.
Afeiçoo-me ao teu olhar, porque não me vês, e permaneço a ti como pedra imóvel.
Afeiçoo-me a um sonhar utópico, porque a utopia me faz viver em um terreno inóspito de um imaginário ilusório.
Afeiçoo-me a ti, porque emerges das coisas cheias de mim e preenches lacunas inexistentes de espaços vazios e completos.
Afeiçoo-me aos reflexos de minhas imagens, porque os olho e te vejo no que sou e não sou.
E há muito me ouves e minha voz não te toca...

Afeiçoo-me ás profundidades de um nada instável, que me faz tão bem quanto mal.
E há muito me ouves e minha voz não te toca.

Deixa que eu me cale com a tua voz,
Deixa que eu te fale com meu silêncio que refulge como lua, tão distante quanto profundo.
Todavia há muito me ouves e minha voz não te toca...

Afeiçoo-me ao teu falar porque me sinto como ausente.
E uma palavra basta, e um sorriso me satisfaz.
E há muito me ouves, e permaneço distante, e minha voz já não te toca...

Onde estás?

sábado, 7 de abril de 2012

Ainda que

Ainda que meus sonhos acalentados se concretizem no vácuo,
Ainda que as ondas secas de um mar revolto destruam meus castelos contruídos sobre a areia,
Ainda que minhas lágrimas rolem livremente soltas -presas a uma face desfeita-.


Ainda assim, meus olhos permanecerão vendo o invisível, e meus ouvidos permanecerão ouvindo o inaudível. Minha voz rouca permanecerá gritando muda, e meu ser existirá em inexistência.