Minha lista de blogs
sábado, 25 de fevereiro de 2012
Em tempos...
Em tempos capitalistas onde a produção intensa concentra o capital nas mãos de uma minoria, onde a cobrança é constante e a alienação massacra-nos, procuramos a paz e a justiça.
Em tempos nos quais a fome e a miséria tomam proporções intensas, em tempos onde a vida é demasiadamente periclitante, e a iminência de uma desgraça – ora pela própria natureza revoltosa, ora pelas doenças ou violência- se faz cada vez mais assustadora, procuramos segurança no inconstante.
Em tempos de dor, em tempos de míngua de viveres, em tempos de tristeza, procuramos lenitivo, procuramos o suprimento, procuramos a alegria na melancolia.
Em tempos onde a ganância fala mais alto que os princípios, em tempos onde o amor foi esquecido e a moral caiu em desuso, estamos perdidos, procuramos o rumo.
Em tempos onde a ciência se multiplicou, a crítica cepticista toma conta de nossas mentes, e parecemos a nós mesmos demasiadamente sábios, não temos sabedoria para amar, não temos sabedoria para nos compreender, procuramos nossa essência.
Em tempos onde procuramos não encontramos. E talvez tampouco percebamos que ao excluir Deus, perdemos algo tão abstrato quanto Ele, perdemos a nós mesmos. Inexistimos em vida. E nesse estado lastimoso de inexistência, jamais encontraremos, pois não somos, e só aquele que é procura e encontra.
O ciclo da vida durante séculos de existência humana nos trouxe por fim aos píncaros do paradoxo medíocre. Ganhamos conhecimento e perdemos o amor. Ganhamos poder e perdemos a sensibilidade. Ganhamos o mundo e perdemos a nós. De que adianta nossos ganhos? Se já não somos, e se não somos, também não ganhamos.
Que se resgate o nosso ser, que se resgate Aquele que é o existir, que se resgate Deus, para que por fim encontremos o que procuramos.
domingo, 19 de fevereiro de 2012
Vozes caladas
Medo do que não é real. Medo do que se desfaz, medo do que se constrói. Filosofia irônica do sentimento vazio. Palavras jogadas no vácuo, vozes que não se ouvem. A dor sentida pelo vivente.
O grito rouco e alto, de quem é mudo. A visão do cego. Pessoas vivas que inexistem. Pessoas mortas que ainda matam. Lânguidos espasmos de dor. A dor sentida pelo vivente.
Lágrimas que não rolam na face. Face de um cadáver. Sonhos surreais. Sonhos jamais sonhados. Espaços vazios do nada. Um ser que não é. Um existir utópico. Vozes abafadas. Medos ignorados. Perplexidade. Ansiedade. Dor. Dor. Dor. A dor sentida pelo vivente.
A dor sentida pelo que vive e inexiste em vida. A vida que é a morte. A vida que não se vive. A vida que se esvai. O ser que jamais será. O sentimento que nunca será sentido. A dor sentida pelo vivente.
Ausência
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.
Carlos Drummond Andrade
Progresso
http://www.youtube.com/watch?v=bVjhNaX57iA
A reflexão nos leva á crítica. Por qual motivo determinados seres humanos estariam no topo da cadeia, enquanto outros em um contraste estarrecedor estariam em condição inferior a de porcos? Onde exatamente se estabelece a diferença entre um e outro? Seria um mais humano que seu semelhante?
Até onde permitiremos que o "progresso" seja fator opressor de pessoas semelhantes, unidas pela condição humana e separadas pela condição financeira? Que se ouçam os longíquos estertores de uma classe social que clama por liberdade. Que se ouçam os gritos roucos, e as vozes mudas de seres humanos imersos na penumbra da miséria.
sábado, 14 de janeiro de 2012
Anjos Humanos
Foi em um Sábado pela manhã que tive o privilégio de achar-me vivendo um momento assim. Eu visitava uma igreja em uma localidade pobre. As pessoas por todas as partes carregavam em seus traços as marcas de uma vida causticada pela escassez. Neste contexto, conheci Ana Ryzia, uma criança, que na inocência de sua espontaneidade me proporcionou aprender em poucos instantes lições de uma vida inteira.
Já era dada a hora do fim do culto. As pessoas se retiravam da igreja. No final do corredor pelo qual passávamos, vi uma menina. Era pequena, sua pele era morena, seus cabelos lisos e curtos eram castanhos claros, quase loiros. Seu rosto rechonchudo trazia marcas indígenas, e os olhinhos oblíquos que lhe pertenciam, me observavam atentamente. Olhei para ela, sorri e pisquei. A menina me retribuiu o sorriso e me deu uma piscadela desconcertada. Permaneceu me observando. Eu procurava desviar o olhar, evitando uma situação constrangedora, mas a criança insistia em me observar, provando não se importar com etiquetas e formalidades. Tal atitude por parte dela me levou à meus primórdios existenciais, nos quais cerimônias superficiais não me eram relevantes. Adotando novamente antigos conceitos, permaneci sorrindo para Ana Ryzia, que me correspondia com um sorriso cada vez mais largo.
Alguém conversou comigo, interrompendo a troca de sorrisos, mas Ana continuava inerte, e, encostada num banco, permanecia me olhando atentamente. Findada a conversa, dei alguns passos em direção a porta de saída. De repente, aquela menina de olhos estreitos, porém sorriso largo, veio correndo em minha direção e me deu um abraço forte. Surpresa , retribuí o abraço. Jamais senti um abraço como aquele, que forte, contudo lânguido, se mostrava paradoxal. Talvez representasse o próprio paradoxo existencial humano no qual me achava imersa. Senti a dialética de um abraço que fisicamente fraco era emocionalmente forte. A inocência infantil enlevava o ato de Ana. Troquei algumas palavras com ela, foi assim, que descobri seu nome, e os poucos oito anos de vida que possuía.
Perguntei-me como poderia um abraço significar tanto. Desencobrindo fetiches e devaneios recônditos, aquele abraço me rememorou propósitos perdidos ao longo dos caminhos existenciais longamente tortuosos. As lições que aprendi recebendo um abraço se tornaram ainda mais intensas e significativas quando me dei conta do contexto sócio-cultural que circundava a menina.
Após o abraço e o curto diálogo, me dirigi ao carro. Enquanto eu entrava no carro, Ana Ryzia passou sorrindo e acenando, sentada na garupa da bicicleta do pai, dividindo espaço com outra criança. Foi aí que me dei conta de que a pobreza era evidente. Aquela criança vivia no sertão Cearense, onde a seca castigava, e os meios de sobrevivência são escassos. Não vi sua mãe, talvez a menina sequer tivesse mãe.
Senti vontade de sair correndo atrás da bicicleta que levava Ana, talvez eu pudesse pedir outro abraço a ela, outro abraço que como aquele, devolvesse a minha ingenuidade infantil – perdida ao longo do tempo-, e me fizesse enxergar o sentido óbvio da vida. Sua simplicidade e pobreza eram complexas e ricas. Ainda agora, causa-me admiração o contraste entre seu sorriso, juntamente com seu abraço tão espontâneo, e a pobreza na qual a menina estava imersa. Caio novamente em uma reflexão introspectiva que faz com que eu me indague a respeito do significado da pobreza, e as dimensões do sofrimento. De onde viria a força que Ana tinha para sorrir? De onde a menina tirava a alegria e a espontaneidade, para abraçar assim uma estranha que apenas lhe sorrira? O que teria ela visto em mim? Acreditar nas pessoas, enxergar o positivo. Estes conceitos e princípios saltavam dos gestos da menina, me fazendo ouvir o inaudível e sentir o que não se vê.
Talvez, eu não tenha outra vez a oportunidade de encontrar Ana Ryzia. Mas permanecerá intacta em minha mente a lembrança deste abraço, que agora tão distante permanece ainda próximo. Que tão dialético objetivo e simples, me trouxe até os recônditos de meu infinito particular, e ao passo que resgatou, também criou em mim o que ora se perdeu, ora nunca existiu. Como agradecer a essa criança cheia de contrastes, que em sua ingenuidade inocente, me fez tão bem? Permanece a dívida eterna, permanece o vácuo constante, de um agradecimento que jamais se concretizará, mas que em sua impossibilidade me resgata, e me leva a crer em anjos humanos, que cruzam meu caminho com objetivos específicos, me leva a crer em um Deus, com um poder superior, que ensina o que me falta aprender, que estabelece comigo diálogo sem palavras. Nas frestas da simplicidade deste momento, enxerguei a grandiosidade magnificente, doravante inescamoteável de mim.
Esperança para os quandos
Quando eu observar o reflexo de meu rosto em um espelho, e me deparar com as rugas – marcas do tempo-, quando meus cabelos alvejarem-se, quando meus sentidos tornarem-se lânguidos - esvaindo-se de mim as percepções-, quando minha visão for turva, minhas forças fracas e meu prazer esquecido; ainda sob tais circunstâncias, olharei avante, enxergando um futuro.
Quando o mundo repentinamente desabar sobre mim, quando o fim chegar inesperadamente (a existência humana é periclitante), ainda ali, em um lapso inesperado, em meio à iminência de um final, estertores darão lugar a paz, pois o futuro existirá.
Quando a dor me castigar, quando a periclitância me atingir, quando o passado me atormentar, quando o presente me angustiar, olharei além e verei um futuro.
Porque a cruz (símbolo da redenção) me leva até a esperança, a angústia inexiste. A morte deixa de ser o fim, tornando-se o princípio.
Quando, após a vida causticante, meus olhos fecharem-se, não fechar-se-ão eternamente. Haverá um futuro, um dia se abrirão e verão á Deus, a razão de meu porvir, o motivo de minha esperança. “Eu o verei com meus próprios olhos e Ele já não será um estranho para mim”.
Se algum dia os “quandos” tornarem-se reais, não temerei, há esperança para os “quandos”. Que paz preenche as lacunas da minha alma, que esperança há em saber que já não há mais fim.